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Archive for the ‘Sustentabilidade’ Category

Caminhos para a paz

Sábado, 29 Agosto, 2009 Jose Luis Braga 2 comentários

9788561635176-250x250As leituras agora em julho foram poucas, mas selecionadissimas. O cansaço do semestre passado, somado ao monte de artigos que julguei para congressos, simpósios e revistas, mpsBR, bancas de dissertação,  me tiraram um pouco da disposição para outras leituras. Mas, claro, estou sempre lendo, e achei uma pérola numa livraria em BH: A música desperta o tempo, do conhecido e famoso  maestro Daniel Barenboim.

O maestro é nascido na Argentina (1942), talento precoce na música clássica, e por isso mesmo considerado cidadão do mundo. De descendência judaica, o maestro tem um trabalho reconhecido mundialmente em prol da paz e harmonia entre os povos do mundo e, em particular, entre judeus e palestinos em Gaza. Por esse seu trabalho, recebeu reconhecimento internacional via o prêmio Prêmio Príncipe das Astúrias, da Fundación Príncipe de Asturias, da Espanha. O livro é exatamente sobre essa questão, mas abordada sob um ângulo inusitado: o da música, das grandes sinfonias, da harmonia, do ritmo, da integração entre músicos, instrumentos, música e regência como metáforas para uma paz mundial.  Particularmente, a 5a. Sinfonia de Beethoven é citada inúmeras vezes no livro, é considerada pelo maestro uma obra dedicada ao equilíbrio, cooperação e tolerância.

Uma parte do livro é dedicada a explicar para o leitor leigo,  esse equilibrio e ecologia das orquestras, que são usados como metáfora para expor seu ponto de vista sobre o equilibrio e convivência entre os povos na Faixa de Gaza. A partir daí, o maestro explora a metáfora para propor um modelo de paz na região da Cisjordânia, muito bonito e interessante. O melhor de tudo é que a discussão e as propostas são imparciais, sem levar o leitor a tomar partido de um ou outro lado, sempre no equilibrio e na visão da paz que exige deixar os preconceitos de lado, em algum momento. E isso é conseguido na integração entre os músicos em uma orquestra. As idéias do maestro foram colocadas em prática, com a criação por ele e seu amigo Edward Said da East-West Divan Orchestra, composta por músicos do Oriente Médio: egipcios, iranianos, israelitas, jordanianos, libaneses, palestinos e sirios.

O poder da música reside em sua capacidade de se comunicar com todos os aspectos do ser humano – o animal, o emocional, o intelectual e o espiritual. Com muita frequência, pensamos que as questões pessoais, sociais e políticas são independentes, sem influir umas nas outras. Pela música, aprendemos que essa é uma impossibilidade objetiva: simplesmente não existem elementos independentes. O pensamento lógico e as emoções intuitivas devem estar constantemente unidos. A música nos ensina, em resumo, que tudo está ligado.” (último parágrafo do último capítulo do livro, antes dos Apêndices)

A música é a linguagem da alma…

(este artigo foi escrito por zeluisbraga, e postado no meu blog zeluisbraga . wordpress . com) (this post is authored by zeluisbraga, published on zeluisbraga . wordpress . com)

Lake Mead, Hoover Dam

Sábado, 30 Maio, 2009 Jose Luis Braga 5 comentários
HooverDam

HooverDam

A foto do lado é da Hoover Dam (represa Hoover), construida para gerar eletricidade, irrigar plantações e suprir de água a população de  parte da região oeste estadunidense (Nevada e California) e do México. O lago por trás da represa é o Lake Mead, no estado de Nevada, que é alimentado pelas águas do rio Colorado, tem capacidade para armazenar 9,3 trilhões de galões de água (1 galão tem aproximadamente 3,5 litros), equivalente ao fluxo de água de dois anos do rio Colorado. Suas águas são bombeadas através da Sierra Nevada para suprir parte da região sudoeste da Califórnia. Somente por esses números ai, dá para imaginarmos o gigante de obra de engenharia que ela representa, terminada em 1936.

Bom, mas o que isso tem a ver com esse blog? Sustentabilidade, claro. Procuro aqui nas minhas postagens, chamar sempre que possivel a atenção dos leitores para análise sistêmica, capacidade de enxergar além dos fatos isolados e se possível, enxergar todo o sistema. Dia desses topei com uma noticia sobre a represa: Lake Mead is drying up. Ou seja: Lake Mead está secando, a uma velocidade alarmante! O nivel de água caiu 14 pés em 2008 (aprox. 4,20 metros) e a projeção é a de que vai cair outros 14 pés esse ano, chegando próximo dos 1075 pés de altura mínima, ponto em que o governo federal estadunidense vai intervir e declarar estado de seca, forçando a diminuição de vazão a um nível que causará o fechamento das torneiras de água em 800.000 casas em Las Vegas. A briga pela água no estado de Nevada está ficando complicada, pois a turma dos cassinos e hotéis de Las Vegas se acha no direito de tirar águas de outros cantos do estado, para continuar jogando água fora nos empreendimentos da cidade.

