Vannevar Bush
Para entender melhor o presente, um pouco de história ajuda muito. Particularmente quando se fala em desenvolvimento científico e tecnológico de um pais, que leva muitas gerações para começar a mostrar resultados, os modelos e exemplos de outros países devem ser tomados como ponto de partida. Vannevar Bush é considerado o primeiro cientista levado a sério como conselheiro de presidentes estadunidenses, com uma atuação muito forte na Segunda Guerra Mundial, e mais ainda depois que ela acabou em 1945 (não tem relação nenhuma com o Bush atual presidente dos EUA).
Em 1941, o presidente Roosevelt criou o famoso Office of Scientific Research and Development (OSRD) e nomeou Bush seu diretor. A missão do OSRD era desenvolver e coordenar as pesquisas que levassem os EUA (e aliados) a ficar em vantagem na guerra, cooperando com os pesquisadores civis das universidades estadunidenses. Por exemplo, o famoso Manhattan Project que levou à construção da bomba atômica foi gerido pelo OSRD até 1943, quando passou para o controle do Exército. A constatação de que a Segunda Grande Guerra seria um enorme desafio tecnológico, foi a força que movia o investimento em pesquisas de todo tipo, focadas no esforço de guerra.
Ao final da guerra, esperava-se que o grupo de cientistas chefiados por Bush, e que faziam parte do OSRD, continuassem seu trabalho em uma agência equivalente, voltada para o desenvolvimento tecnológico nos tempos de paz. Em julho de 1945, Bush encaminhou ao presidente Truman (Franklin Roosevelt morreu em abril de 1945) o seu famoso relatório Science, the endless frontier, em que deixava claro que um país que quisesse se desenvolver econômicamente e ficar na dianteira tecnológica no planeta teria que investir pesadamente no desenvolvimento da ciência, da pesquisa, da educação, pois a tecnologia somente se desenvolveria sobre sólidas bases científicas. Sugeria, nesse relatório, a criação de uma agência de fomento ao desenvolvimento científico e tecnológico, o que somente veio a acontecer em 1950, com a criação da conhecida e poderosa National Science Foundation (NSF).
Uma contribuição interessante desse misto de cientista, empreendedor e homem de visão de futuro, foi o pouco conhecido Memex, descrito originalmente no artigo As we may think. Esse artigo foi publicado na prestigiosa revista estadunidense The Atlantic Monthly, e as idéias contidas nele são consideradas as precursoras dos modernos sistemas de hipertexto que foram a base da linguagem HTML e da www-world wide web. Bush considerava de extrema valia para auxiliar os cientistas a pensar e a se organizar um mecanismo, que ele denominou de Memex, que permitisse estabelecer links entre diferentes artigos, partes de texto e de material, da mesma maneira como se faz hoje com a navegação em páginas web. Não deixem de ler os dois artigos, são muito interessantes, principalmente se levarmos em consideração a época em que foram escritos, e mostram a criatividade e o poder de inovação de Vannevar Bush.
A visão de desenvolvimento cientifico e tecnológico deixada por Bush influenciou todo o mundo ocidental desde então. Criação de organismos de fomento, política de financiamento de pesquisa, formação de massa crítica para apoio e desenvolvimento da pesquisa científica e tecnológica, tomaram seu modelo como padrão e exemplo. Sua valiosissima lição foi a de que o desenvolvimento cientifico e tecnológico têm obrigatoriamente que ser um objetivo de longo prazo, que envolve formação de mão de obra, criação de massa critica, financiamento, criação de infra-estrutura, mudança de cultura, etc. Para ter continuidade, esse esforço tem que fazer parte de uma política nacional de desenvolvimento científico e tecnológico, acima dos governos e dos governantes, um empreendimento estratégico de um pais.
Para quem quiser ler mais sobre esse tipo de assunto, recomendo o livro abaixo, que tem uma parte histórica muito interessante sobre ciência, tecnologia e a relação entre as duas que não é linear, como é o modelo secular: em um extremo a ciência básica, no outro extremo a ciência aplicaca, criando uma espécie de maniqueismo nocivo, que põe cientistas e suas equipes em eterna competição uns com os outros, atrasando o desenvolvimento. A discussão é muito enriquecedora, e um dos grandes exemplos do livro é o do cientista francês Louis Pasteur, que escapou completamente ao modelo linear vigente, pois suas pesquisas se iniciavam por algum interesse tecnológico, nas aplicações, que levavam a grandes avanços na ciência básica. A constatação de que a ciência básica se desenvolve muito mais quando pressionada por demandas do desenvolvimento tecnológico foi uma ruptura do modelo linear de pensamento, levando o autor a propor um modelo baseado em duas dimensões, mais adequado ao mundo atual. E de quebra, o livro ainda discute a questão de politicas (nos EUA) de C&T, financiamento, etc.
O QUADRANTE DE PASTEUR
A CIENCIA BASICA E A INOVAÇAO TECNOLOGICA
Coleção: CLASSICOS DA INOVAÇAO
Autor: DONALD STOKES
Editora: UNICAMP, 2005