Serviço público ou iniciativa privada?

Uma outra decisão que ocupa a mente e a vida dos recém-formados, e também dos que já estão no mercado de trabalho, é sobre partir ou não para uma carreira na área pública. Os editais para contratação têm aparecido com muita frequência, oferecendo bons salários iniciais e enchendo os sonhos dos candidatos. E as prefeituras municipais também têm contratado, destaque para o Programa de Saúde da Família que se transformou em um passo intermediário para muitos médicos e outros profissionais recém-formados da área de saúde. Essa é outra decisão complicada, cheia de armadilhas e riscos, muito mais do que a dúvida Mercado ou Mestrado?, que comentei na última postagem. Minha análise aqui é baseada na minha própria visão de 30 anos como funcionário público federal, professor do terceiro grau.

Antes de mais nada, não encham demais os olhos com os altos salários iniciais oferecidos nos editais na área pública, embora eles sejam tentadores (um valor de que me lembro, de edital recente acho que para Auditor, era de R$7.500,00). O que fatalmente vai acontecer é que o seu salário vai ser sempre esse ou pior, ao longo do tempo. E você vai chegar ao final da carreira, na hora de se aposentar, com um salário corroido e que não garante a manutenção do seu poder aquisitivo, corrigido aqui e ali por alguma promoção ou aumento salarial gentilmente concedido pelo governo depois de algumas greves ou paralizações.

Quando fui contratado na UFV em agosto de 1976 como Auxiliar de Ensino, recém-formado e sem Mestrado, meu salário correspondia a mais ou menos US$3.000,00 brutos. O poder de compra de US$1,00 nos EUA nessa época (1976) correspondia a US$3,61 nos dias de hoje (2007), projetado pela inflação deles (neste site, entrar em Inflation Calculator). Esta é apenas uma referência para termos uma base de comparação, muitos outros fatores teriam que ser levados em consideração para fazermos o transporte correto de valores e principalmente de contexto. Meu salário bruto hoje, convertido em dólar, fica abaixo daquele valor que eu ganhava quando fui contratado, e nunca nem vai passar perto dos US$10.000,00 que seria aquele mesmo valor corrigido pela inflação do dólar. Isso depois de muito sofrimento, tensão, desânimo, mestrado, doutorado, pós-doutorado, uma greve a cada dois anos que acabaram com as nossas férias, e de ter percorrido todos os níveis da carreira de professor do terceiro grau e de já estar agarrado no último nível da carreira desde 1998. E o salário inicial da carreira hoje, para professor Auxiliar, anda por volta dos US$1.000,00 brutos! E lembrando que o salário do funcionário público está limitado ao valor do salário do Presidente da República, que oficialmente é por volta de R$12.000,00 (adicionado em 18/06/2007).

A questão salarial ainda não é o pior ponto, no meu entendimento. Uma questão muito mais complicada se refere à empregabilidade, que é a sua competência ou capacidade de se manter empregável ao longo do tempo. Que significa estar atualizado com relação ao mercado de trabalho privado, com as certificações em dia, acompanhando a evolução da área e pronto para encarar uma eventual saida do emprego público, indo para a área privada e concorrendo em condições de igualdade com quem já está lá. Treinamento não é um ponto forte no setor público, e se você não for pessoalmente muito agressivo e não desanimar depois de algum tempo, vai se transformar num dinossauro tecnológico, completamente fora do mercado de qualquer canto do mundo. O treinamento de funcionários na área pública é muito fraco ou inexistente, sempre na dependência de governantes, chefias, falta de recursos, é um ciclo vicioso que vai piorando a sua situação ao longo do tempo. E você fica no meio da tormenta, cada vez mais desanimado e cada vez mais preso a valores do tipo estabilidade no emprego, aposentadoria e carteira assinada, incompativeis com o mercado de trabalho atual e com o mundo plano e sem fronteiras.

Uma terceira questão se refere à valorização do funcionário público perante a sociedade, que se reflete diretamente na nossa auto-estima. Quem é o funcionário público perante a sociedade? Grevista, relapso, não cumpre horário, ganha altos salários, se aposenta como um marajá, causador de todos os problemas com a Previdência Social, responsável pela inflação alta, e precisa de mais? O próprio governo, que é o empregador, se encarrega de construir e polir cuidadosamente essa imagem negativa. Governos entram e saem, e isso não muda, continuamos a ser o cocô do cavalo do bandido, todo mundo no mesmo saco independente de todo e qualquer esforço que a gente faça para mudar essa imagem. Não é necessário procurar muito para constatar que essa é a imagem do servidor público perante a sociedade, basta acompanhar os principais noticiários de jornais e telejornais. Se quiserem outra opinião mais forte, realista e desanimadora, leiam aqui.