Essa noticia me chamou a atenção, porque me fez  lembrar de outra notícia que tinha lido há um bom tempo, na revista IEEE Spectrum, sobre os efeitos devastadores no eco-sistema das margens do rio Colorado, observados 60 anos depois do seu represamento no Lake Mead.  Não tenho mais o artigo com a notícia, mas achei outra referência sobre o impacto ambiental causado pela Hoover Dam e pelo represamento do rio Colorado, Hoover Dam Environment, de onde transcrevo:  Mais uma vez, a tentativa de modificar a natureza adaptando-a aos seus desejos termina com consequências desastrosas. Sem entender completamente  as conexões sutis existentes no seu frágil eco-sistema, o homem provocou mudanças muito drásticas  nas propriedades fundamentais do rio. Espécies foram perdidas como resultado do fraco planejamento ou ausência de capacidade de visão de futuro. Outras espécies foram perdidas para que visitantes em férias pudessem pescar trutas no lago..

E temos algo semelhante acontecendo por aqui? claro que temos, a transposição do Rio São Francisco, vejam artigo sobre este assunto escrito por um especialista em águas, prof. Alberto Daker, aqui! Nossos dirigentes estão incorrendo nos mesmos erros de planejamento e falta de visão que acometeram os idealizadores e realizadores da Hoover Dam, e as consequências vão aparecer talvez daqui a meio século ou menos, quando os responsáveis pelas decisões não estiverem mais por aqui. Esta é uma das falácias apontadas pelo pensamento sistêmico: a de que os dirigentes vão aprender com as decisões que tomam.  Pelo menos com decisões que têm impactos sistêmicos, de longo prazo, isto é mesmo uma tremenda falácia.

(este artigo foi escrito por zeluisbraga, e postado no meu blog zeluisbraga . wordpress . com) (this post is authored by zeluisbraga, published on zeluisbraga . wordpress . com)

Sociedade do carro

Domingo, 10 Maio, 2009 Jose Luis Braga 5 comentários
Ford T

Ford T

Estou com este artigo no forno há um bom tempo, esperando a idéia melhorar ou o tempo livre aparecer. Tudo começou com essa beleza ai do lado, o famoso Ford T. Criado por Henry Ford, foi o primeiro carro da história da humanidade  produzido em série em linha de montagem. Nas palavras do próprio Henry Ford: vou construir um carro para as multidões. Será grande o suficiente para a família, e pequeno o suficiente para ser utilizado e mantido individualmente. Será construido utilizando os melhores materiais existentes, pelos melhores operários disponíveis, e baseado nos melhores projetos que a engenharia moderna puder oferecer. Mas terá um preço baixo, de tal forma que qualquer um que ganhe um salário razoável poderá ter um para aproveitar com a sua família as horas de prazer nesses enormes espaços abertos criados por Deus. Para a época, eram principios e idéias extremamente nobres, que deixavam escondidos a idéia do lucro, de construir uma grande empresa que fosse capaz de abrir um mercado ainda inexistente e por desbravar. Impossivel prever, nessa época, o que seria o mundo lotado de carros apenas um século depois.

São inquestionáveis os enormes benefícios que o carro, ou melhor dizendo os veículos automotivos, trouxeram para a humanidade e seu progresso. Escoamento de safras, transporte escolar, viagens de ônibus tornando os acessos mais rápidos, transporte de bens de consumo, uso individual proporcionando liberdade de locomoção, flexibilidade de horários e de localização geográfica. Enfim, chegamos ao estágio de desenvolvimento atual devido, em grande parte, ao uso do carro em suas mais diversas instâncias. Mas… sempre tem um mas na história: quem poderia prever essa explosão no uso do carro e na sua transformação, de fato, em objeto de desejo e símbolo de ascensão social e de liberdade individual? Henry Ford lançou a semente na sua famosa declaração.

Alguns países foram capazes de enxergar e de investir na época certa, em outros modos (ou modais) de transporte, como o ferroviário, o hidroviário e o aéreo, tirando o foco único nos transportes terrestres. Reparem que o transporte por trens ou metrôs, por exemplo, é muito presente na maioria das grandes nações e cidades do mundo. Infelizmente, nesse particular parece que por aqui comemos mosca, e por falta de visão de longo prazo de governos e mais governos (federal, estadual e municipal), de falta de políticas estratégicas bem definidas e duradouras, o país depende hoje fortemente do transporte terrestre, por caminhões em estradas de rodagem e pelas ruas castigadas e esburacadas de todas as cidades. Numa situação dificílima de reverter em médio ou longo prazo (sendo otimista).

Os municípios, que dependem de coleta de impostos ou das cotas do Fundo de Participação dos Municipios para terem recursos para melhorar a estrutura das cidades, têm tantos problemas acumulados para resolver (saúde, educação, redes de água e esgoto, tratamento de água, tratamento de esgotos, crescimento econômico, violência urbana, segurança, policiamento, manutenção da estrutura viária pública, …) que certamente o problema dos carros vai ficar sempre em segundo (ou mais)  plano, e cada vez mais vai ser assim. Os recursos coletados nunca vão ser suficientes para resolver todos os problemas, e certamente seria uma inversão de valores colocar o carro particular em posição mais alta na escala de prioridades municipais.

Bom, mas pelo menos o problema do transporte coletivo poderia ser equacionado, não poderia? Disponibilidade em termos de horários e quantidade de veículos, número de linhas, de tal forma que fosse possivel ao cidadão comum deixar o carro na garagem e usar o transporte coletivo com segurança e tranquilidade. O exemplo sempre citado é o de Curitiba, cidade modelo no mundo todo, resultado em parte das idéias do urbanista Jaime Lerner. Que conseguiu enxergar com a antecedência necessária as prioridades em termos de organização e serviços, implantou um sistema de transporte urbano modelar, que satisfaz a maioria esmagadora de seus usuários, valorizando o ser humano acima de tudo.

