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Archive for the ‘Livros’ Category

1808

Sexta-Feira, 30 Outubro, 2009 Jose Luis Braga Deixe um comentário
1808

1808

Terminei de ler o livro 1808, escrito pelo jornalista Laurentino Gomes. Uma viagem com a família real, desde a escapada de Portugal em 1807 e a volta para lá em 1821. O contexto histórico recuperado com muito cuidado, muita pesquisa histórica, um monte de leituras  para conseguir passar ao leitor um modelo da época o mais próximo possivel da realidade.

Interessante é que a imagem que fica na nossa cabeça desde criança, quando a gente estuda História do Brasil pela primeira vez e toma conhecimento da vinda da família real Portuguesa, é a do brilho das cortes, o glamour, bailes, festas, conversas de alcova, pessoas bonitas e bem vestidas. Logo de inicio essa imagem é destruida, pelo relato da viagem com um nivel riquissimo de detalhes. A vida a bordo dos navios da frota real é narrada com muito realismo, foi um enorme sofrimento para todos, principalmente para as mulheres. Banho? nem pensar, comida de vez em quando, água para beber racionada, dormindo ao relento, sol escaldante, roupas completamente inadequadas para o clima tropical, doenças de pele, escorbuto.

Leitura fácil, capitulos curtos,  muito interessante, prende o interesse em todos os capítulos. Apesar de o livro ter luz própria e dispensar mais recomendações, recomendo fortemente aos leitores do blog. Muda nossa visão de Brasil, da nossa origem como povo, da mistura de culturas, a gente passa a entender tudo um pouco melhor. E dá vontade de ler muito mais sobre tudo isso.

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Caminhos para a paz

Sábado, 29 Agosto, 2009 Jose Luis Braga 2 comentários

9788561635176-250x250As leituras agora em julho foram poucas, mas selecionadissimas. O cansaço do semestre passado, somado ao monte de artigos que julguei para congressos, simpósios e revistas, mpsBR, bancas de dissertação,  me tiraram um pouco da disposição para outras leituras. Mas, claro, estou sempre lendo, e achei uma pérola numa livraria em BH: A música desperta o tempo, do conhecido e famoso  maestro Daniel Barenboim.

O maestro é nascido na Argentina (1942), talento precoce na música clássica, e por isso mesmo considerado cidadão do mundo. De descendência judaica, o maestro tem um trabalho reconhecido mundialmente em prol da paz e harmonia entre os povos do mundo e, em particular, entre judeus e palestinos em Gaza. Por esse seu trabalho, recebeu reconhecimento internacional via o prêmio Prêmio Príncipe das Astúrias, da Fundación Príncipe de Asturias, da Espanha. O livro é exatamente sobre essa questão, mas abordada sob um ângulo inusitado: o da música, das grandes sinfonias, da harmonia, do ritmo, da integração entre músicos, instrumentos, música e regência como metáforas para uma paz mundial.  Particularmente, a 5a. Sinfonia de Beethoven é citada inúmeras vezes no livro, é considerada pelo maestro uma obra dedicada ao equilíbrio, cooperação e tolerância.

Uma parte do livro é dedicada a explicar para o leitor leigo,  esse equilibrio e ecologia das orquestras, que são usados como metáfora para expor seu ponto de vista sobre o equilibrio e convivência entre os povos na Faixa de Gaza. A partir daí, o maestro explora a metáfora para propor um modelo de paz na região da Cisjordânia, muito bonito e interessante. O melhor de tudo é que a discussão e as propostas são imparciais, sem levar o leitor a tomar partido de um ou outro lado, sempre no equilibrio e na visão da paz que exige deixar os preconceitos de lado, em algum momento. E isso é conseguido na integração entre os músicos em uma orquestra. As idéias do maestro foram colocadas em prática, com a criação por ele e seu amigo Edward Said da East-West Divan Orchestra, composta por músicos do Oriente Médio: egipcios, iranianos, israelitas, jordanianos, libaneses, palestinos e sirios.

