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Educadores da área de computação devem incluir tópicos relacionados com ética em todos os pontos, de quaisquer disciplinas, onde forem discutidos  tecnologias, métodos e técnicas que tenham ou possam ter impacto social.   Esta declaração, que traduzi livremente, foi extraída de um artigo que li na Communications of the ACM (CACM), que é uma revista considerada de leitura indispensável para a gente se manter atualizado com a evolução da computação. Ética é um ramo da filosofia que busca fundamentar as ações morais exclusivamente pela razão, como é próprio das disciplinas de filosofia. Moral fundamenta-se na obediência a costumes e hábitos originados da cultura, da obediência a leis, etc. Vejam mais aqui para entenderem melhor.

1390929787av6kuPela própria natureza da área de computação, que herdou da lógica a sua principal ferramenta de raciocínio que é a abstração, o conhecimento é passado aos nossos alunos sem contato com a realidade ou com o contexto do mundo real onde o conhecimento vai ser aplicado.  O que contrasta fortemente, por exemplo, com alguns cursos de outras áreas, onde os alunos aprendem a enxergar bem cedo os impactos sociais de um erro de cálculo, de um erro de projeto, de uma cadeira mal projetada, de uma prótese mal colocada, etc. Muito embora isso não seja impedimento para termos esse monte de catástrofes originadas em erros e, de alguma forma, na falta de formação ética. Profissionais de áreas tecnológicas tendem a adotar a visão que prevalece em boa parte da indústria: qualquer coisa tecnicamente viável pode ser produzida e submetida ao mercado, as questões éticas devem ser tratadas posteriormente, pelas equipes que cuidam da aderência dos produtos a normas (compliance) vigentes no setor.

Códigos de conduta existem para todas as profissões. Para a computação, temos disponivel o da SBC – Sociedade Brasileira de Computação, que foi em parte inspirado no código da ACM – Association for Computing Machinery, que é bem mais antigo e mais conhecido na área. Particularmente, gosto muito e divulgo entre meus alunos o Juramento do Engenheiro de Software, que já foi objeto de uma postagem curta aqui no blog. Claro, códigos de conduta  ou códigos de ética não resolvem a questão do comportamento ético, que é aliado ao desenvolvimento do caráter de cada um, dos valores de vida, sociais, respeito pelo próximo. Isso dificilmente pode ser ensinado depois de uma certa idade, mas existe um princípio que gosto de passar adiante, introduzi uma pequena alteração que está entre parênteses,  parece engraçado, mas que para mim fala tudo: se você quiser testar se está sendo ético em suas ações, ponha-se do outro lado (minha alteração: ponha sua mãe do outro lado) e verifique se mesmo assim você vai insistir na sua ação. Se o fato de o possivel prejudicado ser você (ou sua mãe, ou sua avó, ou quem você quiser) alterar seu comportamento, pode ter certeza de que você não está sendo ético. Isso vale para as pequenas coisas do nosso diário, até para xingar pessoas no trânsito.

No mundo atual, em que o software é ubíquo e aparece em todo e qualquer dispositivo, essas considerações sobre ética, moral e conduta profissional são cada vez mais atuais e indispensáveis. Os carros autônomos estão chegando ao mercado, é a tecnologia substituindo o ser humano que não tem competência e equilíbrio para conduzir adequadamente um carro no trânsito maluco das nossas cidades e estradas. Melhor a tecnologia cuidar do assunto, mas… e se o software embarcado no computador de bordo dos carros tiver algum erro, aquele errinho que ficou lá no código porque o programador deixou passar e não testou adequadamente  porque achou que não valia a pena? E se o software embutido em algum wearable, por exemplo um relógio de pulso que gerencia o funcionamento do seu corpo mostrando os indicadores  monitorados o dia todo, indicar por alguma falha de projeto ou implementação que você está no limite de sofrer um ataque cardíaco e você estiver dirigindo seu carro no meio do trânsito?  Mais algumas considerações aqui, se tiverem paciência.