Na maioria das cidades, estamos chegando a uma situação de impossibilidade total, e que só vai piorar. Ruas, acessos, estradas vão continuar entupidos e em péssimo estado de conservação, pois os municipios não conseguem acompanhar o aumento da demanda, e não há espaço disponivel nas ruas e estradas para que alguma melhora de curto prazo possa ocorrer. Um aumento da capacidade das vias teria perna curta, em pouquissimo tempo também essa solução paliativa estaria comprometida da mesma forma, entupida com os carros que já circulavam, e com os outros que vão passar a circular porque o trânsito melhorou. E ai teriamos dois problemas: o antigo que já existia, e o novo criado pela solução paliativa.

O resultado todo mundo conhece de sobra: motoristas raivosos, estresse constante, brigas e mortes no trânsito, motocicletas em número cada vez maior surgindo como uma alternativa individual e barata à falta de estrutura de serviços de transporte coletivo. E o cidadão continua na dependência do carro individual: sai para trabalhar, deixa menino na escola (escolas poderiam ter horários estendidos como acontece em vários paises), alguém tem que pegar as crianças na escola e levar de volta para casa, volta no fim da tarde ou inicio da noite e pega um trânsito descomunal, leva o triplo do tempo (se não chover) para chegar em casa estressado, puto da vida, mais querendo banho e cama do que qualquer outra coisa, para começar tudo de novo no dia seguinte.

Para piorar, os combustíveis fósseis estão em extinção e o ser humano continua procurando alternativas ao petróleo, para que os carros continuem a circular do mesmo jeito: álcool carburante que ganhou o nome chique de etanol, hidrogênio, carro elétrico, lixo, óleo de lanchonete, etc. A meu ver, uma tremenda perda de tempo e de recursos, pois o modelo atual baseado em carros de passeio individuais está agonizante há muito tempo, não tem a menor possibilidade de continuar existindo. O modelo tem que mudar, a visão sistêmica dos problemas tem que ser adotada, o ser humano tem que ser valorizado acima de tudo. Felizmente, os bons exemplos de soluções corajosas continuam a pipocar, a cidade de Nova Iorque volta a dar um ótimo exemplo,  vejam aqui, e deixem a imaginação funcionar…

(este artigo foi escrito por zeluisbraga, e postado no meu blog zeluisbraga . wordpress . com) (this post was written by zeluisbraga, published on zeluisbraga . wordpress . com)

Água, olha a água, água…

Sábado, 28 Março, 2009 Jose Luis Braga 5 comentários
Água, água....  

Água, água....

O título desta postagem é o refrão (se é que pode ser chamado assim) dos vendedores de água mineral (?) da rodoviária do Rio de Janeiro. Que eu ouvia pelo menos duas vezes por semana, na época do doutorado. Recentemente, lendo o Guia Exame 2008 de Sustentabilidade que chegou no final do ano passado, topei com a reportagem: Tão valiosa quanto o petróleo,  jornalista Tatiana Gianini. Pela reportagem, a nossa água tão comum e que o ser humano está tão  acostumado a desperdiçar de todas as maneiras possíveis e imagináveis, está sendo considerada a commodity do século 21! Isso mesmo, e olhem alguns números tirados da reportagem: 20% da população mundial (mais de 1 bilhão de pessoas) não tem acesso a água potável; 350 bilhões de dólares é o total da venda global de serviços e equipamentos relacionados à água em 2007, e deve atingir 530 bilhões de dólares em 2016; 325 bilhões de dólares foram investidos nas áreas de serviços de fornecimento de água e tratamento de esgoto em todo o mundo em 2007; 91 bilhões de dólares é o total das vendas mundiais de água engarrafada em 2007

Indicações do cenário catastrófico:  em maio de 2008, a pior seca que atingiu a Espanha em décadas obrigou a cidade de Barcelona a encomendar navios carregados com milhões de litros de água vinda da França. Na Austrália, quase todas as cidades têm medidas de restrição de consumo. Nos EUA, algumas prefeituras de cidades da Califórnia impuseram racionamento de água a população para garantir a continuidade do abastecimento; cerca de 70% dos rios e lagos da China estão poluidos; no Brasil, bacias como a do Rio Doce na nossa região de Minas, tem também de 70% das águas impróprias para consumo humano; os aquíferos, como o aquífero Guarani, estão se esgotando rapidamente por causa do crescimento indiscriminado das cidades que utilizam sua água, e por ai vamos.

O grande nicho de negócios atual é a dessalinização da água do mar, um processo caro e que demanda ainda muita energia elétrica para manter em funcionamento as bombas que forçam  a passagem da água pelos filtros para retirada do sal. Avanços tecnológicos recentes indicam que um novo processo que dispensa o uso das bombas já está disponivel, e que vai eliminar o uso da energia elétrica que é o principal elemento do alto custo desta solução. Outro enorme nicho é o de tratamento de esgotos e reaproveitamento das águas, as prefeituras dos municípios não têm recursos para investir satisfatoriamente nesse tipo de serviço que vai sendo aos poucos assumido pela iniciativa privada em parcerias com o estado e municipios. Aí é onde entram os grandes como a GE Water, braço da General Electric dedicado a soluções para a água, da Siemens Water Technologies, da 3M, da Dow Water Solutions, e outras.

