Mercado ou Mestrado?

Uma dúvida que inferniza a cabeça dos formandos em algumas áreas é: e agora, vou para o mercado de trabalho, ou vou tentar um mestrado? Como toda decisão, essa também envolve riscos, e é natural que todos queiram ter algum controle sobre os riscos, minimizando seus efeitos. Na área de computação, associada com a rápida evolução tecnológica, essa dúvida também é muito comum.

MERCADO. O mercado de trabalho na área de computação experimenta mudanças tecnológicas em intervalos de tempo relativamente curtos, o que por si só já é um desafio a ser vencido. Não só mudanças no hardware, que ocorrem com maior frequência, mas também mudanças no software, técnicas de construção de sistemas, novas linguagens, novas ferramentas, adoção de processos, e exigências legais relacionadas com a facilidade de auditoria em sistemas (SARBOX), governança em TI (ITIL, Cobit), responsabilidade social (SA8000), etc. Para quem vai encarar o mercado, isso significa ter que se submeter a certificações profissionais nas exigências que estejam em alta no mercado de trabalho. Certificações devem ser revalidadas periodicamente, elas têm prazo de validade. E elas custam caro, tanto a preparação quanto a certificação propriamente dita. Portanto, você vai estar submetido tanto à pressão de ter que evoluir nas certificações mantendo-se atualizado, quanto à pressão e estresse do estilo de vida dos profissionais da área.

MESTRADO. O mestrado significa encarar mais um tempo de estudos, raramente menos de 24 meses, aprofundando o conhecimento em fundamentos da área, aprendendo a desenvolver pesquisas e projetos, assumindo o papel de rato de biblioteca física ou virtual, publicando artigos científicos, participando de congressos, simpósios e workshops. Aprende-se muito na questão da convivência com colegas de equipe e orientador, que nem sempre é pacífica e sem conflitos. Aprende-se a ter intimidade com o jargão da área: Qualis, Capes, CNPq, Fapxxxx (Fapemig, Fapesp…), a encarar a crônica falta de recursos, a participar de congressos e simpósios no estilo escoteiro e vários outros desafios. Ganha-se em liberdade na escolha das leituras, no avanço do conhecimento, refinamento intelectual, capacidade de observação e visão de mundo, o que pode significar mais segurança pessoal para encarar novos desafios.

Claro que os dois perfis traçados acima podem ser melhorados, quero apenas dar uma idéia geral dos desafios. Agora, vamos à análise: mercado ou mestrado? Se sua intenção é largar de uma vez por todas os bancos de escola e ir para a rua, então sua opção clara é pelo mercado, e seu caminho está traçado. A dúvida que fica é: até que ponto vale a pena se submeter a um mestrado, para melhorar as chances no mercado de trabalho? Antes de mais nada, não se iluda, o mestrado dificilmente vai significar melhoria em termos salariais, até pelo contrário. O mercado paga pelo que você faz, e não pelo que você é. Esse é um aspecto que deve ficar bem claro no seu modelo de mundo. Existem ótimas oportunidades no mercado, e as exigências de conhecimento específico e experiência aumentam na medida em que aumenta o nível de responsabilidade dos cargos.

O mestrado vai ter muito mais impacto em termos pessoais, de segurança em termos de conhecimento de fundamentos, segurança para se aventurar em outras áreas com mais facilidade, de entender melhor os avanços tecnológicos e seus impactos no trabalho e na carreira. O mestrado abre ainda uma possibilidade de você atuar como professor, há uma grande procura por profissionais titulados para fazerem parte do corpo docente de faculdades e universidades.