Bom, mas voltando ao inicio da postagem, gostei demais da sugestão do artigo. Não adianta termos uma disciplina inteira, ou mais de uma, dedicada a estudos de ética profissional. Fatalmente, essa disciplina vai tomar rumo próprio, será fatalmente filosófica, desacoplada da realidade. E em pouco tempo, vai ficar mais importante do que o objetivo para o qual foi criada, que seria o de passar bons princípios sociais e de comportamento para os alunos no exercício profissional, vai dar sono na sala de aula, os alunos vão detestar. Basta que o professor que criou a disciplina com seus objetivos originais saia de cena (aposentadoria e outras piores), para que a disciplina se perca. Ao passo que, se em todas as disciplinas os princípios éticos forem enfatizados nos momentos certos, a associação estabelecida com o mundo real não se perderá.

Artigo inspirador desta postagem: Arvind Narayanan e Shannon Vallor. Computing ethics: why software engineering courses should include ethics coverage. CACM March, 2014.

(este artigo foi escrito por zeluisbraga, e postado no meu blog zeluisbraga . wordpress . com) (this post is authored by zeluisbraga, published on zeluisbraga . wordpress . com) (from Viçosa, MG)

Ainda encontro colegas, que estão próximos de poderem se aposentar, que ficam naquele “vou ou não vou?” que é normal nessa fase da vida. Então resolvi voltar aqui no blog, para falar da minha vida de aposentado um ano e meio depois de me aposentar (aconteceu em fevereiro de 2013). Na época da aposentadoria, escrevi uma postagem falando da decisão, das minhas razões, vejam aqui.  Antes de prosseguir, um alerta: não esperem até a aposentadoria compulsória chegar, aos setenta anos de idade. Aposentem-se antes disso, voluntariamente, porque há perdas significativas na compulsória, vejam um artigo sobre o assunto aqui.

images (1)É fundamental que a gente se prepare para a aposentadoria. Eu comecei essa preparação uns cinco anos antes de atingir as condições de aposentadoria (60 anos de idade e 35 anos de contribuição, a soma tem que ser 95 ou maior). Fui esvaziando a sala na UFV, tirando livros e doando, jogando papel fora, limpando as estantes das tralhas acumuladas, etc. Também fui fazendo um planejamento flexível (isso existe?) e pensando no que fazer e, principalmente, no que não fazer.  As ideias mais perigosas são aquelas “quando me aposentar quero ir pescar com minha turma” ou “vou comprar uma caminhonete e vamos viajar o tempo todo”, e outras no gênero. Perigosas porque não são sustentáveis, a gente consegue fazer isso por algum tempo, mas depois cansa, outros compromissos aparecem, os causos já foram todos contados e repetidos até cansar, a turma vai raleando por vários motivos. Viajar é muito bom, mas tem que ter espaço entre as viagens, são cansativas (aeroportos são dureza) e custam caro, impossível ficar todos os anos restantes da vida viajando direto.

Ficar como professor voluntário no meu departamento na UFV foi uma boa decisão. Vou lá com alguma regularidade, duas ou três vezes por semana e somente por um período. Continuo as orientações de mestrado, participo de algumas reuniões da pós-graduação, meus alunos estão terminando as dissertações. E ainda tenho a diversão dos artigos que temos que publicar, isso toma tempo demais. Mas essa atividade não pode se estender por muito tempo, dois anos são mais que suficientes, no meu entendimento. É incrível como, nesse tempo de aposentado, já não conheço mais nenhum aluno de graduação, pois parei com as aulas de graduação. Com os alunos do mestrado eu tenho mais contato, mas aos poucos o afastamento é inevitável. Acho que com mais um ano, vou ser um desconhecido no departamento, quase um fantasma, e ai já está mesmo na hora de cascar fora definitivamente.

E cá fora, existe vida para o aposentado? Claro que sim, foi tudo bem pensado e preparado. Mas as oportunidades não aparecem assim do nada, no meio da noite. Tem que cavar bem o buraco, enquanto ainda na ativa. Não basta se aposentar e bater na porta das empresas, se oferecendo para desenvolver algum trabalho. Não vai colar de jeito nenhum, essa relação tem que começar bem antes, lembrem-se disto. Algumas atividades com empresas e com faculdades privadas da região preenchem um bom espaço no meu tempo, e por enquanto está muito bom. Sobra tempo para ficar tranquilo em casa conversando fiado quando quiser, para o Pilates, para fazer curso de espanhol que sempre quisemos fazer e nunca sobrou tempo,  para caminhadas, para tocar violão, para ir ao clube jogar um tênis quando a coluna deixa, para viagens que são ótimas, para ajudar com os netinhos que estão crescendo, para as leituras que são um grande e inesgotável prazer, quanto mais leio mais livro aparece para ler, etc. Por exemplo, este blog foi uma decisão acertada que  está no ar desde outubro de 2006 e é uma enorme diversão e desafio. Publicar artigos aqui requer leituras, busca de dados e de informações, busca de fontes de informação que possam ser fornecidas nas postagens, participar de redes de blogueiros e escritores, aprender a escrever direito e com estilo, etc. E todo mundo tem estórias e histórias para contar, basta criar coragem e começar o blog.  Estou me preparando agora para um vôo um pouco mais alto, mas ainda é uma ideia inicial, se vingar, vocês vão saber. E ainda falta o violão prá valer, não voltei completamente, o desafio de aprender a tocar blues ainda me persegue, vai ser resolvido em breve.