Muito bem, então estamos salvos e podemos continuar jogando água fora como sempre fizemos? Lavando carros em lava-rápidos (um comentário, muitos se auto-denominam lava-jato, já pensaram só se pousar um jato lá para ser lavado? o correto seria lava-a-jato…), desperdiçando água no banho (isso para quem tem água encanada e pode se dar ao luxo de tomar banho), usando mercúrio para separar ouro das areias dos nossos rios e poluindo as águas mortalmente, lançando esgoto sem tratamento nas águas dos rios e mares, construindo indústrias poluidoras que lançam material poluente nos rios mais próximos, e precisa mais? Infelizmente, o ser humano é individualista e enxerga apenas o momento presente, deixa para pensar no problema no futuro quando ele acontecer… e ai não vai ter mais jeito de resolver, e sem água a vida como a conhecemos será varrida da face do planeta Terra.

Pelo bem ou pelo mal, essa degradação da natureza chegou a tal ponto que a água, que é um recurso natural abundante na terra e suficiente para manter a vida no planeta, se transformou neste suculento e ótimo negócio, fonte de muitos $$$ de lucro para as empresas. O que significa que, em breve, vamos começar a pagar pela água que consumimos, e a pagar caro. Atualmente, pagamos apenas o custo do tratamento da água, captação, armazenamento e distribuição, mas não pagamos pela água propriamente dita. Quando isto acontecer, certamente vamos ter um uso mais consciente do recurso, pois vai doer no bolso. Algumas iniciativas imprescindíveis estão aparecendo, como por exemplo o IGAM – Instituto Mineiro de Gestão de Águas, que tem o seu parente nos demais estados.  

A despeito dessas iniciativas o ser humano, que continua sendo o principal elo da cadeia, continua sendo o principal responsável por essa degradação toda, e isso leva gerações para mudar, pois é uma mudança cultural. Que felizmente  está acontecendo, as novas gerações têm outra consciência de problemas ambientais e de sustentabilidade.

(este artigo foi escrito por zeluisbraga, e postado no meu blog zeluisbraga . wordpress . com) (this post was written by zeluisbraga, and was published on my blog zeluisbraga . wordpress . com)

Etanol afetado pela crise econômica

Segunda-feira, 2 Fevereiro, 2009 Jose Luis Braga 2 comentários
Barril de petróleo

Barril de petróleo

Oportunidades para análises sistêmicas estão sobrando. Agora, é o setor produtivo do álcool carburante, recém-batizado de etanol para ficar compativel com o nome mundial do produto (não resta dúvida de que o novo nome ficou muito mais chique!).  Considerado a estrela da sorte do Brasil, gerador de milhares de empregos no campo, produto forte e em ascensão na pauta de exportações brasileiras, também foi pego pela crise. Pensando sistêmicamente, a coisa toda se passa atrelada ao preço do barril de petróleo.  Que chegou a impensáveis US$150,00 e com previsão dos analistas de fechar o ano de 2008 a US$200,00 o barril, afetando toda a economia mundial que por sua vez, estava em franca aceleração, consumindo produtos básicos (commodities) em volumes muito altos, fazendo a alegria dos paises exportadores desses produtos (como o Brasil).

Claro, estamos falando de economia de mercado, onde a regra básica de regulação de oferta e demanda  é simples de entender: produto com escassez de oferta e com alta demanda, leva a um aumento de preços. E os países produtores de petróleo se aproveitaram do bom momento  da economia para regularem a produção (para baixo), provocando um aumento de preços e lucrando mais que nunca com cada barril extraido.

Muito bem, com a crise econômica provocada pela irresponsabilidade dos bancos estadunidenses e de outros ricos, que na busca pelo lucro exagerado fizeram pessoas que ganham muito pouco assumirem financiamentos de casa própria impagáveis, com as consequências que estamos vendo e sentindo na pele: retração no crescimento econômico mundial. O problema balançou toda a economia mundial  e seus setores mais fortes, e consequentemente houve uma retração na demanda por petróleo no mundo todo. Queda na demanda provoca uma queda proporcional nos preços, e o resultado é o que estamos vendo: barril de petróleo cotado abaixo de  US$50,00 e enormes reservas acumuladas pelos principais paises consumidores.

E o etanol? Aproveitando o bom momento das previsões da alta do barril de petróleo, o etanol entrou em alta no mundo todo, como uma alternativa viável para suprir uma possivel falta de petróleo no mercado. Altos investimentos foram feitos, mais usinas criadas ou expandidas, capacidade de produção em alta, paises começaram a importar etanol do Brasil, enfim, um cenário excelente para o setor.

Com a crise e queda na atividade econômica mundial,  passou a sobrar petróleo barato no mercado internacional, e o etanol sumiu das conversas, com o mercado e o interesse internacional pelo produto em queda temporária. Prá complicar, a falta de crédito para financiar o capital de giro das usinas produtoras no Brasil  e os custos altos de produção, que sofreram aumento de 25% nos últimos 18 meses devido principalmente a alta dos insumos agrícolas para a produção de cana, pioram muito o cenário. Estima-se que a produção na safra de 2008/2009 será de 25 bilhões de litros, com uma estimativa de demanda mundial, no mesmo periodo, estimada em 27 bilhões de litros. Ou seja, possivelmente vamos ter etanol encalhado por aqui…

A economia funciona em ciclos econômicos estudados por Joseph Schumpeter, e a lógica é a de que se está sobrando petróleo hoje no mercado, no próximo ciclo ele vai faltar, e volta a corrida pelo etanol. E lembro mais uma vez, tudo é sistêmico, um número enorme de variáveis influenciando-se mutuamente, a maioria delas sem permitir ação direta de controle e decisão.