O poder da música reside em sua capacidade de se comunicar com todos os aspectos do ser humano – o animal, o emocional, o intelectual e o espiritual. Com muita frequência, pensamos que as questões pessoais, sociais e políticas são independentes, sem influir umas nas outras. Pela música, aprendemos que essa é uma impossibilidade objetiva: simplesmente não existem elementos independentes. O pensamento lógico e as emoções intuitivas devem estar constantemente unidos. A música nos ensina, em resumo, que tudo está ligado.” (último parágrafo do último capítulo do livro, antes dos Apêndices)

A música é a linguagem da alma…

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Pesquisa em ciência da computação

Sábado, 6 Junho, 2009 Jose Luis Braga 1 comentário
Metodologia

Metodologia

Ofereço no primeiro semestre de cada ano, uma disciplina obrigatória no Mestrado em Ciência da Computação do DPI, voltada para técnicas de pesquisa em ciência da computação. Como não havia um livro especifico para a área, quebro o galho com capítulos de livros clássicos, com alguns artigos técnicos, com a biblioteca digital sobre Filosofia da Stanford University, e muito trabalho para os alunos terem oportunidade de amadurecerem as idéias em um semestre. O trabalho final da disciplina é um pré-projeto de dissertação, fechado com uma reunião final de apresentação dos mesmos, na presença dos orientadores.

Bom, na semana passada, circulou na lista da SBC o anúncio do livro Metodologia de Pesquisa para Ciência da Computação, do prof. Raul S. Wazlawick (o mesmo autor do livro Análise e projeto de sistemas de informação orientados a objetos).  Encomendei logo um exemplar na livraria Nóbel aqui em Viçosa, e ontem (sexta, 5/06/2009) dediquei minha tarde de trabalho à leitura e avaliação deste livro. Uma agradável surpresa, um livro prático, cheio de bons exemplos e discussões interessantes, voltado para resultados, bem escrito, que vai finalmente suprir a deficiência de um livro específico para a área de computação, que tem as suas particularidades (e muitas).

Os titulos dos capítulos: Introdução, Estilos de Pesquisa Correntes em Computação, Preparação de um Trabalho de Pesquisa, Análise Crítica de Propostas de Monografias (excelentes exemplos), Escrita de Monografia, Escrita de Artigo Científico, Plágio, Níveis de Exigência do Trabalho de Conclusão. Todos seguindo o mesmo estilo, leitura fácil e agradável. Um esclarecimento: o termo monografia é usado no livro para se referir a qualquer trabalho escrito de conclusão, seja de graduação, de mestrado ou de doutorado, evitando as ambiguidades que surgem quando se usam os termos dissertação e tese.

Não é minha pretensão aqui fazer uma resenha do livro, recomendo que os interessados leitores do blog adquiram um exemplar e leiam mais de uma vez. As dúvidas vão desaparecer, e certamente vocês vão estar mais bem preparados para esse desafio da vida acadêmica. Boa leitura!

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The object primer

Domingo, 5 Abril, 2009 Jose Luis Braga 4 comentários
Object primer

Object primer

Finalmente, terminei mais uma maratona de leituras das férias, a última é esse livro ai, The object primer, do Scott Ambler, na fila desde o final de 2006 (meu tempo para leituras é cada vez mais escasso). É um livro muito bem recomendado por quem está no mercado, enfrentando a modelagem e implementação de software na prática. Na academia, vejo raras referências a ele, talvez por ser um livro muito voltado para a prática, para o dia a dia e para o como-fazer. Que, afinal, é o que interessa para quem vai para o mercado, não é isso? O autor, Scott Ambler, é um dos precursores dos métodos ágeis, mantém vários sitios na web, dentre os quais recomendo a referência principal, o AmbySoft. O Ambler é autor de outros livros conhecidos, um deles traduzido para o português, Modelagem Ágil, também muito bom. O que vejo de muito positivo nas idéias do Scott Ambler, é que ele não é um agilista xiita, que acha que métodos ágeis resolvem tudo e estamos conversados, o resto é passado. Pelo contrário, em todos os seus escritos, ele tem o cuidado de deixar claros os limites dos métodos ágeis, mostrando os possiveis caminhos de adoção. Em momento algum, ele despreza o conhecimento acumulado no desenvolvimento de software com base em processos organizados e controlados, que continuam sendo muito mal entendidos pela maioria dos programadores e projetistas.