Como podem ver, não estou tendo uma vida muito fácil como aposentado! Os dias costumam ter atividades direto, desde a manhã até o final da tarde, uma depois da outra. Mas sempre dá tempo, no dia seguinte, de ficar tranquilo aqui no meu canto, escrevendo para o blog, lendo muita coisa interessante. A quantidade de cursos de excelente qualidade, gratuitos, que podem ser feitos via internet, é incalculável. Estou me mantendo atualizado com esses cursos, e em breve vou intensificar e aprender coisas novas em outras áreas, os cursos são muito bons. Tenho um tablet que ajuda bem com o acesso a internet, verificar email, redes sociais, leituras de notícias,  pois fica sempre por perto, e basta abrir a cobertura que ele já está no ar, não tem aquele tempo enorme dos notebooks e desktops para começar a funcionar. Também comprei um leitor digital de livros, no meu caso um Kindle Paperwhite, que se transformou num grande companheiro, com a vantagem de não encher mais ainda minhas estantes e de os livros serem mais baratos. Embora ainda leia os livros impressos, estou cada vez mais habituado com a leitura no Kindle. E com uma carga da bateria, dá para ler uns trinta dias, se desconectar da internet (wifi gasta muita bateria dele).  Detalhe: não é preciso comprar o Kindle, basta instalar o software no tablet ou no celular (se tiver uma tela de pelo menos 4.7″), e funciona do mesmo jeito. Outras marcas também têm o aplicativo para ser instalado, como o Kobo da Livraria Cultura e vários outros.

Concluindo: aposentadoria vai chegar em algum momento, e quanto mais tempo a gente demorar para tomar a decisão de pular fora, pior fica. Pois fica mais dificil o ajuste com a vida cá fora, a gente vai ficando mais restritivo (quer dizer, mais enjoado), e acaba deixando escapar as oportunidades.  E sair pela compulsória é mais complicado ainda, pois aos setenta anos, tudo fica mais dificil, os contatos já sumiram ou se aposentaram também, e a turma nova vai continuar firme no seu pé.

(este artigo foi escrito por zeluisbraga, e postado no meu blog zeluisbraga . wordpress . com) (this post is authored by zeluisbraga, published on zeluisbraga . wordpress . com) (from Viçosa, MG)

downloadMarasmo por conta da Copa, tudo meio paradão, parece que o Brasil parou no tempo. Mas só parece, o mundo continua acelerado, muita coisa acontecendo, tanto aqui quanto fora. Mas a tecnologia não para, e as novidades e inovações vão aparecendo. Uma notícia que me chamou muita atenção ontem, foi a do Oculus Rift, que li no artigo O “Mundo Real” vai acabar em 2015, publicado no site PEGN (Pequenas Empresas Grandes Negócios). Para uma leitura rápida no artigo, parece apenas mais um brinquedo que vem para o mercado concorrer com o Google Glass e outras opções que apareceram no rastro dele. Mas não é exatamente assim, para começar o invento não foi produzido pela indústria de tecnologia.

O projeto tem sido desenvolvido por um jovem empreendedor de 21 anos, Palmer Luckey, que trabalha no projeto desde os 18 anos, e mais uma vez na garagem da casa de seus pais, na California-EUA. Objetivo do projeto:  “desfazer qualquer diferença entre a realidade do cotidiano físico-emocional  e a realidade virtual”.  Ainda segundo o artigo, “Você pode estar deitado numa praia, com um Sol escaldante na cabeça. Mas se estiver usando o Oculus, poderá viver uma experiência “real” de estar esquiando no inverno suíço. Você sentirá frio e a sensação de estar encasacado, com o vento a lhe castigar os ossos“. Ou seja, o conjunto Oculus Rift + software embarcado que o acompanha vão provocar uma revolução, mesclando o virtual com o real, atuando diretamente no córtex cerebral via o software (não me perguntem como isso acontece, eu ainda não tenho a menor ideia).