Tenho assunto para escrever muito mais sobre a área pública, mas vou parar aqui e falar um pouco da carreira na área privada. O ponto principal na área privada é: você é dono da sua carreira, da sua empregabilidade, das suas férias, do seu plano de saúde, das suas certificações, da sua ascensão profissional e do seu futuro. Tudo depende da sua competência, espirito empreendedor, arrojo e capacidade de inovar. Seu salário vai ser determinado pelo seu valor de mercado, pela sua experiência e pelo valor que você vai retornar ao seu empregador. E você ainda terá a liberdade para ter sua própria empresa, as oportunidades na área de TI são imensas e em franca expansão, o limite é o mundo. Se seu trabalho não lhe satisfaz, e se você é competente, empreendedor e manteve sua empregabilidade, a mudança para outro trabalho melhor é questão simples, o mercado é imenso mas cada vez mais exigente. Nunca se esqueça da empregabilidade, esse continua sendo um fator crucial em qualquer situação. Esse mercado tem também seus pontos negativos: estresse constante pelo excesso de trabalho e de compromissos, muita competição, cronogramas por cumprir, estouro de orçamento, time-to-market, falta de tempo para alguma atividade física, refeições irregulares em termos de tempo, sossego e qualidade. Sua saúde pode ficar muito comprometida por tudo isso, mas… depende de você querer mudar seu ritmo e partir para outra se o nivel de estresse estiver acima do que você conseguir suportar.

Felizmente, parece que uma mudança está em curso na área pública. Cargos estratégicos, tradicionalmente ocupados por apadrinhados de politicos, estão sendo lentamente ocupados por funcionários técnicos, de carreira, com pós-graduação em administração ou área correlata, com forte espírito empreendedor. Alguns governos estaduais estão adotando essa linha mais técnica (destaque para os governos dos estados de Minas Gerais e do Rio de Janeiro), e no meu entendimento essa mudança tende a valorizar as carreiras na área pública, ainda que lentamente. Não é possivel nem estabelecer um horizonte para que essa revolução se propague, mas ainda que ela esteja ocorrendo lentamente, é uma luz no fim do túnel. E, se sua vocação é ser professor e pesquisador, então você não vai ter escolha, seu caminho é tentar entrar em alguma universidade pública, pois raras escolas privadas investem em pesquisa. Esse caminho, apesar dos percalços que já citei do serviço público, tem suas compensações, a principal delas é sua liberdade de criar, estudar, ler, crescer intelectualmente e de ser responsável por parte da formação intelectual de milhares de jovens graduandos, mestres e doutores que vão entrar no mercado de trabalho com uma consciência melhor. Lembre-se: raramente se contrata algum profissional em universidade pública que não tenha doutorado, são pouquíssimas as exceções.

Mais uma vez, minha intenção foi mostrar alguns pontos para vocês pensarem, e jogar a decisão de volta para vocês próprios. Procurei não ser negativo demais ao pintar a carreira na área pública, não me deixando levar pelos meus próprios ranços e tendências que ganhei ao longo desses trinta anos. Espero ter ajudado mas… cada um é cada qual (Adilson Maguila).

Atualização 26/05/2014 – Artigo publicado no site Empreendedor Online, vejam aqui (recomendo a leitura)

(este artigo foi escrito por zeluisbraga, e postado no meu blog zeluisbraga . wordpress . com) (this post is authored by zeluisbraga, published on zeluisbraga . wordpress . com) (Viçosa, MG)

Consultor Independente, Treinamento Empresarial, Gerência de Projetos, Engenharia de Requisitos de Software, Inovação. Professor Titular Aposentado, Departamento de Informática, Universidade Federal de Viçosa, Minas Gerais, Brasil. Doutor em Informática, PUC-Rio, 1990. Pós-Doutoramento, University of Florida, 1998-1999

Publicado em Carreira
12 comentários em “Serviço público ou iniciativa privada?
  1. Mazinho disse:

    Bom, sempre trabalhei na iniciativa privada, e o que eu sempre imaginei do serviço público é que se trata de um ambiente de pouca valorização ou reconhecimento. Ou seja, você trabalha com prazos “folgados”, principalmente na nossa área, e os usuários(clientes) não reconhecem o esforço que tivemos em produzir um software. Já na área privada os pontos negativos são esses que o Zé falou mesmo, falo por experiência própria!