Carro elétrico quebra seu galho…

Sábado, 3 Janeiro, 2009 Jose Luis Braga 1 comentário

Uma noticia que li no blog EcoGeek me chamou muito a atenção, pelo inusitado uso inteligente da tecnologia. Um cidadão de Harvard, Massachussets (EUA) conseguiu quebrar o galho numa queda de energia na região onde reside, e manter funcionando a geladeira, o freezer, a televisão e as luzes de sua casa por um periodo de três dias. Como? Usando um inversor para converter  corrente contínua em corrente alternada, ele puxou a energia do seu Toyota Prius híbrido (gasolina e eletricidade), gerando 120Volts!! E isso gastando apenas 5 galões (1 galão = 3,7854 litros aproximadamente).

Toyota Prius

Toyota Prius

A bateria do Prius fornece energia ininterrupta, desde que o motor do carro seja ligado periodicamente, para recarregá-la. E o melhor de tudo, os carros híbridos ligam o motor a gasolina automaticamente, sempre que o nivel de energia estiver abaixo do necessário para fazer o carro funcionar. Desde que o tanque tenha gasolina suficiente, o sistema é capaz de gerar três quilowatts de potência ininterruptamente, o que é suficiente para manter alguns eletrodomésticos funcionando.

Bom, que lições a gente pode tirar dai? Primeiro, que certamente o cidadão tinha conhecimento de eletricidade de automóvel, e do funcionamento do seu carro especificamente, e da potência que é gerada pelo sistema. Sem esse conhecimento, ele ia ficar no escuro e sem os eletrodomésticos funcionando pelos três dias. Segundo, o que considero o mais interessante: a tecnologia sempre permite usos inusitados, e a inventividade humana não tem limites, tanto para o bem quanto para o mal. Terceiro, será que algum projetista teria pensado no assunto como um requisito a mais a ser disponibilizado pelo sistema do carro, implementado como uma tomada de energia disponivel em algum canto dentro do carro, com o inversor devidamente instalado como equipamento auxiliar, de onde fosse possivel puxar uma extensão e levar energia prá dentro de casa?

O terceiro caso merece uma pequena discussão. Perceber  esse requisito, é até provável que algum projetista tenha percebido, e é possivel que isso até tenha sido discutido. Mas, se isso aconteceu, o requisito foi considerado “não essencial” ou apenas “desejável”, e colocado em outra fila de prioridades de projeto. Pois certamente sua implementação acarreta mais custos, mais peso no carro, etc. E para um uso muito esporádico.

Fica aí um bom exemplo de análise de (custo/benefício) da inclusão ou não de requisitos em produtos (notoriamente software), perfeitamente aplicável na engenharia de software, principalmente quando existe uma tendência de termos uma engenharia de software baseada em valor (VBSE-Value Based Software Engineering). Para pensar…

A crise já chegou aqui…

Domingo, 2 Novembro, 2008 Jose Luis Braga Deixe um comentário

Já que está todo mundo falando da tal da crise, achei conveniente dar uns pitacos aqui sobre o mesmo assunto. Nunca é demais repetir os mesmos temas, a história tem que ser contada, recontada e discutida, para evitarmos que ela se repita no futuro. Esse é um ditado chinês que faz parte da minha lista: povo que não conta a sua história, corre o risco de vê-la se repetir. E vejam que a crise de 1929 não está táo longe assim. Mas, porque estamos no meio dessa crise planetária? Como a economia mundial está indexada pelo dólar, que é a moeda forte do planeta. Negócios são feitos em dólar, importação e exportação são feitas em dólar, commodities são negociadas em dólar, e vamos por ai afora. É uma consequência mais ou menos óbvia que qualquer balançada que afete o dólar e sua relação com as demais moedas, vai causar impacto nos negócios no resto do mundo globalizado. Pior ainda, quando a balançada econômica acontece no país que é o dono do dólar, no caso os EUA.

Não importa muito qual foi a razão particular que levou à balançada dessa vez. Certamente não foi um motivo único, as variáveis são muitas e são interconectadas, muda o valor de uma delas, as demais que dependem dela também vão mudar mais cedo ou mais tarde. A questão dos empréstimos feitos de maneira irresponsável pelos grandes bancos estadunidenses para financiamento de habitações foi apenas o estopim que disparou o efeito dominó que acabou atingindo o resto do mundo. É irresponsável, na minha opinião, porque uma grande maioria das pessoas que tomaram esses empréstimos (a juros e condições de mercado) não tinham condições de pagá-los, e isso era sabido. E o que se seguiu foi essa crise de inadimplência a que estamos assistindo, os bancos não conseguiram pegar de volta o dinheiro emprestado e seus juros, começou a quebradeira dos bancos, e ai danou-se todo o sistema, afetando a economia global. Vi na CNN o depoimento de um senador estadunidense, responsável (ou melhor, irresponsável…)  por uma lei recente que garante ao cidadão estadunidense o direito de ter o financiamento da sua casa, mesmo que ele tenha poucas condições de pagar  o financiamento! E essa lei foi feita com o único objetivo de permitir aos bancos ampliar o volume de empréstimos (o que não tem nada a ver com o direito a moradia…). É mole? Como se isso não bastasse, ainda tem o enorme financiamento da invasão do Iraque, do Afegasnistão…

Mas, como tudo isso afeta o dólar e atinge a gente cá do outro lado? Os bancos não recebem os empréstimos, ficam sem dólares para continuar emprestando, o financiamento do consumo fica comprometido, a população endividada fica sem dinheiro para consumir e sem acesso aos financiamentos para o consumo, a baixa no consumo tem impactos nas importações de todo tipo afetando os produtores de bens de consumo e commodities  de outros paises que sobrevivem de exportar para os EUA, o governo estadunidense tem que intervir  com programas de salvamento dos bancos, o dólar fica escasso no mercado e consequentemente sobe de valor em relação às demais moedas, e a economia mundial atrelada ao dólar também vai junto pro buraco. Exigindo dos governos dos demais paises o uso de reservas cambiais (se tiverem) para jogar dólares na economia interna evitando a alta excessiva de seu valor, alta essa empurrada pela escassez e pelo aumento da procura por dólares para pagamento de compromissos previamente assumidos (em dólar) pelas empresas e pelo próprio pais. É uma ciranda infernal e depredadora, um ciclo vicioso que tem que ser interrompido sob pena de a crise se tornar tão grave quanto a de 1929.

Bom, mas quero chamar atenção aqui para um outro aspecto dessa crise toda. O modelo de crescimento econômico a que estamos assistindo no momento, baseado no modelo de bem-estar estadunidense que acabou se transformando em modelo para o resto do mundo, não é sustentável. O planeta já está exaurido, explorado acima da capacidade de recuperação, e taxas de crescimento anuais de 10% como é a tão elogiada taxa de crescimento da China,  são irreais e não são sustentáveis nem se tivessemos disponivel um segundo planeta Terra zerado e inexplorado. Em várias postagens anteriores chamei atenção para isso, particularmente na postagem O planeta Terra vai aguentar o tranco?, releiam. Falando diretamente, não há como as demais nações do mundo almejarem uma taxa de crescimento da economia de 10% ao ano. E como é que o mundo vai reagir a isso? vendo algumas poucas nações comendo literalmente os recursos naturais das outras, para atingirem sua meta de bem-estar social e econômico? E o resto do mundo no buraco e se danando por motivos aparentemente banais, basta ver nos noticiários o que está acontecendo no Congo, no Sudão, no Zimbábue, no Haiti, e vamos por ai afora. Não estamos imunes a nada disso, é melhor a gente ir se acostumando com a idéia de que os valores sociais e econômicos atuais do nosso mundo vão ter que mudar, e muito, um outro nível de equilíbrio vai ter que surgir, e não pode demorar muito. A sociedade do carro, do individualismo, está com os dias contados (vejam o indicador do WWF sobre a questão ambiental aqui).

As perguntas que atormentam todo mundo são: como é que eu fico nessa crise? meu emprego vai ser mantido? o bem-estar da minha família está ameaçado? meu salário no fim do mês está garantido? até que ponto estamos protegidos aqui no Brasil? Muito difícil prever todas as consequências, impossível. Mesmo porque nós seres humanos somos um desastre para fazer previsões de longo prazo. A recomendação mais útil é a de sempre: cautela, muita cautela. Evitar endividamentos desnecessários, com prazos longos. Levar a vida leve, sustentável e sem excessos. E, principalmente, preparando-nos para quando a crise acabar. Como? investindo em conhecimento, em empregabilidade, a época agora é de investimento pessoal para estarmos prontos para quando o mundo emergir da crise e retomar o crescimento em bases sustentáveis. Temos que apelar para a nossa criatividade. E cruzar os dedos para que a crise seja dominada com o mínimo de respingos destrutivos.

Dabbawalas

Sábado, 4 Outubro, 2008 Jose Luis Braga 5 comentários

No mundo tecnológico em que vivemos, nem nos passa pela cabeça gerenciar uma cadeia de suprimentos ou cadeia produtiva sem algum auxílio de computadores, sistemas de informação sofisticados, bancos de dados remotos, segurança, privacidade, gerentes de sistema, gerentes de negócio, etc. Nem mesmo as mercearias (ninguém fala mais esse nome) do interior ou dos bairros mais afastados do centro das grandes cidades escapam do uso desses sistemas, o controle via a famosa caderneta já é coisa do passado, e o Brasil já está inovando com a implantação da nota fiscal eletrônica.

Dabbawala

Dabbawala

E ai topei com o artigo Os marmiteiros de Harvard na revista Exame 925, mostrando exatamente o contrário: o funcionamento de uma cooperativa dos entregadores de marmitas de Bombaim, na India. Os números são de impressionar: 5000 homens que todos os dias executam um serviço de entregas de 200.000 marmitas com refeições prontas (e quentes). Esses entregadores, denominados dabbawalas,  pegam as marmitas nas casas dos fornecedores e as entregam no horário do almoço na área comercial da cidade. A região onde as marmitas são coletadas fica no extremo oposto da região onde elas são entregues, numa cidade imensa e congestionada como é Bombaim, a maior cidade da India. E eles ainda fazem a logística reversa, ou seja, pegam as marmitas depois de terminadas as refeições, e voltam com elas à origem para reiniciarem o processo no dia seguinte.