Até que a invenção chegue ao mercado, devidamente produzido (a reportagem acrescenta que o Mark Zuckerberg do Facebook já adquiriu parte dos direitos, ele não é nada bobo) e com as possiveis falhas corrigidas e ajustadas, ainda vai levar um tempo. Mas isso não impede a gente de deixar a mente viajar um pouco nas aplicações que um invento desses pode ter. De imediato na educação em todos os níveis, a experiência do mundo real pode ser trazida para dentro do mundo do Oculus Rift, permitindo ao estudante viajar pelo mundo afora e pelos ambientes onde as experiências são conduzidas, o que é impensável fazer fisicamente, tanto pelos custos de deslocamentos quanto pela enorme quantidade de estudantes envolvidos. Será possível a um amigo pesquisador da UFV, que desenvolve pesquisas importantissimas com cupins (isso mesmo, cupins são uma das salvações da humanidade consumindo nosso pior lixo), trazer os sítios de locais do mundo onde as espécies de cupins são encontradas e colhidas, para dentro do mundo do Oculus, permitindo ao aluno “viajar virtualmente”   e ter pelo menos uma experiência sensorial com o tema. Imaginem esse tipo de aplicação se espalhando em todos os níveis de ensino, enriquecendo absurdamente aulas das ciências básicas, das engenharias, no ensino fundamental com as matemáticas, etc. Os possíveis usos são fantásticos, e estamos falando apenas na área de Educação. Deixem a imaginação correr solta, para vocês perceberem a revolução que o bom uso deste invento pode causar.

A tarja preta no inicio do artigo é alusiva ao terrivel acidente de ontem em Belo Horizonte, a queda de um viaduto inteiro sobre a avenida Pedro I. Sem comentários, vai ser assunto de outra postagem.

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30369531Minha última leitura foi o livro O Leão da Toscana, um livro que me achou por acaso quando eu estava de bobeira na simpática e excelente livraria Mineiriana em BH, na Savassi.  O livro tem relação direta com um assunto que me interessa muito, que é o ciclismo,  e relata uma parte da vida do ciclista italiano Gino Bartali, que foi o vencedor do Giro d’Italia em 1936, 1937 e 1946, e também do Tour de France em 1938 e em 1948. Reparando na importância das datas, ele venceu o Giro em 1937 e o Tour em 1938, dois anos seguidos, numa época conturbada na Europa, que precedeu a segunda grande guerra.  Dez anos depois de vencer o Tour em 1938, ele consegue já mais velho vencer novamente em 1948, e o livro relata magistralmente esse período da vida de Gino Bartali, da Toscana onde ele vivia na região de Florença, e em particular da Europa da época, do fascismo e do nazismo, da perseguição aos judeus e a outros povos.

A gente nem imagina como eram as condições, na época,  destas duas competições importantes para o ciclismo mundial. Equipamentos ruins, para passar marchas tinha que descer da bike e passar manualmente, roupas inadequadas, fraca proteção contra frio e calor, estradas péssimas, de cascalho e barro quando chovia, baixo nível de apoio durante as corridas, falta de patrocínio (nem existia isso), sapatos inadequados. Isso para encarar duas corridas longas e que duram semanas até hoje, o Giro com 2448 km e o Tour com  3500km pelas cadeias de montanhas europeias. Hoje a gente vê nos canais esportivos a transmissão das duas competições, em épocas próximas (verão Europeu), estradas asfaltadas, carros de apoio indo junto pelas estradas, bikes com altas tecnologias com  um monte de marchas de muita precisão, patrocínios ricos, alimentos balanceados e com alto poder calórico, roupas que protegem do frio e do calor, calçados de primeira linha,  e nem consegue imaginar como era na época do Bartali.