  2. Alexandre Gazola disse:

    Como foi falado, a decisão final de qual caminho tomar tem muito a ver com a personalidade e os objetivos de cada um…
    As oportunidades de crescimento no mercado de trabalho são muito boas, mas o ritmo frenético com que novas tecnologias são liberadas, torna bastante estressante a vida de um analista de sistemas que deseja manter seu alto nível de empregabilidade, como o Zé falou.

    Eu penso (posso estar muito enganado) que uma das poucas maneiras de reduzir esse estresse inerente a vida de um profissional da área de informática (considerando o setor privado) seria investir em uma carreira gerencial, como muitos acabam fazendo depois de um tempo.

  3. joao gazolla disse:

    Mt BOm Zé !
    Otimo Artigo no Estilo
    Mercado ou Mestrado !🙂

  4. Mateus Ferreira disse:

    Na minha opinião o ideal seria, a princípio, tentar conciliar as duas coisas, e logo depois decidir que caminho tomar. Mas claro que isso nem sempre é possivel.

    Ótimo artigo Zé.

    Um abraço!

  5. Kaabah disse:

    Assunto polêmico…

    A escolha do tipo de carreira depende muito de cada um. Dos valores que cada um dá a cada coisa. Muitas vezes o executivo da iniciativa privada que tem o ‘mundo como limite’ é aquele que olha muito pra frente e não tem tempo pro filho e a esposa que estão ao lado dele.

    Abração Zé…

  6. Gente tem mais um elemento interessante, espero que contribua com o tema…

    Tem um modelo de sociedade em negócios que já existe há muito tempo, antes denominado “sociedade oculta” (nome que parece coisa de Hollywood ou magia negra), mas que com a reforma do Código Civil Brasileiro foi “recondicionado”, e agora é conhecido como Sociedade em Conta de Participação – SCP.

    Como funciona o modelo? Segundo a Revista Consultor Jurídico:

    “A Sociedade em Conta de Participação (“SCP”) é uma reunião de pessoas físicas ou jurídicas para a produção de um resultado comum, operando sob a responsabilidade integral de um “sócio ostensivo”. É o sócio ostensivo quem pratica todas as operações em nome da SCP, registrando-as contabilmente como se fossem suas, porém identificando-as para fins de partilha dos respectivos resultados.
    Os sócios participantes, ou seja, todos os outros integrantes do empreendimento que não o sócio ostensivo, não tem participação na gestão dos negócios e se obrigam somente perante este último”.

    Resumindo: um investidor que coloca seu venture capital em algum negócio emergente, entrega para uma pessoa, grupo ou empresa gerir tal negócio e mostrar resultados e é claro ter participação sobre eles. Logicamente há um contrato (de risco) com tudo “especificado”. Na nossa área, essencialmente de base tecnológica é mais comum ainda, vide alguns projetos do Google, Microsoft, que apostam nos funcionários como “sócios”.
    Mas não é só isso, não estou falando apenas dos grandes grupos, com grande volume de capital nos grandes centros!
    Soube de iniciativas de empresários da nossa região (Zona da Mata Mineira) que tem buscado profissionais para “tocar” alguns negócios no esquema da SCP, ou seja, o empresário seleciona o profissional com perfil para gerir o negócio, investe o capital inicial na estrutura (que é dele), e… assina a carteira? Não, nada de carteira e sim SCP neles – em outras palavras “vamos abrir o negócio, você será nosso sócio ostensivo (em alguns casos distorcidos, sócio participante) e ficará responsável por tudo. Terá uma retirada (pequena) pró-labore mensal fixa, para garantir uma remuneração mínima.”. Se o negócio superar as metas estabelecidas pela sociedade todos passam a auferir lucros proporcionalmente estabelecidos no contrato de Sociedade em Conta de Participação, caso contrário o cabra tem o mínimo garantido.
    Sem dúvida muitos são os questionamentos sobre tal modelo, mas é bom que saibamos da sua existência, pois ele está sendo utilizado também como alternativa de contratação por carteira assinada ou até mesmo “PJ” (pessoa jurídica).

    É para pensar.