O livro é muito bom, e muito bem escrito. Como já disse, muito voltado para a prática, para o dia-a-dia, com base na experiência do Scott Ambler, que não é pouca. Não seria possivel numa postagem curtinha, falar do livro todo. Os capítulos que mais me agradaram foram: 5-Usage modeling, 6-User-interface development, 8-Conceptual domain modeling, 10-Agile architecture, 12-Structural design modeling, 13-Object oriented programming e 14-Agile database development.

O capítulo 10, em particular, é muito interessante, pois aborda um tópico completamente obscuro para a maioria dos programadores e projetistas: afinal, o que é a arquitetura do software? Considero este conceito o mais mal entendido de projeto de software, vai ser objeto de uma postagem exclusiva aqui, em breve. O capítulo 12 aborda extensivamente a construção de diagramas de classes do ponto de vista da engenharia de software, que é o objetivo final de todo projeto orientado a objetos. Este capítulo é complementar ao 8, minha dica é ler os dois em sequência, 8 e 12.

Se me perguntarem quais os capitulos devem ser lidos, recomendo ler todos. Mas, se você for obrigado a eliminar alguns e se concentrar na essência do livro, recomendo esses relacionados acima. O livro é um bom investimento em conhecimento, e está até barato no mercado de livros usados da Amazon. Bom proveito!

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Filosofia da ciência

Sábado, 21 Março, 2009 Jose Luis Braga 6 comentários

Filosofia

Uma das minhas diversões preferida é a leitura. Sempre li demais, a vida inteira, minha geração não teve televisão, videogames, telefone celular, etc. A boa leitura deixa a gente viajar, a imaginação e a criatividade voam. E as leituras sobre filosofia fazem parte desse gosto, pois continuo achando que uma base filosófica forte é imprescindível para entender melhor o mundo e suas relações cada vez mais complexas. Esse gosto pela filosofia se expandiu na época do doutorado, nosso orientador é, antes de mais nada, um filósofo da ciência e promovia discussões intermináveis sobre o tema, que tinha relação direta com as nossas teses (nossas, no caso, de todo o grupo que trabalhava com ele na época).

Vez por outra aparecem livros que deixam a sua marca. Um deles foi O mundo de Sofia, Jostein Gaarder, quem não se lembra? está nas listas de mais vendidos até hoje, e eu devo ter dado vários de presente a filhos, sobrinhos, orientados. No final de 2008, passando o Natal em BH, descobri outro livro, o Filosofia da ciência: introdução ao jogo e suas regras, escrito pelo prolifico e respeitado Rubem Alves. Assim que vi a referência a esse livro, li a resenha, e nem pensei mais, fui lá na Livraria Ouvidor, na Savassi, comprar um para ler o mais rápido possivel.

A linguagem é muito simples, o livro foi feito para atingir o grande público. É de uma riqueza indescritível, uma viagem pela filosofia da ciência, séculos e mais séculos de idéias, relações, filósofos e suas filosofias. Modelos, teorias, leis, paradigmas, receitas, antropologia da ciência, dedução, indução, o papel da lógica, a construção do conhecimento, Hume, Kuhn, Nietzsche, Comte, Polya, Maxwell, Popper, tudo apresentado e discutido de maneira fácil, fica até parecendo que filosofia é leitura de banheiro…

Não marquei nenhuma parte específica do livro para trazer para essa postagem, pois não existe essa passagem que seja uma marca do livro. Ele é todo uma marca, um livro de poucas páginas (223 no total) em formato de “quase bolso”. Com a vantagem de ser barato, acessível, se tiverem oportunidade, não deixem de ler.

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Mercado de livros usados

Sábado, 7 Março, 2009 Jose Luis Braga 11 comentários
Sebo   

 

 

 

Sebo

A venda e troca de mercadorias é tão antiga quanto a própria humanidade. É uma prática que faz parte da cultura do mundo todo, talvez herança dos fenícios e seus descendentes. Os sebos existem há séculos, quem nunca entrou em um sebo e ficou lá horas, procurando algum título interessante? Com a difusão da internet e o aumento dos negócios feitos eletrônicamente, esse mercado de usados, principalmente livros, explodiu, e hoje merece muita atenção (a imagem ao lado, está originalmente aqui).

Compro regularmente no mercado de livros usados da Amazon.com. Eles vendem outros itens da mesma forma, mas meu principal interesse por lá são os livros, outros produtos são taxados e acaba não valendo a pena. Esse mercado tem uma estrutura interessante: a Amazon é o intermediador, falando com os dois lados, comprador e vendedor. O vendedor se cadastra na Amazon como tal, aparentemente por um processo simples pois toda vez que eu faço uma busca por algum título, me aparece um link com a pergunta: Have one to sell? sell yours here…, na página de informações do livro. Reparem no link do livro Made to stick (por sinal um livro muito interessante que está na minha fila de compra), esse link Have one to sell?… está do nosso lado direito.

A informação sobre a disponibilidade de exemplares no mercado de usados, para o título procurado, vem logo após as informações do livro novo: quantidade de usados em oferta, o preço mais baixo, e o link que vai levar o cliente para a lista de usados.  Reparem nessas informações para o livro acima, o link para a página de usados está aqui, ofertas ordenadas por ordem crescente de preço. As informações importantes para cada item são: -o estado do livro, que  aparece na coluna Condition (Like New, Very Good, Good e Acceptable);  -na coluna Seller information, aparecem as informações sobre o vendedor, como por exemplo o estado de origem, se está disponivel envio internacional e, mais importante, o ranking do vendedor (parecido com o ranking do Mercado Livre).

Procuro comprar sempre Like New ou Very Good, e até agora não quebrei a cara. Isso só aconteceu quando comprei um livro de estatística do Montgomery (muito bom), a melhor condição disponível era Good, e eu comprei assim mesmo, e o livro veio todo rabiscado e marcado, uma merda, acho que deve ter pertencido a estudante estadunidense de curso de graduação. Tem um risco ai, claro, e na mesma coluna Seller information, tem a linha Condition,  que tem alguma informação sobre o estado do exemplar do livro.

Uma vez selecionado o vendedor, o resto se passa do mesmo jeito que na compra de livros novos.  A intermediação da Amazon.com volta ao ar, informações do comprador são coletadas (se você for cadastrado na Amazon, mais fácil ainda), e as informações do comprador são repassadas internamente ao vendedor escolhido, que se encarrega de enviar o livro diretamente para o endereço do comprador. A Amazon faz o débito no cartão do comprador, e repassa o valor para o vendedor, e garante a venda. Qualquer reclamação não resolvida, o vendedor arca com as penalidades, a principal é a eliminação da lista de vendedor de usados.

Várias outras livrarias descobriram esse rico mercado, e também vendem usados, esse mercado se espalhou na internet  e funciona a pleno vapor. Confiram: Alibris, Powells, e a excelente Estante Virtual, brasileira, que congrega um monte de livrarias de usados e sebos, acha-se de tudo por lá. Uma nova iniciativa por aqui,  que parece estar dando bons resultados, é o sitio TrocandoLivros,  alguns leitores estão enviando boas referências.  Boas compras ou boas trocas!

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Inovação, trabalho em equipe e o processo de software

Sábado, 14 Fevereiro, 2009 Jose Luis Braga 7 comentários
Watts Humphrey

Watts Humphrey

Vou acumulando referências a livros  durante o ano, alguns eu compro, outros ficam na fila. Para ler quando der tempo, o que acontece normalmente nas férias. Só que a pilha fica meio alta, e dá até agonia ver tanto livro bom esperando para ser lido.

Esse livro ai, Managing technical people: innovation, teamwork and the software process, escrito pelo Watts S. Humphrey, eu acabo de ler. Para quem não conhece o autor, é nada mais nada menos que o grande mentor da criação do SEI-Software Engineering Institute, autor de vários livros ótimos em Eng. Software, e responsável pela criação, teste e disseminação dos processos PSP-Personal Software Process, TSP-Team Software Process e o conhecidissmo CMMi-Capability Maturity Model integrated. As referências e material sobre esses processos, a relação entre eles, o nível de adoção, white papers, processo de avaliação, etc., estão disponíveis nos sítios do SEI indicados acima.

Bom, peguei a referência a esse livro não sei mais onde, foi em algum bom blog de que assino o RSS. O livro é antigo, de 1997, ficou meio esquecido e não fez tanto sucesso editorial quanto os outros livros dele. Achei um livraço, merece ser lido pelo menos em parte. Apesar de não ter nenhuma novidade do ponto de vista de gerência de equipes para a área de Administração, a abordagem dele é dirigida para a área de TI, e ele conta toda a sua experiência no gerenciamento de equipes (inovadoras) de pessoal técnico (engenheiros, analistas, pesquisadores). Experiência que não é pouca, adquirida nos seus muitos anos de IBM, onde se aposentou. Lendo esse livro, dá para ter uma visão excelente do assunto, que só poderia ser adquirida lendo vários livros de Administração. E mesmo assim, ainda teriamos que selecionar o que ler, pois tem meia tonelada de livros sobre esse assunto.

Se você tem interesse na gerência de projetos, então esse é um livro obrigatório. Está fora de catálogo, só é possivel comprar no mercado de usados. Comprei o meu na Amazon, por US$1.66 mais US$15 de porte, não chegou a R$30,00, uma merreca para um livro desse calibre e pelo tanto que pude aprender com a sua leitura.

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Risco, incerteza e seus impactos

Domingo, 24 Agosto, 2008 Jose Luis Braga 1 comentário

Alguns livros conseguem fazer a gente ultrapassar barreiras na forma de enxergar o mundo, seus desafios e riscos. Terminei de ler o best-seller da lista do New York Times, The Black Swan: the impact of the highly improbable, autor Nassim Nicholas Taleb (avaliação do NYT aqui), que é um desses livros. Em suas quase 400 páginas, o autor consegue passar de forma simples e fácil de entender uma questão complicada e  que foge ao cotidiano das pessoas: como os eventos altamente improváveis, aqueles com que nem perdemos tempo para prestar atenção, têm impacto nas nossas vidas?

Somos parte de uma sociedade que somente consegue se sentir confortável quando lida com eventos previsíveis. Segundo o autor, é a cultura da curva de Gauss ou da distribuição Normal (Estatística), lembram-se dela? Aquela distribuição de probabilidades que é representada por uma curva em forma de sino, que tem uma região de maior probabilidade de ocorrência de eventos perto da média, e que na medida em que se afasta do ponto médio, a probabilidade de ocorrência dos eventos cai muito rapidamente.  Como por exemplo quando se toma a altura da média da população masculina brasileira, que deve rodar em torno de uns 1,70m. Quando se afasta desse valor, as probabilidades caem muito, por exemplo, a probabilidade de aparecer um brasileiro com uma altura de 2,20m é baixissima, idem para um brasileiro com 1,20m de altura! A probabilidade de isso acontecer é tão baixa, que nem nos preocupamos com ela, nenhum fabricante de calça jeans ou de camisas vai produzir numeração para essa exceção (como também fabricantes de carros, de ônibus, aviões, camas, sapatos, bonés, etc.). Quando lidamos com algum problema em que as variáveis seguem distribuição normal (ou conseguimos forçar a barra para que isso ocorra), ficamos completamente confortáveis e à vontade.

Mas, o livro leva a conversa para outro rumo: e os eventos que não seguem distribuição normal? Aqueles eventos altamente improváveis, que podem representar um enorme risco e que têm associado uma grande incerteza, porque não conseguimos prever sua ocorrência? Como por exemplo o ocorrido em 11 de setembro de 2001, no ataque às torres gêmeas em NY, um evento que deixou o mundo todo paralisado e sem ação. Fugiu da normalidade e dos melhores modelos de predição existentes, e representava apenas um risco distante, com um grau de incerteza associado também tão grande que ninguém prestava atenção nele. Havia indícios de que poderia ocorrer, mas até por questões de segurança, nada foi divulgado pois dentre outras coisas, ia ficar parecendo coisa de professor de universidade, pesquisador maluco que fica brincando com as suas fórmulas e que teria chegado a alguma conclusão absurda. O custo do aparato necessário para evitar o acontecimento seria astronômico e, se ele tivesse funcionado, o evento não teria ocorrido… e tudo teria parecido um enorme desperdício de recursos com medidas preventivas e mais uma insanidade de órgãos de segurança estadunidenses. Por favor, entendam o argumento: estamos falando da nossa incapacidade de prever os eventos improváveis, não estou emitindo julgamento de valor sobre a enorme perda de vidas humanas no 11 de Setembro, o que por si só justificaria qualquer investimento para que fosse evitado.

Esse é o argumento central do livro, e ele descreve um monte de situações similares que ocorreram ou que ainda podem ocorrer. O ponto principal é a nossa incapacidade de fazer avaliações de riscos e nos preparar para eles, no que é denominado de contingenciamento de riscos. Por exemplo, nessa primeira semana de julho de 2008, ocorreu em São Paulo a queda nos serviços de internet e telefonia, prestados pela Telefônica. Caos total, um enorme prejuizo econômico para bancos, empresa, polícia e usuários domésticos, mais de um dia para que as coisas voltassem ao normal, e o porta-voz da Telefônica não conseguia esclarecer nada, pois nos primeiros momentos eles nem sabiam qual era o problema e nem onde tinha ocorrido. Possivelmente, um gerenciamento de riscos bem feito teria permitido enxergar que esse seria um problema que poderia ocorrer em algum momento, e as medidas de contingenciamento teriam sido tomadas mesmo a um custo alto (espelhamento de servidores, criação de rotas alternativas, duplicação de dados em outros roteadores, etc.), pois por mais alto que ele fosse, teria sido menor que o prejuizo causado (que não foi calculado, e duvido que seja…).

E os demais eventos improváveis a que estamos sujeitos? Descongelamento das geleiras do Pólo Norte, altos preços do petróleo no mercado mundial, escassez de alimentos, custo alto de alimentos, guerra pela água e pelos alimentos escassos… tudo isso é altamente improvável, mas o risco existe… Se tiverem tempo e disposição, é uma excelente leitura que com certeza em breve estará traduzido para o português. Melhor ainda, baratinho.

(o livro já foi traduzido: A LOGICA DO CISNE NEGRO: O IMPACTO DO ALTAMENTE IMPROVAVEL, Autor: TALEB, NASSIM NICHOLAS, Editora: BEST SELLER)

Vannevar Bush

Domingo, 22 Junho, 2008 Jose Luis Braga Deixe um comentário

Para entender melhor o presente, um pouco de história ajuda muito. Particularmente quando se fala em desenvolvimento científico e tecnológico de um pais, que leva muitas gerações para começar a mostrar resultados, os modelos e exemplos de outros países devem ser tomados como ponto de partida. Vannevar Bush é considerado o primeiro cientista levado a sério como conselheiro de presidentes estadunidenses, com uma atuação muito forte na Segunda Guerra Mundial, e mais ainda depois que ela acabou em 1945 (não tem relação nenhuma com o Bush atual presidente dos EUA).

Em 1941, o presidente Roosevelt criou o famoso Office of Scientific Research and Development (OSRD) e nomeou Bush seu diretor. A missão do OSRD era desenvolver e coordenar as pesquisas que levassem os EUA (e aliados) a ficar em vantagem na guerra, cooperando com os pesquisadores civis das universidades estadunidenses. Por exemplo, o famoso Manhattan Project que levou à construção da bomba atômica foi gerido pelo OSRD até 1943, quando passou para o controle do Exército. A constatação de que a Segunda Grande Guerra seria um enorme desafio tecnológico, foi a força que movia o investimento em pesquisas de todo tipo, focadas no esforço de guerra.

Ao final da guerra, esperava-se que o grupo de cientistas chefiados por Bush, e que faziam parte do OSRD, continuassem seu trabalho em uma agência equivalente, voltada para o desenvolvimento tecnológico nos tempos de paz. Em julho de 1945, Bush encaminhou ao presidente Truman (Franklin Roosevelt morreu em abril de 1945) o seu famoso relatório Science, the endless frontier, em que deixava claro que um país que quisesse se desenvolver econômicamente e ficar na dianteira tecnológica no planeta teria que investir pesadamente no desenvolvimento da ciência, da pesquisa, da educação, pois a tecnologia somente se desenvolveria sobre sólidas bases científicas. Sugeria, nesse relatório, a criação de uma agência de fomento ao desenvolvimento científico e tecnológico, o que somente veio a acontecer em 1950, com a criação da conhecida e poderosa National Science Foundation (NSF).

