O usuário tem o direito de ser ignorante?

Uma notícia publicada no Slashdot me chamou a atenção, decidi comentar aqui no blog pois acho que tem impactos sociais mais fortes do que parece. Uma professora-substituta do sétimo ano (segundo grau) em Norwich, Connecticut, foi condenada e pode pegar até 40 anos de cadeia, pelo risco de danos a 10 de seus alunos, expostos a janelas popups com conteúdo pornográfico quando seu computador estava em uso em sala de aula. Apesar de um advogado de defesa ter dito que isso tinha sido causado por software mal-intencionado que se instalou no computador sem o conhecimento do usuário (spywares) a partir de visitas que a professora fez a um site sobre corte e penteados para cabelo, o investigador da polícia local afirmou que o spyware (e os popups) se instalou a partir de visitas a sites pornográficos (noticia completa aqui).

A pergunta importante que fica do caso, a despeito de seus detalhes e das enormes diferenças de regras sociais que temos com relação aos estadunidenses, é: até que ponto podemos ser ignorantes com relação às consequências do uso que fazemos de computadores institucionais? É lícito acessar qualquer tipo de site no local de trabalho, e incorrer nos riscos de ter uma máquina institucional invadida por virus, spyware, malware, etc.? Podemos alegar ignorância com relação a essas consequências aparentemente inocentes? Brincar com jogos eletrônicos nos laboratórios, acessar sites pornográficos, baixar ilegalmente filmes, músicas e software utilizando computadores institucionais é correto? Quais as consequências que podem advir desse tipo de comportamento?

A questão é moral e envolve regras de conduta muito mais que aspectos legais. As sociedades ligadas às profissões publicam códigos de conduta que devem ser lidos e entendidos, como por exemplo os da ACM-Association for Computing Machinery e SBC-Sociedade Brasileira de Computação. Pessoalmente, gosto do Juramento do Engenheiro de Software, que procuro divulgar entre os alunos de Engenharia de Software, e que vai logo abaixo. A partir do ano de 2007, os novos alunos do bacharelado em Ciência da Computação do DPI vão cursar uma nova disciplina de introdução ao curso, em que algumas aulas vão ser dedicadas ao tema de código de conduta, e os alunos vão ter acesso a uma Cartilha de Conduta preparada e atualizada anualmente pelos próprios alunos em uma de minhas disciplinas.

JURAMENTO DO ENGENHEIRO DE SOFTWARE – Juro solenemente não causar dano ao software sob minha responsabilidade, não adotar propositalmente nenhuma prática danosa, e não utilizar nenhuma técnica, método ou ferramenta que eu não entenda em sua plenitude. Fervorosamente, prometo não me dedicar a práticas deletérias ou maléficas. Farei tudo ao meu alcance para expandir meu conhecimento e habilidades, e lutarei para manter e ajudar a elevar os padrões éticos da minha profissão. Com lealdade me empenharei para ajudar os clientes e usuários atingirem seus objetivos, manterei bem guardada toda e qualquer informação que chegar ao meu conhecimento na prática profissional, e me empenharei profundamente para que os projetos sob meus cuidados sejam desenvolvidos com ética e profissionalismo. (adaptado por Phillip A. Laplante, a partir do Juramento Profissional dos Enfermeiros, feito por Florence Nightingale, publicado na revista ACM Queue de Junho de 2004)

Anúncios

Consultor Independente, Treinamento Empresarial, Gerência de Projetos, Engenharia de Requisitos de Software, Inovação. Professor Titular Aposentado, Departamento de Informática, Universidade Federal de Viçosa, Minas Gerais, Brasil. Doutor em Informática, PUC-Rio, 1990. Pós-Doutoramento, University of Florida, 1998-1999

Publicado em Carreira, Social
2 comentários em “O usuário tem o direito de ser ignorante?
  1. PG disse:

    Mas e aí… o usuário tem direito de ser ignorante?
    Acho que é bem complexo responder essa pergunta pois há casos e casos.
    Mandou bem. Belo artigo. Nos faz refletir… e isso é muito bom.

  2. Daniel disse:

    Sinceramente, penso que não estamos preparados para considerarmos um caso como esse da forma que devemos.
    Seu artigo ilustra, perfeitamente, o que acontece em nossas instituições. Contudo, acredito que em breve teremos à nossa disposição ferramentas que tornem mais justas as tomadas de decisões mais justas.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: