Aposentadoria

Um belo dia chega o momento de você dar um basta na carreira e se aposentar. Por mais longe que esse momento pareça a você, o melhor a fazer é começar a se preocupar logo com ele, pois o tempo passa rápido, e quando você menos esperar, vai estar com seus 65 ou mais anos de idade, na hora de cair fora, e aí não há mais tempo de planejar muita coisa. A menos, é claro, que você tenha enriquecido durante sua carreira ou tenha nascido em berço de ouro, e não precise se preocupar com esses detalhes… Vou, como de costume, falar um pouco sobre o assunto mostrando os pontos que acho relevantes, e o que vai ser dito se aplica a profissionais de ambos os sexos.

A lógica da aposentadoria é a de que você deve ter um rendimento suficiente para manter sua vida funcionando a partir da idade com que você se aposentar, levando em consideração seu horizonte de tempo de vida a partir daí. Seguindo essa idéia, quanto mais velho você se aposentar, menos necessidades materiais você terá e necessitará de menos recursos para se manter. A partir de uma certa idade, a única preocupação que realmente vai pesar será a manutenção da sua saúde intacta, ou o mais próximo disso quanto for possivel, para que você possa levar uma vida mais tranquila. Os gastos materiais caem muito, pois você certamente não terá mais filhos prá criar, não vai mais estar pensando em comprar carro zero todo ano, etc., mas seu gasto com remédios, plano de saúde, médicos e viagens vai possivelmente estar em alta.

Esse é um cálculo complicadissimo, que desafia especialistas. O número de variáveis a ser levado em consideração é muito grande, por exemplo: idade com que você vai ou quer se aposentar, expectativa de vida após a aposentadoria, salário ou ganho mensal pretendido após a aposentadoria, estilo de vida, fatores políticos, fatores econômicos, fatores sociais (que incluem os familiares), assistência à saúde, e precisa mais? Somente essas variáveis que listei já vão gerar um modelo complicado, pois as interações entre elas são múltiplas.

Além disso, o horizonte de planejamento é muito longo, pois deve cobrir toda a sua vida até a aposentadoria, o que dificilmente dá menos de 40 anos. Somente essa questão já é um enorme desafio, por exemplo lembrem-se de que os furos em cronograma e custo de produção de software continuam sendo o pesadelo do pessoal da área de Tecnologia da Informação, e os horizontes de planejamento geralmente são muito mais curtos, indo de poucos meses a um ano ou um pouco mais. Imagine como os técnicos da Previdência Social devem arrancar os cabelos, lidando com simulações e modelos diferentes, e com as novas variáveis que surgem a cada instante. Por exemplo, a expectativa de vida mudou muito, e a cada mudança dessas, todo o sistema previdenciário balança perigosamente. E ainda tem o famoso efeito Viagra, geralmente observado nos homens: em algum momento da velhice, você descobre o Viagra ou similar e resolve voltar à vida sexual ativa, arruma mulher mais nova, mais filhos… e aí não tem previdência ou simulação que aguente.

Outro detalhe: isso não é apenas um problema dos brasileiros. É uma questão universal, e todos os paises incluindo os mais ricos têm os mesmos problemas. A regra geral, do ponto de vista oficial, é: garantir um rendimento básico para uma sobrevida curta após a aposentadoria. Em qualquer lugar do mundo funciona dessa forma, e as idades minimas de aposentadoria variam muito, nunca são menores que 65 anos para homens, e 60 anos para mulheres. Se você quiser algo mais que isso, e não quiser se sujeitar integralmente à aposentadoria oficial oferecida pela Previdência, tem que se organizar desde cedo e construir sua aposentadoria desde seu primeiro emprego. Se você começar cedo, basta um investimento mensal pequeno que você mesmo pode e deve gerenciar, e seu problema vai estar resolvido pelo menos em parte. Esse rendimento combinado com o que a aposentadoria oficial vai lhe garantir, certamente vai ser suficiente para você levar sua vida de aposentado sem sobressaltos. Com a implicação de que todos vocês vão ter que entender um pouco mais de economia, investimentos, gerência de riscos, aplicações, mercado financeiro, mercado imobiliário, e vamos por ai afora, o que acaba se transformando em uma segunda especialização muito útil, ou até um hobby. Construa a sua independência desde cedo, essa é a melhor jogada sem dúvida alguma.

Lembrem-se de que os artistas nunca se aposentam, já ouviram falar de algum caso? Ator, atriz, compositor, pintor, escritor, fotógrafo aposentado? Dona de casa? Eu não sei de nenhum caso, qual seria o segredo para essa longevidade profissional? Uma explicação (talvez a única) é o amor ao que se faz. Essa turma ai alia o prazer ao trabalho e mistura tudo com a própria razão de viver, e com essa visão de vida e de mundo, aposentar prá quê? Pense nisso também, associe sempre prazer com o que você faz e prolongue sua vida profissional.

Uma última palavra: a melhor arma contra a ignorância é, certamente, o conhecimento. E o conhecimento está disponivel na web em quantidade e qualidade para todo mundo usar quando quiser. Antes de mais nada, procure entender melhor a questão, informe-se, entenda os problemas da previdência oficial que é o saco de pancadas preferido de todos os governos, da imprensa e da sociedade, entenda seus vícios, a falta de uniformidade nas regras, regras criadas sem a devida análise de impacto ao longo do tempo, e vamos por ai afora. E principalmente, entenda que os funcionários públicos regidos pelo RJU – Regime Juridico Único que agora não existe mais, recolhem os 11% de contribuição previdenciária sobre o salário bruto mensal para garantir um salário de aposentadoria mais alto, antes de embarcarem na opinião de que os funcionários públicos se aposentam com altos salários e são os (únicos) responsáveis pelo rombo da previdência…

(uma boa dica de leitura so bre esse assunto é Pai Rico, Pai Pobre, de Robert Kyiosaki e Sharon Lechter, Ed. Campus, 2000)

Anúncios

Consultor Independente, Treinamento Empresarial, Gerência de Projetos, Engenharia de Requisitos de Software, Inovação. Professor Titular Aposentado, Departamento de Informática, Universidade Federal de Viçosa, Minas Gerais, Brasil. Doutor em Informática, PUC-Rio, 1990. Pós-Doutoramento, University of Florida, 1998-1999

Publicado em Carreira, Dicas
14 comentários em “Aposentadoria
  1. Juninho disse:

    É isso ae Zé! O difícil é conseguir poupar alguma coisa com a bolsa de pós graduação. E até se terminar o doutorado ou até mesmo um pós-doc, para se consegir entrar em um emprego razoável e começar a contribuir para previdência (tanto a social quanto uma privada), já se passaram pelo menos uns 7 anos. Esse é mais um dilema de quem opta pela carreira acadêmica…

  2. Mas você tem que começar, nem que seja só com a previdência oficial. que exige pouco investimento mensal. Quando terminarem esses sete anos da sua estimativa, você vai ter tantas prioridades na fila, que a aposentadoria vai ficar em segundo plano, e você vai cair na armadilha…

  3. Valério disse:

    Mas Zé, funcionários da iniciativa privada também recolhem 11% do salário bruto mensal para contribuição previdenciária. Por que então existe essa diferença considerável entre o valor dos benefícios de aposentadoria entre os dois setores? (obs.: essa não é uma pergunta retórica, eu queria mesmo saber a resposta 😛 )
    Abraço