Uma contribuição interessante desse misto de cientista, empreendedor e homem de visão de futuro, foi o pouco conhecido Memex, descrito originalmente no artigo As we may think. Esse artigo foi publicado na prestigiosa revista estadunidense The Atlantic Monthly, e as idéias contidas nele são consideradas as precursoras dos modernos sistemas de hipertexto que foram a base da linguagem HTML e da www-world wide web. Bush considerava de extrema valia para auxiliar os cientistas a pensar e a se organizar um mecanismo, que ele denominou de Memex, que permitisse estabelecer links entre diferentes artigos, partes de texto e de material, da mesma maneira como se faz hoje com a navegação em páginas web. Não deixem de ler os dois artigos, são muito interessantes, principalmente se levarmos em consideração a época em que foram escritos, e mostram a criatividade e o poder de inovação de Vannevar Bush.

A visão de desenvolvimento cientifico e tecnológico deixada por Bush influenciou todo o mundo ocidental desde então. Criação de organismos de fomento, política de financiamento de pesquisa, formação de massa crítica para apoio e desenvolvimento da pesquisa científica e tecnológica, tomaram seu modelo como padrão e exemplo. Sua valiosissima lição foi a de que o desenvolvimento cientifico e tecnológico têm obrigatoriamente que ser um objetivo de longo prazo, que envolve formação de mão de obra, criação de massa critica, financiamento, criação de infra-estrutura, mudança de cultura, etc. Para ter continuidade, esse esforço tem que fazer parte de uma política nacional de desenvolvimento científico e tecnológico, acima dos governos e dos governantes, um empreendimento estratégico de um pais.

Para quem quiser ler mais sobre esse tipo de assunto, recomendo o livro abaixo, que tem uma parte histórica muito interessante sobre ciência, tecnologia e a relação entre as duas que não é linear, como é o modelo secular: em um extremo a ciência básica, no outro extremo a ciência aplicaca, criando uma espécie de maniqueismo nocivo, que põe cientistas e suas equipes em eterna competição uns com os outros, atrasando o desenvolvimento. A discussão é muito enriquecedora, e um dos grandes exemplos do livro é o do cientista francês Louis Pasteur, que escapou completamente ao modelo linear vigente, pois suas pesquisas se iniciavam por algum interesse tecnológico, nas aplicações, que levavam a grandes avanços na ciência básica. A constatação de que a ciência básica se desenvolve muito mais quando pressionada por demandas do desenvolvimento tecnológico foi uma ruptura do modelo linear de pensamento, levando o autor a propor um modelo baseado em duas dimensões, mais adequado ao mundo atual. E de quebra, o livro ainda discute a questão de politicas (nos EUA) de C&T, financiamento, etc.

O QUADRANTE DE PASTEUR
A CIENCIA BASICA E A INOVAÇAO TECNOLOGICAO quadrante de Pasteur
Coleção: CLASSICOS DA INOVAÇAO
Autor: DONALD STOKES
Editora: UNICAMP, 2005

Um sistema sobre o nosso mundo

Sábado, 31 Maio, 2008 Jose Luis Braga Deixe um comentário

No segundo semestre de 2004, resolvi arrumar novos desafios na disciplina Sistemas de Informação, da graduação em Ciência da Computação do DPI-UFV, e inclui algumas aulas sobre o tema Modelagem sistêmica com diagramas de influência. É uma ferramenta indispensável para quem quer entender situações reais de forma sistêmica, enxergando as variáveis principais, suas interações e seus impactos mútuos, o que normalmente é muito complexo quando o número de variáveis consideradas é grande. Na prova dada sobre esse assunto, utilizei o texto em itálico que segue abaixo, uma tradução que fiz da primeira página e meia do capítulo de introdução do livro World Dynamics, do Jay W. Forrester, que vai citado no fim da postagem. A questão da prova era produzir um modelo com diagramas de influência sobre a descrição do problema, e enunciar algumas hipóteses que fossem cenários de soluções possiveis, a partir do modelo.

Jay Forrester era, na época em que o livro foi publicado, professor do MIT (Massachussets Institute of Technology) Sloan School of Management, e foi o maior responsável pela introdução do uso de dinâmica de sistemas para construir modelos para problemas dinâmicos, possibilitando o uso desses modelos para simulações e análise de cenários. Tenho me dedicado atualmente ao uso da dinâmica de sistemas em problemas de decisão na Engenharia de Software, uma linha de investigação motivante e desafiadora.