A rotina é de impressionar. Para a coleta, eles usam bicicletas, carrinhos de mão ou caixas de madeira que levam até 60 marmitas (as marmitas não são descartáveis). Dai as marmitas são organizadas de acordo com o seu destino já na estação dos trens, que são o meio de transporte utilizado para levar as marmitas do ponto de origem até o destino. Chegando na área comercial da cidade, as marmitas são entregues por outro grupo, que levam as marmitas até os escritórios, e uma hora depois de entregues, começa o processo da logística reversa. E, pasmem, o índice de falhas nesse sistema é próximo de zero, estimado pela revista The Economist na ordem de um erro a cada 16 milhões de entregas! Isso é de assustar qualquer especialista em logística das melhores escolas. Os níveis hierárquicos são apenas três: entregadores, coordenadores e pessoal de apoio administrativo de escritório (claro, um escritório é indispensável). Os dabbawalas são empoderados (empowered) para resolver problemas locais que surjam durante as entregas, 85% deles não concluiram o ensino fundamental, ganham em média 120 dólares por mês, e nunca houve greves ou paralizações no serviço. E o sistema foi criado há mais de 116 anos! Vale a pena visitar o sitio deles, para entender melhor essa gigantesca operação.

Estão sendo citados como exemplo de empreendedorismo social, que é fundamental em um pais com tanta pobreza como é o caso da India. Pessoas de baixa qualificação técnica têm um emprego digno e com um ganho mensal considerado razoável para os padrões de salário da India. O gerenciamento de todo o sistema é um enorme desafio, e muitas lições podem e devem ser tiradas da sua análise, tanto é que que a organização é objeto de estudos na Harvard University. Sem entrar demais em detalhes, o que consigo enxergar como ótimas lições: como favorecer o lado social substituindo eficiente e eficazmente computadores por pessoas; o grande impacto de poucos níveis hierárquicos com distribuição de poder de decisão; como utilizar os meios de transportes mais antigos como a bicicleta, o famoso JK – Joelho e Kanela, e os trens que são o meio de transporte principal numa operação gigantesca;  como não gastar (muito) dinheiro com tecnologia, substituindo-a por sistemas mais simples, mais bem gerenciados e que funcionam; como fazer uma organização dessas gerar lucro no final das contas; e mais um monte de lições que certamente vão aparecer em algum livro sobre a organização.

Mas, um pequeno detalhe: o sistema funciona bem porque tanto os pontos de coleta de marmitas quanto os pontos de entrega ficam concentrados em áreas pequenas da cidade, facilitando e muito o trabalho. Talvez (certamente) esse sistema não funcione tão bem numa cidade mais espalhada como por exemplo São Paulo, Nova Iorque, etc.

(postagem feita a partir do artigo Os marmiteiros de Harvard, jornalista Luciene Antunes, revista Exame 925, de 27 de agosto de 2008)

Tecnologias da informação e as mudanças climáticas

Sábado, 19 Julho, 2008 Jose Luis Braga Deixe um comentário

Tenho postado aqui no blog vários artigos na categoria Sustentabilidade, tentando mostrar as várias faces desse enorme desafio do mundo moderno, da manutenção da nossa vida no planeta Terra. Sobre a TI, em particular, chamo atenção para as duas postagens: Sustentabilidade da TI e Sustentabilidade da TI: visão sistêmica, onde alguns aspectos da questão são discutidos. Na segunda delas, mostro até um diagrama de influências relacionando as principais macro-variáveis, e como a TI tem um claro limite ao crescimento, que são os impactos ambientais.

Mas o assunto não se esgota, está sempre em alta. Pois a TI, ao mesmo tempo que causa grande impacto ambiental com um nível mundial de emissões comparável ao da indústrica de aviação, é também uma tábua de salvação para que os deslocamentos sejam minimizados, contribuindo com as reuniões virtuais, convergência digital, etc. Um recente artigo da respeitada revista The Economist, Computing Sustainability, fala do problema sob esse ponto de vista, a partir de um estudo desenvolvido pelo GeSI: Global eSustainability Initiative, que se dedica a examinar as formas como as TIC contribuem para as mudanças climáticas.

Em 2007, os equipamentos eletrônicos ao redor do mundo criaram 830 milhões de toneladas de dióxido de carbono que foram lançados na atmosfera, contribuindo com 2% do total de todas as emissões resultantes das atividades humanas. Mesmo com o avanço nas pesquisas para tornarem as TIC mais eficientes em termos ambientais, a previsão é de que em 2020 essas emissões cheguem a 1.4 bilhões de toneladas, as maiores contribuições vindo dos datacenters que consomem um absurdo de energia, com a correspondente carga de emissões. Mesmo dando o devido desconto pelo fato de que nós somos um desastre para fazer previsões, esse número assusta, e muito.

O mesmo estudo concluiu que há muitos impactos positivos resultantes do uso das TIC, e que esses impactos positivos são maiores que os impactos negativos! Finalmente, uma boa notícia, não? E esses impactos positivos são atribuidos a videoconferência e tele-trabalho, que reduzem as emissões causadas por deslocamentos e viagens, e ao uso das redes de computadores para tornar a logística mais eficiente. Esse impacto positivo está sendo estimado em 1.5 bilhões de toneladas também para 2020, o que ainda dá um saldo positivo de 100 milhões de toneladas.

Para que os beneficios da tecnologia ultrapassem os malefícios, tem que acontecer ainda a mudança cultural necessária para que as soluções virtuais sejam mais utilizadas. Ainda vivemos na sociedade do carro, do avião, do ônibus, dos deslocamentos físicos, a cultura do virtual ainda não faz parte das nossas atividades. Vamos ter que aprender com a geração net, que vai dominar este século.

O planeta Terra vai aguentar o tranco?