O mercado que exigiria mais do ponto de vista de formação e fundamentos, é o da pesquisa tecnológica ou científica em empresas. Esse é um mercado mais sofisticado, que chega a exigir formação em nivel de doutorado dos novos ingressantes. Esse mercado ainda é muito estreito no Brasil, onde o desenvolvimento de pesquisas ocorre em universidades e centros de pesquisa públicos, na esmagadora maioria dos casos. Ao contrário do que acontece nos paises industrializados e desenvolvidos, onde o desenvolvimento tecnológico acontece muito mais nas empresas, que mantêm grupos de pesquisa qualificados para garantir sua posição no mercado e a liderança em inovação. Vale a pena ler um pouco sobre os casos da IBM, SAMSUNG, 3M e outras grandes detentoras de registros de patentes no mundo (veja aqui os dados relativos a 2006).

Bom, mas e dai, qual decisão tomar? A decisão final é pessoal, o máximo que a gente consegue fazer é ajudar a enxergar melhor as opções e tendências. Um conselho que posso dar é: não vá pelo caminho do mestrado se essa escolha significar apenas uma acomodação sua, uma inércia para encarar mudanças e sair da sua zona de conforto. Possíveis consequências disto podem ser um mestrado mal feito e a construção de uma imagem negativa exatamente com quem mais poderia ajudar em alguma outra fase de sua vida, os seus professores e orientador.

Na maioria dos casos, encarar o mercado logo depois de formado para depois tentar um mestrado é um caminho mais dificil, pois certamente vai envolver abrir mão de bom salário e conforto, para se sujeitar a viver de bolsa de estudo, voltar para o ambiente acadêmico, etc. Antes de tomarem a decisão, o passo mais acertado é conhecer melhor as variáveis, conversar com professores e colegas, fazer uma busca exaustiva por informações.

Uma última lembrança: para entrar em um mestrado, é exigido antes de mais nada um ótimo histórico escolar, iniciação cientifica e até publicação de algum artigo, pois a concorrência é muito forte. Portanto, o melhor é se preparar desde o primeiro dia no curso superior. Depois de formado, se o seu histórico estiver baleado, não tem como recuperar o tempo perdido, não há carta de apresentação que resolva.

(extraído de um debate que promovo com os formandos do Bacharelado em Ciência da Computação do DPI-UFV, na minha disciplina Sistemas de Informação)

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Consultor Independente, Treinamento Empresarial, Gerência de Projetos, Engenharia de Requisitos de Software, Inovação. Professor Titular Aposentado, Departamento de Informática, Universidade Federal de Viçosa, Minas Gerais, Brasil. Doutor em Informática, PUC-Rio, 1990. Pós-Doutoramento, University of Florida, 1998-1999

Publicado em Carreira, Educação
15 comentários em “Mercado ou Mestrado?
  1. Mateus Ferreira disse:

    É… essa é uma decisão difícil para muitos.
    Ambos lados tem suas vantagens e desvantagens, e acho que no final é uma decisão mais pessoal do que profissional. O importante é você se sentir bem fazendo aquilo que você gosta. Na minha opinião esta é a chave do sucesso na vida profissional.

    Eu optei por fazer o mestrado/doutorado e estou muito contente. Apesar de todas as dificuldades, sinto que tomei a decisão correta porque gosto muito do que faço.

    O conselho que dou é que, antes de tomar qualquer decisão, converse com pessoas mais experientes e que vivenciaram os dois lados (mercado e mestrado) e reflita sobre o que realmente interessa a você, sem se preocupar muito com salário ou status.

    Um abraço!

  2. Mazinho disse:

    Realmente é uma decisão muito difícil de se tomar, eu que o diga! Já estive no mercado e agora estou no mestrado, quando me perguntam o que me motivou eu infelizmente não sei responder, mas começo a pensar que foi a minha análise do meu mni-mundo que foi o fator para a minha decisão final.

  3. Gazolla disse:

    Otimo Artigo Zé !
    Um dos melhores que já li no seu blog !
    Só tem um problema, estou mais confuso ainda !!!
    Abraços,
    Joao Gazolla

  4. Evaldo disse:

    Bom artigo, Zeluis. No caso de alunos com bom histórico escolar e que tenham feito iniciação científca, penso que a opção do Mestrado de imediato é a melhor, simplesmente porque é possível e capacita ainda mais o profissional para o mercado. Quem não quer sera mais capaz para enfrentar o mercado?