Se vocês tiverem paciência de ler até o final, vão perceber que apesar de o livro ser de 1971, já com 27 anos de idade, o modelo desenvolvido e discutido em suas páginas por Jay Forrester é perfeitamente atual e serve para simular os problemas do nosso mundo como é hoje. Os problemas não mudaram, pelo contrário, continuam ai e muito agravados pela incapacidade e incompetência do ser humano em lidar com eles. Reflitam….

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O “sistema mundo”, englobando o homem, seu sistema social, sua tecnologia e seu ambiente natural, que interagem para produzir crescimento, mudança e tensões, está enfrentando novas pressões. Não é novidade a geração de grandes forças originadas dos sistemas sócio-técnico-naturais. Mas só mais recentemente é que a humanidade tomou consciência de novos problemas, que não podem ser resolvidos pelas soluções históricas de migração, expansão, crescimento econômico e tecnologia.

As manifestações de novas tensões no sistema mundo são população excessiva, poluição crescente, e grandes disparidades nos padrões de vida das pessoas e populações. Mas, será que população crescente, poluição e desigualdades econômicas são causas fundamentais, ou apenas sintomas? Será que podem ser melhoradas diretamente, ou será que as causas das novas tensões estão em alguma outra parte do sistema mundo?

Há uma crescente consciência de que esforços passados para aliviar as tensões nos nossos sistemas sociais sempre foram dirigidos a suprimir sintomas sem contudo alterar as causas principais. Cada vez mais, o sistema mundo está se tornando mais interrelacionado em suas variáveis. Uma ação qualquer em um setor do sistema, pode produzir consequências inesperadas em outro setor. De modo geral, essas consequências são não-intencionais e inesperadas. Precisamos entender as formas pelas quais os principais fatores estão se influenciando mutuamente em escala mundial, para que tenhamos segurança e confiança de que nossas ações nos levarão a melhorias reais, ao invés de tornarem as coisas piores.

Nossos conhecimentos e premissas sobre os componentes de um sistema, mesmo que sejam tão complexos quanto nosso sistema social, podem ser agora entendidos e examinados utilizando métodos que foram desenvolvidos nas últimas décadas. Isso pode ser conseguido pela organização dos conceitos principais em “modelos” que revelam as consequências e inconsistências internas de nossas premissas e conhecimento. Das análises que podem ser derivadas desse modelo, será possivel um entendimento muito mais perfeito e preciso do nosso sistema mundo, no qual estamos imersos.

Este livro estabelece um modelo dinâmico com escopo mundial, um modelo que inter-relaciona população, investimentos, espaço geográfico, recursos naturais, poluição e produção de alimentos. A partir desses aspectos ou setores principais e suas interações, parece se originar a dinâmica de mudança no sistema mundo. População crescente cria pressão para aumentar a industrialização, produzir mais alimentos, e ocupar mais terras. Mas mais alimento, bens materiais e uso de mais terra tendem a encorajar e permitir o crescimento populacional. O crescimento da população, com o respectivo crescimento industrial e poluição, são originados de processos circulares em que cada setor tanto melhora parcialmente a situação, quanto realimenta outros setores. Com o passar do tempo, o crescimento encontra barreiras impostas pela própria natureza. Terra e recursos naturais são exauridos, e a capacidade do próprio planeta Terra de dissipar poluição fica sobrecarregada no nível de não conseguir mais a desejada dissipação.

A batalha entre as forças do crescimento e as restrições da natureza podem ser resolvidas de várias maneiras. O ser humano, se entender suficientemente bem o problema e agir com sabedoria, pode escolher um caminho que o leve para fora da zona de conflito entre as pressões citadas, que seja mais favorável do que as ações, atitudes e políticas adotadas atualmente. Esse caminho deve ser no rumo de uma situação de não-crescimento e equilíbrio do sistema mundo. O grande desafio consiste em saber escolher a melhor transição disponível do cenário passado de crescimento para uma condição futura de equilibrio.

Jay W. Forrester, World Dynamics. Cambridge, Massachussets: Wright-Allen Press, 1971