Bartali se transformou em um herói italiano na época, sua integração com a bicicleta e com o esporte era admirável, as novas gerações queriam segui-lo. Foi o grande divulgador do uso de bicicletas pela Itália, tanto na área rural quanto nas cidades. No inicio da segunda guerra, Mussolini mandou chamá-lo, para que ele fosse patrocinado pelo governo fascista da época. Nada pode interessar mais a um governo extremista, seja de direita ou de esquerda, do que ter um herói nacional para onde a população pudesse voltar seus olhares, seguindo os passos do exemplo da suprema raça italiana que o regime fascista queria mostrar ao mundo. Mas Bartali era democrata-cristão, aceitou disputar o Giro e o Tour patrocinado pelo governo, mas internamente não aceitou abrir mão de suas crenças religiosas, e não abandonou a igreja e nem os princípios democráticos que o guiavam. Quando a segunda guerra explodiu e as corridas foram interrompidas, Bartali foi chamado por um cardeal da igreja católica, seu amigo, para ajudar a transportar documentos falsificados pela Toscana afora, para ajudar a salvar a vida dos judeus perseguidos pelo regime. E lá foi Bartali, com a sua bicicleta e com a imunidade que sua condição de campeão nacional lhe conferia, rodar de bicicleta pela Toscana, carregando documentos falsos dentro dos tubos da sua bicicleta. Anonimamente, salvou várias familias, e nunca quis falar sobre o assunto, nem mesmo muito tempo depois. Sua simplicidade e doação a seus semelhantes não lhe permitiam tirar proveito nenhum, e ele considerava pouca a ajuda que prestou.

Não posso me alongar nos comentários sobre o livro, embora esteja tentado a fazer isso. Foi um dos melhores livros que já li. Relato da superação humana através dos esportes, associado com uma parte negra da história da humanidade. Fascismo italiano, inicio da perseguição aos judeus na Itália, e o campeão do ciclismo Gino Bartali ajudando a resistência transportando em sua bicicleta documentos falsificados para ajudar aos judeus e outros, perseguidos pelo nazifascismo que se instalou na Europa e em particular na Itália. Gino Bartali é um exemplo de superação física, de energia para superar a idade nas competições, de identificação homem-bicicleta que se transformam em um objeto único.
Um livraço, recomendo demais.

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Ocupar um cargo público parece que se tornou uma obsessão para uma grande parte dos jovens de nosso país. Já escrevi sobre o assunto aqui em outras oportunidades (Serviço público ou iniciativa privada?, Mercado ou mestrado?), que é cheio de prós e contras, dependendo do foco e visão de mundo de cada um. Infelizmente, o que constato conversando com alguns que se candidatam a vagas em serviço público é que querem estabilidade no emprego rapidamente, algum plano de saúde aceitável e garantia de aposentadoria lá no final da carreira. Mesmo que para isso tenham que engulir um salário abaixo do que é pago no mercado privado para as mesmas funções, ou que tenham que ficar desempenhando as mesmas funções sempre, dia após dia.

imagesMas, tenho observado algumas distorções que considero mais graves. Por exemplo, em recente concurso para Assistente  Administrativo com que tive contato (vejam as atribuições e descrição do cargo aqui),  uma pessoa que conheço, com curso superior completo e mestrado na área, fez o concurso e obviamente, foi aprovado. Bom, mas será que uma pessoa com esse investimento todo em formação superior, não é um enorme desperdício de talento para ocupar uma função que claramente exige nível médio de ensino? Será que a pessoa aguenta ficar nesse cargo a vida profissional inteira? Esse é o caso do superqualificado: um candidato com uma qualificação muito acima do que a exigida pela vaga em questão se candidata, concorre com vantagens em relação aos demais candidatos que têm a qualificação adequada para o cargo, é contratado, e ai? Fica uns meses no cargo, e depois pula fora, pois não aguenta o tranco. E isso é perfeitamente previsível, na gestão de pessoas é considerado uma falha dos editais. E ai começa tudo novamente, outro concurso, mesmo edital, e a estória se repete. Um artigo interessante sobre essa rotatividade, publicado recentemente no Correio Braziliense, pode (e deve, recomendo) ser lido aqui.

O desgaste é muito grande, são recursos públicos desperdiçados com concursos que previsivelmente vão ter que ser repetidos. Não seria mais razoável incluir nos editais, além da qualificação mínima exigida, incluir também a qualificação máxima aceitável? Pode parecer estranho, mas é uma prática comum em outros países, protegendo assim antes de mais nada o próprio estado, e também os demais candidatos que não poderiam nunca se candidatar a vagas com níveis de exigência mais altos por não terem a formação adequada. Ao passo que o superqualificado teria um leque maior de opções diante dele, e prejudicando o de formação mais fraca. Pensem bem: se eu tenho mestrado e me inscrevo em um concurso em que a exigência mínima é segundo grau completo, eu levo uma vantagem imensa logo de cara, e tiro chances dos candidatos que têm apenas o segundo grau e certamente têm o perfil adequado para a função. Vou passar, e depois vou ficar instatisfeito, e em pouco tempo vou tentar arrumar outro concurso para fazer.

Parece que, de uns tempos para cá, ficou proibido proibir qualquer coisa. Um edital de concurso público que coloca apenas o limite inferior como qualificação para se candidatar, é o que eu chamo de edital de “seleção inclusiva”: todo mundo incluido, ninguém pode ficar de fora. Completamente fora de propósito, na minha opinião!

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Não sei se já perceberam, mas a palavra inovação aparece em todo canto, até onde nem deveria passar perto. Já vi até em supermercado, “inovação no atendimento”  e em outros locais mais estranhos. Não duvido que um supermercado possa inovar em atendimento, mas que a primeira vista parece um exagero, lá isso parece. Por definição, inovar é criar algo novo, fazer de maneira diferente o que já é feito de alguma maneira. Necessariamente, tem duas partes, que já comentei aqui em outra postagem: uma envolvida com criatividade que corresponde à parte de criação ou invenção, e outra relacionada com a realização ou implementação da ideia criativa. Se não tiver o segundo passo, então é apenas criatividade, ideias daquelas que a gente tem um monte todo dia, mas que em sua maioria não servem para nada e não resolvem problema nenhum se não forem implementadas.

imagesInfelizmente, tenho visto muito discurso em torno de inovação, muitos artigos acadêmicos, muitas postagens de blog, uma enxurrada de livros, muitas palestras (Youtube está lotado de aulas e palestras sobre inovação), muita gente faturando em cima do assunto. O que interessa mesmo, que é as inovações pipocarem no mercado, na rua, não temos visto. Pelo menos não no volume que seria necessário para levar nosso pais adiante. E a fonte de ideias inovadoras pode estar mais próxima do que parece, como por exemplo o caso já explorado das gambiarras (vejam aqui o correspondente termo em inglês, jerry rig). Que são soluções criativas para problemas, implementadas com o que estiver disponível no momento, e que embutem a ideia de fazer diferente, necessária para a inovação acontecer. Criatividade nós brasileiros temos até de sobra, o que não temos é preparo ou educação suficiente para perceber que uma ideia criativa pode ir para a rua e se transformar em algo inovador que vai fazer diferença na vida das pessoas.

Mas, porque não conseguimos realizar a inovação, se somos muito criativos, e os indicadores mostrarem que também somos muito empreendedores? Aí estão dois problemas: para a inovação aparecer, não basta ser criativo, tem que trabalhar a ideia, implementar, levar ao mercado, procurar financiadores e apoiadores, etc. E, no meu entendimento, o conceito de empreendedor está sendo usado errado para criar as estatísticas. Estão sendo contabilizados ai todos os negócios abertos por necessidade absoluta de sobrevivência, todo tipo de comércio e de serviço. E empreendedor não é bem isso, é muito mais, para mim estão confundindo as coisas, vejam mais aqui. Mas, afinal, como é que vamos nos virar, se não é nada disto?

Temos é que arregaçar as mangas, mandar as definições e artigos acadêmicos pros infernos, e meter a mão na massa. Tem uma ideia boa? é algo que ninguém tentou ou tentou de outra maneira e que pode mudar a vida das pessoas? então acredita nela, leva para a rua, empreende a ideia, estuda e aprende apenas o que for necessário principalmente de fluxo de caixa, junta uns trocados, vende a bike, pega um pedaço da área de serviço da casa, e prototipa a sua ideia. Mesmo que não consiga financiamento, há formas de levar a ideia adiante com recursos escassos, implementando a ideia por deposição ou camadas, adicionando funcionalidades na medida em que o protótipo for ficando melhor. Mais ou menos como se faz na construção civil: ao lançar um prédio, a construtora vende alguns apartamentos ou lojas na planta, constrói uma parte, ai vende mais algumas partes, vai entregando e construindo até terminar. O que restar no final, é o lucro da construtora. Não é uma ideia nova, e o nome técnico correto é bootstrapping, conhecido de quem fez ciência da computação e estudou sistemas operacionais (pelo menos os mais antigos), e que funciona bem com alguns problemas.