Domingo, 6 Julho, 2008 Jose Luis Braga 7 comentários

Está mais que divulgado e sabido que nosso planeta Terra encontra-se exaurido, explorado além da sua capacidade de recuperação. Florestas, água, aquecimento global, lixo não-degradável, doenças novas e antigas reincidentes, pobreza, enormes diferenças entre os padrões de vida nos paises mais ricos e nos mais pobres, guerras e invasões motivadas pela posse de recursos escassos (petróleo), e vamos por ai afora. Não faltam reportagens nas principais revistas do mundo sobre o assunto, que não é novo, é antigo. O grande problema é que nós, seres humanos, não nos preocupamos com problemas enquanto eles não acontecerem do nosso lado e nos incomodarem.  Ou será que estou errado? Em uma postagem recente aqui no blog, Um sistema sobre o nosso mundo, ficam claras as principais variáveis desse jogo em que todo mundo perde.

Mais recentemente, o aumento muito grande no preço dos alimentos voltou a chamar atenção para o problema e mostrou que ele já está aqui do lado, afetando a panela de todo mundo. As variáveis são muitas, de dificil controle, e elas interagem entre si muitas vezes de maneiras inusitadas e não percebidas. Por exemplo, que o aumento no preço do petróleo causa aumento no preço dos gêneros de modo geral é fato sabido da economia, pois a maior parte dos insumos da agropecuária no mundo é derivada do petróleo, sem contar o diesel e a gasolina utilizadas no transporte. Se considerarmos o consumo de petróleo para movimentar a enorme e crescente frota de carros de passeio no mundo todo, o quadro é alarmante, afetando diretamente o preço dos alimentos, pois a demanda de petróleo fica maior que a oferta, e ele vai ficar mais caro e mais escasso. E o impacto não é somente nas reservas de petróleo, temos também a poluição que aumenta muito, piora a qualidade do ar nas grandes cidades, aparecem doenças respiratórias que antes não eram frequentes, etc. Mesmo que fosse possível aumentar muito a extração de petróleo, esse aumento dificilmente acompanharia a demanda, e o planeta não tem mais reservas de exploração barata, o petróleo vai continuar subindo muito de preço. Já há economistas trabalhando com uma projeção de 200 dólares o barril no curtissimo prazo, uma catástrofe na economia mundial.

E ai aparece a solução milagrosa: etanol, que também não vai resolver o problema. Infelizmente, a parte motorizada da humanidade, a indústria e os governos, somente conseguem enxergar o problema do ponto de vista de arrumar uma alternativa ao petróleo para se possa continuar andando de carro sem maiores preocupações.   Mas, do ponto de vista sistêmico e da sustentabilidade do planeta e da nossa vida aqui, esse é o foco errado. O foco tem que mudar, passando para o transporte coletivo concentrando o foco nas variáveis local de moradia, local de trabalho, escola das crianças, etc. e suas relações, coisa que os governos (em todos os níveis) não conseguiram prover adequadamente. Ou melhor, somente alguns poucos paises ou cidades privilegiados alocaram recursos e esforços em soluções sob esse ponto de vista, e Belo Horizonte-MG é um exemplo admirável, modelo copiado em outras partes do planeta.

Os números são de alarmar qualquer um. Por exemplo (extraido da reportagem da revista Veja de 28/05/2008), se cada indiano e cada chinês aumentarem em 25% seu consumo de carne de frango, o que não é muito considerando que a dieta atual deles é muito pobre em proteina animal, e se cada chinês também aumentar em 25% seu consumo de carne de porco, somente para alimentar os novos rebanhos de porco e frangos para suprir essa nova demanda  seriam necessárias 27,9 milhões de tonelada de milho e mais 10,5 toneladas de soja, demandando uma área equivalente ao estado do Ceará para produção. Isso sem contar que o consumo de insumos derivados de petróleo e água iria aumentar na mesma proporção. E a água seria usada não apenas nas lavouras, mas também no abate dos animais, na limpeza de abatedouros, etc. Há pouco tempo, participando de uma banca de tese de doutorado aqui na UFV, tomei conhecimento do volume de água necessário para abater um boi para consumo (em média): 2500 litros. Para abater, lavar as peças, a carcaça, limpar o couro, limpar o abatedouro, etc. É mole? deu até vontade de não comer mais carne de boi… E não pára por ai, para produzir um quilo de queijo, gasta-se entre 6 e 20 litros de água, dependendo de como a produção é organizada.  E para produzir uma garrafa de cerveja? E olhem que os animais domésticos ainda não entraram nas estatísticas, quando isso acontecer é que o impacto deles vai ser percebido mais claramente. Somente no Brasil a proporção é 1 animal doméstico para cada 5 habitantes, uma relação muito acima da recomendada como limite saudável pela OMS-Organização Mundial de Saúde.

Hoje somos por volta de 6 bilhões de habitantes no planeta, em 2050 que está logo ali, seremos (ou melhor serão) 9,2 bilhões de bocas, a se manter o atual ritmo de crescimento da população. Imaginem todo esse sistema com esse monte de variáveis, interagindo fortemente umas com as outras, impactos negativos (raramente vamos ter impactos positivos) se propagando rapidamente pelo mundo globalizado. Poeira da África chegando até aqui, cobras gigantes de Burma infestando o estado da Florida (noticia aqui), um monte de gente querendo fugir para onde possa haver alguma possibilidade  de sobrevivência. E a solução, onde está? Se houver alguma solução, ela está no próprio ser humano, ou talvez em alguma mutação nossa, que certamente vai surgir daqui a uns milhares de anos.