  7. Pois é Zé (até rimou!)
    O que acho realmente fantástico na carreira pública é esta liberdade para estudar e inovar nos temas mais diferenciados. É uma pena que nem todos aproveitam esta liberdade.
    Interessante esta informação do Clayton. Eu nunca tinha ouvido falar…
    Abraço

  8. Renato Afonso disse:

    Muito bom este texto e todos os comentários proferidos.
    Isto nos faz refletir sobre qual dos caminhos queremos seguir.
    Para isto, devemos fazer a relação custos/benefícios e pesar na balança para ver se é ou não compesador.
    Abraços.

  9. André Castro disse:

    Queria deixar aqui um relato sobre uma experiência que passei.

    Eu e um amigo formamos juntos em 96. Ambos estamos no mercado desde 1992. Em 97, esse meu amigo fez um concurso para uma Prefeitura de uma cidade de médio porte e eu continuei no mercado. Se contarmos as condições financeiras de ambos, por exemplo criados em família de classe média baixa. Não tivemos oportunidade de desfrutar dos confortos do berço de ouro. Portanto, ambos tivemos que arregaçar as mangas. De 97 pra cá tive a oportunidade de participar de algumas empresas particulares e consultor de um organismo internacional em projetos no Brasil. Esse meu amigo continua na prefeitura. Se então analisarmos as experiências profissionais e pessoais que tive ao longo de minha carreira até a presente data e verificarmos o patrimônio financeiro e econômico que pude construir saindo do ZERO e compararmos o mesmo desenvolvimento profissional e financeiro desse meu amigo. Vocês não vão acreditar a distância que ocorre entre eu e ele com relação a experiência profissional, a aquisição de bens móveis, imóveis, etc.

    Hoje aqui no mestrado, podendo me abdicar de um emprego em que estava para financiar com meus recursos esses estudos, me mostra que não estive errado até agora no meu caminho. E penso que esse meu amigo, apesar da “estabilidade” profissional terá que remar muito pra chegar onde estou hoje. Não por falta de competência, mas por um grande erro que acho que ocorre com os concursados a INÉRCIA.

  10. Ademir Rodrigues Pinto disse:

    Zé, parabens pelo assunto, vou aproveitar e deixar aqui minha opiniao. Quando li os seu texto e os comentarios me lembrei daquele filme “O Diabo Veste Prada” em que uma empresária disse que a vida familiar é inversamente proporcional à carreira profissional(algo assim), acho que isso tem um pouco a ver com a nossa profissao. É uma área que nem preciso comentar como é dinamica, se a gente não correr atrás de atualizarmos ficamos fora do mercado em pouco tempo. Trabalho a 7 anos na FUNARBE lá é meio publica e privada, não temos a estabilidade do emprego. Penso que a publica tem uma vantagem quanto a estabilidade, acho que com o tempo, filhos, buscamos algo mais estavel, já não conseguimos correr como antes(tenho 33 anos…risos) atras desse mundo frenetico da informatica, quermos ir para casa e esquecer os BITs, mexer com algum hobby, etc.. Mas tambem acho que a busca pela empregabilidade, novas tecnologias, desafios, etc. pode ser um motivador para a pessoa, muitos precisam dessas coisas para viverem. È um assunto muito complicado e deve ser pensado individualmente, vai tambem dos conceitos da pessoa sobre dinheiro, realização profissional, tempo pra familia, etc.. Não sei se fui claro na minha explanação…Mais uma vez parabens pelo assunto e pelo blog…VALEU Zé…abraços a todos…Ademir

  11. Alo, Ademir. Se a gente for analisar do ponto de vista dos riscos, corre-se muito menos riscos na carreira pública do que na carreira privada, não há dúvidas quanto a isso. Refiro-me a riscos de instabilidade no emprego, competição por mercado, empregabilidade, estabilidade de horários, etc. com os devidos sapos que temos que engulir com regularidade. De fato, dá para organizar melhor a vida e cuidar um pouco mais da família. O salário, por sua vez, é compativel com esse nivel de risco, isso talvez seja uma das explicações porque ganha-se mal no serviço público, os planos de carreira são um fiasco total, temos que fazer greves com regularidade para pelo menos recuperar uma parte do poder de compra perdido. A competência não é premiada, você não ganha pelo que faz mas sim pelo cargo que ocupa, e se for funcionário público do poder executivo ainda tem o salário limitado pelo “salário” do Presidente da República, declarado como algo em torno de R$12500,00 (vocês acreditam nisso?). Além disso, dependendo do seu cargo e da área onde trabalha, você balança que nem folha de bananeira ao vento, com as mudanças de governo, dos partidos políticos que vão assumir o poder, etc. Prá pensar, e muito…

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