Não adianta a gente se iludir, e pensar que só é possivel inovar com muito dinheiro jogado em cima, e que tudo vai se transformar em um Facebook ou Apple. Isso é assim nas grandes empresas globais, dedicadas a um ramo de negócio e que tem um exército de pensadores contratados para ficar o dia todo tendo ideias, testando, implementando, e lançando no mercado como inovações. Vejam as estatísticas das empresas que mais registraram patentes no mundo em 2013, aqui, e o ranking da Forbes das 100 empresas mais inovadoras do mundo, valores de agosto de 2013. Reparem no ranking que há somente duas empresas brasileiras: Natura em décimo lugar, e a BRF  – Brasil Foods em trigésimo-nono. A sobrevivência dessas empresas depende de inovação e do registro de patentes.  Mas, em oposição, vejam que em paises populosos e com população pobre como por exemplo  a India, encontramos inovação em serviços, um exemplo muito citado no mundo todo é o do hospital de olhos Aravind que começou inovando no atendimento e com um modelo de negócios voltado para o social, vejam a entrada na Wikipedia.

Olhando o ranking dos 33 paises mais inovadores do mundo da Bloomberg, vejam aqui, observa-se que esses países têm em comum um excelente sistema educacional que atinge a maioria da população. Não é a toa que o primeiro do ranking é a Coréia do Sul, e Cingapura aparece em sétimo lugar.  Mas, basta isso? não, o estado tem que atuar principalmente não atrapalhando ninguém, criando regras e processos de criação e fechamento de empresas que sejam rápidos e que incentivem a criação de empresas. Dinheiro não é tudo, o ambiente propício é fundamental. Temos aqui no Brasil a ilusão de que basta criar um parque tecnológico, uma incubadora de empresas, que as coisas vão funcionar bem sozinhas. É a famosa estória da ratoeira no deserto: não adianta fazer uma ratoeira super hightech, cheia dos recursos, para pegar ratos no deserto. Será que os ratos vão até lá para cair na ratoeira? Incubadoras e parques tecnológicos sozinhos não fazem o milagre, temos exemplos de estruturas invejáveis e vazias. O trabalho é mais de base, tem que começar lá no primeiro e segundo graus, e continuar no curso superior, e insistir. Ninguém nasce empreendedor, criativo ou inovador, é tudo questão de oportunidade, o que podemos trabalhar é nossa capacidade de enxergar oportunidades. O papel do  estado tem que se limitar a formar gente, criar e manter o ambiente e sair da frente (citação do prof. Silvio Meira).

E tenho certeza de que muitos vão ler essa postagem, e vão ficar com a pergunta: e você, professor, que está criticando tudo, tem feito alguma coisa para ajudar? Resposta: tenho sim, e com sucesso, embora em um ambiente de negócios completamente desfavorável, o que para mim é mais motivante. Tenho feito um trabalho de base, de melhoria de qualidade em produção de software com microempresas e os primeiros resultados são animadores. Com pouco investimento de tempo e recursos, temos conseguido avançar. Em breve conto aqui.

(este artigo foi escrito por zeluisbraga, e postado no meu blog zeluisbraga . wordpress . com) (this post is authored by zeluisbraga, published on zeluisbraga . wordpress . com) (Viçosa, MG)

Bitcoin se transformou em termo de conhecimento obrigatório para quem gosta de tecnologia, e quer entender melhor para onde estamos indo. Uma brecha entre leituras da minha extensa fila, e eu baixei um livro no Kindle, Secret money: living on bitcoin on a real world, escrito por Kashmir Hill, articulista da Forbes,  a capa do livro ilustra esta postagem. Tem material à vontade na web, a entrada na wikipedia já é boa introdução.