  5. PG disse:

    Concordo com o Gazolla. Ótimo artigo, muito bom mesmo!

    O tema foi abordado de forma perfeita, mostrou os dois lados da moeda, e o melhor, deixa a resposta da pergunta nas mãos do leitor.

    Eu acho que vou para o mercado, gosto muito de dar aulas, mas infelizmente não preparei, tão bem, o meu histórico escolar, já que sempre optei por trabalhar e estudar ao mesmo tempo.

    Abraço a todos.

  6. André disse:

    A discussão é ampla. Muito ampla.

    Uma questão importante que pode ser um paradoxo é a questão o mercado esta formando para o mercado ou para a pesquisa? Ou isso tudo não acabará sendo uma coisa só?

    Será que com o mercado exigente como está, não está demandando de profissionais cada vez mais qualificados e com conhecimentos teóricos aprofundados? Por que não serem os mestres doutores, os mais qualificados a exercerem cada vez mais postos de decisão baseados em conhecimento técnico nas empresas ? Será que o mestrado estará somente formando professores? Eu acredito que está havendo uma grande confluência desses dois interesses, indústria e o meio acadêmico. Acredito que os cursos de mestrado estarão cada vez mais formando profissionais com conhecimentos sistêmicos e não somente os especialistas em assuntos técnicos. Acho que cada vez mais estaremos caminhando para uma parceria entre mercado privado (detentor dos maiores recursos, que demanda maiores níveis de conhecimento) e meio acadêmico, pois só assim conseguiremos viabilizar projetos de interesses comuns.
    Penso que essa pressão de um mercado concorrente é que aproximará indústria e academia. Acho que talvez nesse momento, com o mestrado formando cidadãos mais competentes, qualificados e consciente, haverá uma revolução de pensamento na industria.

    Se o que eu to dizendo tem fundamento, talvez em nosso lento país só veremos isso daqui a alguns anos, mas que as iniciativas estão ai….. basta olhar alguns tipos de bolsa de financiamento para mestre dentro das empresas, propiciados por exemplo pela FINEP.

  7. Parece que a tendência está sendo para o rumo do comentário do André. Mas ainda vai levar muito tempo para que a realidade mude, não temos a necessária massa crítica de oferta de mão de obra qualificada, com mestrado ou alguma pós-graduação. E a evolução da pós-graduação de qualidade no pais se dá a passos muito lentos, a criação e, pior, a manutenção e evolução de novos cursos é um desafio enorme, que ajuda a branquear a cabeça dos coordenadores. Os cursos de mestrado atuais estão se limitando a formar, em esmagadora maioria, professores para as escolas privadas, o que é muito bom, pois o efeito multiplicador é grande e o impacto na qualidade da formação dos alunos dessas escolas é certamente muito positivo. A mudança, como toda mudança social e de mentalidade, é muito lenta…

  8. André Castro disse:

    Zé Luis, penso que isso não irá demorar a acontecer tanto assim. A demanda reprimida que existia no mercado de pessoas sem o curso superior foi muito bem atendida com essa abertura sem precedentes de institutos de ensino superior. Com isso, muitos professores correram para se qualificarem e houve um boom de demanda nas universidade por cursos de mestrado e doutorado. O que esta acontecendo agora, muitos professores com doutorado estão sendo demitidos e especialistas estão sendo contratados para assumirem disciplinas com um menor custo. Então pra onde vão esses profissionais hiper qualificados? Para as Federais? Será que todos estão dispostos a encarar a ir pra o nordeste ou norte onde estão as maiores carências de profissionais com essa qualificação? Creio que não, então no meu ponto de vista, esses mestres e doutores vão acabar desaguando nas empresas privadas. Quem ganha com isso???? Os empresários que terão um alto índice de oferta de profissionais qualificadissimos a um preço de banana. Assim imagino que cada vez mais mestre ou doutores estarão presentes nas empresas deixando um pouco o foco do ensino, atuando nessas empresas em núcleos de pesquisa (no nosso caso de novas tecnologias) ou em cargos de chefia.
    MAS ISSO É SÓ OPINIÃO…RS..RS..RS..RS