41yoRO1ZeDL._SL160_PIsitb-sticker-arrow-dp,TopRight,12,-18_SH30_OU01_AA160_O livro é um relato da experiência da autora, de viver uma semana completa em abril de 2013,  usando apenas bitcoins em São Francisco, California. Não esperem encontrar no livro um detalhamento de “baixarias” sobre o bitcoin, como por exemplo detalhes do algoritmo de mineração da moeda, como bitcoin gera valor, uma análise do seu impacto na economia tradicional, etc. O livro fala apenas sobre o que interessa ou é importante para que o leitor entenda a experiência de viver uma semana sem usar dólares, gastando apenas bitcoins.  Acho que a caracterização a seguir é suficiente para entender o livro: “When you own a bitcoin, it means you’re assigned a value of “1” and you’re the only person who is able to transfer that value in the digital system to someone else, thanks to cryptographic keys that lock your value assignment down. Take away the technomagic sheen and you will see that Bitcoin is just a big ledger system.” É uma moeda virtual apenas, até o momento independente do sistema bancário da nossa economia tradicional, que tem valor de troca no mercado, é aceito em alguns estabelecimentos em alguns países, pode ser comprado de algumas instituições ficando armazenados em “carteiras digitais” identificadas e mantidas debaixo de enorme segurança, tudo criptografado, etc.

O interessante do livro não são os detalhes sobre o bitcoin propriamente dito, mas sim o  lado social aliado ao lado econômico, uma experiência real para responder à pergunta: dá para sobreviver somente com bitcoins? Não deixa de ser um relato de uma aventura, em que a autora deixou cartões de crédito e dinheiro físico (dólar) em casa e se mudou levando apenas 5 bitcoins adquiridos no mercado a US126.69 cada. O valor em dólares varia muito, e no relato o valor chegou a cair abaixo de 100 dólares em apenas uma semana. O livro prende muito a atenção dos interessados em tecnologia, pois a emergência do bitcoin e de outras moedas virtuais que vão certamente surgir significa muito tanto do ponto de vista da tecnologia, quanto do ponto de vista do sistema econômico tradicional, dominado pelos intermediários que são os bancos. O relato é cheio de altos e baixos, mostrando as dificuldades de conseguir se alimentar, pagar aluguel, alugar carro, alugar bike, pagar táxi, etc., muitas respostas do tipo “Bit what?”.

Se formos pensar bem, dinheiro como o conhecemos nada mais é que informação em última análise. Quando pagamos alguma coisa via web, ou via cheque (ainda existe?) ou via moeda física, o que de fato estamos fazendo é uma transferência de informação. Os bancos atuam como intermediários autorizados a dar credibilidade ao sistema, apenas isso. A nossa moeda atual é impessoal, facilmente transferível, etc.  O que um sistema virtual como o do bitcoin faz é subverter essa ordem, abalando o poder dos bancos, e repassando esse poder ao indivíduo que possui os bitcoins. Eu passo a ser meu próprio banco, a única autoridade intermediária que ainda existe é um tipo “cartório”  que mantém um livro caixa com o registro, em meu nome, de todos os bitcoins que eu possuo, identificados e associados comigo. Quando pago alguma coisa e transfiro a posse para outro indivíduo, a informação de troca de propriedade vai junto. Ou seja, é mais próximo de um sistema de troca de informações apenas, que corre paralelo ao sistema bancário tradicional. Com um detalhe:  o número máximo possivel de bitcoins foi estabelecido pelo seu criador e é respeitado pelos algoritmos oficiais de mineração. Se aumentar a procura por bitcoins, seu valor vai subir, e vice-versa, seguindo a lei de regulação da oferta-demanda da nossa economia. E por isso mesmo, levantou a ira do sistema tradicional, que se vê ameaçado pelas moedas virtuais, e que são gradativamente aceitas em estabelecimentos comerciais e países.

Para pensar: será esse o futuro? o sistema bancário como o conhecemos hoje, e de resto a economia do mundo, vão sucumbir aos bitcoins e assemelhados?

Atualização 17/05/2014 – A autora do livro, Kashmir Hill, repetiu a experiência relatada no livro, no início de 2014, para verificar se houve evolução no uso de bitcoins no periodo, na mesma região do Vale do Silício nos EUA. O relato dela está aqui, muito interessante, vale a leitura.

Atualização 22/04/2014 – 1-Milton Friedman, economista, em 1999 previu a emergência dos bitcoins, vejam aqui.  2-Kashmir Hill, autora do livro, em palestra sobre o livro, Surviving on bitcoin for a week.

(este artigo foi escrito por zeluisbraga, e postado no meu blog zeluisbraga . wordpress . com) (this post is authored by zeluisbraga, published on zeluisbraga . wordpress . com) (Viçosa, MG)

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