  9. Certo, mas isso é um movimento lento, envolve mudança cultural tanto do lado da sociedade quanto do lado empresarial. Ainda estamos na transição para o mercado globalizado, e muitos empresários ainda acham que vão resolver seus problemas de competitividade e capacidade de inovar contratando o fazedor de homepage… Ainda nem descobriram as vantagens de uma administração técnica, baseada em processos e permitindo controle e aumento de eficiência, como exige o mundo de hoje. E não temos a massa critica de formação de mão de obra com mestrado ou doutorado, para inundar o mercado com esses profissionais e ai sim, provocar a mudança em todos os niveis. Estamos muito longe disso, gerações eu diria, e ainda temos o próprio governo para dificultar ou impedir as poucas iniciativas que surgem nas universidades (públicas principalmente) para criar cursos de Mestrado ou Doutorado. Essa mudança é muito lenta e gradual, exige muito esforço hoje para colher os frutos em 30 ou 40 anos…

  10. André Castro disse:

    Muito boa discussão hein !!!

  11. Flavio Nogueira da Costa disse:

    Otima discussao… Hoje estou vivenciando essa terrivel escolha a fazer. No momento, sou concursado na area de informatica em uma prefeitura da regiao dos lagos – RJ e tenho outro emprego na parte da noite, onde desenvolvo projetos pessoais e estou fazendo Mestrado na UFF (Universidade Federal Fluminense – RJ). Estou passando por uma terrivel escolha, pois o mestrado tem que ter total dedicação e com 2 empregos fica muito dificil. Entao agora fico me perguntando “paro o mestrado ou nao?” pq realmente largar os 2 empregos é muito ruim, pois tenho dividas mensais q so com os 2 empregos consigo levar…

    Entao fica a pergunta… Mestrado ou Mercado? é uma resposta que eu ainda nao consegui. Mas que me encomoda muito so de pensar…

    abracos a todos

  12. Schimitz disse:

    Bom, estou passando por este dilema também.. acabei de me formar e a dúvida existe, e como! Mesmo pessoas achando que uma coisa não depende da outra, um profissional tendo em mãos o mestrado vai para o mercado , na minha opinião, mais tranquilo e preparado. Isso devido tanto ao nível mais alto de conhecimento quanto à noção de que pode migrar para outro ramo a qualquer momento, caso o mercado não lhe ofereça muitas opções, como por exemplo dar aulas. Não sei o que o Ze Luis acha disso.. mas gostaria muito!

    Abraço a todos!

  13. A intenção da postagem era exatamente suscitar a dúvida, e não resolver o problema. Mas, particularmente, não acho que o mestrado vai fazer tanta diferença assim para quem vai para o mercado de trabalho. Que está cheio de oportunidades para quem é competente, e o mestrado não confere esse tipo de competência. Boas decisões,

  14. luizpcf disse:

    Revivendo esse tópico, recentemente troquei o mercado de trabalho pelo mestrado, não foi uma decisão fácil, já que realmente abri mão de muita grana, mas estou satisfeito com isso, as portas que se abriram graças a isso em tão pouco tempo não teriam acontecido se eu ainda estivesse no mercado de trabalho…

    Minha intenção como mestrado, por incrível que pareça, é empreender e de certa forma usar todo os contatos e talentos que a universidade pode me prover, no meu caso o mestrado é um caminho de subsidiar meus estudos em uma área e criar algum produto de ponta.

    • Luizinho, no seu caso é até interessante. Você foi para o mestrado como uma decisão consciente, depois de ter passado pelo mercado. O resultado é muito diferente, você certamente vai tirar enorme proveito do mestrado.

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