  4. A diferença é que na iniciativa privada, você recolhe 11% sobre o salário que você pretende que o governo lhe pague depois de aposentar. O máximo salário pago a aposentados pelo INSS hoje é R$2800,00 (mais ou menos isso). Portanto, os 11% que você recolhe, no máximo, será algo em torno de R$300,00, hoje, se o seu salário na aposentadoria for esse ai. Esse valor de recolhimento varia de acordo com as categorias funcionais registradas no INSS, por exemplo Empregada Doméstica desconta sobre outro valor, pedreiro sobre outro, etc.
    No extinto RJU, o recolhimento de 11% incide sobre o salário bruto do cidadão. Se você ganha R$5000,00, vai descontar R$550,00, e assim por diante. O desconto é preso ao seu salário, pois a idéia é a de que você se aposente com esse salário (na verdade, com uma média dos últimos salários).
    No serviço público, a partir da última reforma da previdência, deixou de existir o RJU, e todos os novos contratados a partir de então recolhem como a inicitiva privada. Caiu, portanto, o valor recolhido mensal e o valor das aposentadorias está limitado ao máximo que o INSS paga. Qualquer coisa além disso, você tem que construir por conta própria enquanto estiver na ativa.
    Esclareci? Abraço,

  5. Juscelino Ramos disse:

    Prezado Zé Luiz,
    Contribuí para o INSS como empregado durante 28anos e meio no teto máximo. Faz 7 anos que trabalho terceirizado e sem contribuir. Pergunto: Posso recolher todos os meus atrasados e requerer minha aposentadoria?

  6. Juscelino, não conheço a legislação tão bem assim, mas se você contribuiu por um periodo tão longo, certamente tem como você recuperar esse tempo que ficou sem recolher, isso é muito comum de acontecer. O melhor é ir numa agência do INSS e negociar a sua situação, quanto mais cedo melhor… boa sorte, zeluis

  7. Jaime Matos disse:


    Meu básico de contribuição é aproximadamente R$ 1.932,00
    portanto contribuo com R$ 212,75 mensalmente.
    Estou com 56 anos e 33 anos de tempo de serviço.
    Pergunto, é possível me aposentar daqui 2 anos com um salário
    de R$ 2.000,00? digo uma aposentadoria de R$ 2.000,00
    Sds
    Jaime

  8. Jaime, infelizmente, não sei responder. Recomendo que você procure um posto do INSS, ou um contador experiente, para responder a sua questão. Obrigado por visitar o blog

  9. Matheus disse:

    Isso não é bem um comentário, mas mais uma sugestão.

    Tenho percebido que grande parte das empresas de computação contratam o funcionário como pessoa jurídica ao invés de pessoa física.
    Sei que você já deve ter uma lista de assuntos para postar, mas acho que seria interessante comentar esse aqui no blog, tipo vantagens e desvantagens, mais ou menos como foi feito com carreira x mestrado e público x privado.

    T+

  10. O post sobre esse assunto já está pronto, esperando apenas a contribuição de um ex-aluno, que está fazendo a parte dos cálculos para comparação PJ x CLT. Em breve vai estar no ar, boa sugestão, obrigado. zeluis

  11. getulio leite disse:

    foi concedido pra mim um auxilio doença, aposentadoria faltam 14 meses de contribuição, já fiz a 1º pericia médica e me acharam realmente incapacitado p/ trabalhar, alem da idade 67 anos, pergunto-lhe, este auxilio doença é temporário?

  12. Olá, Getúlio. Não sou especialista no assunto, mas sei que o procedimento normal nesses casos é serem feitas várias perícias médicas, até que o processo chegue ao fim e concedam a sua aposentadoria definitiva. Enquanto isso, vão manter o auxílio doença. Felicidades,

  13. Bergson Benjamin de Melo disse:

    Você conhece alguma pesquisa que trate da média de tempo entre a aposentadoria e a morte do aposentado. Pergunto isso porque se o aposentado deixa de mantar o seu cérebro com pelos menos o mesmo nível de atividade certamente ele será afetado por isso. Ademais, conheço casos em que colegas morreram entre o quarto e o quinto ano após a aposentadoria. Eles quiseram curtir!

    • olá, bergson. vi uma pesquisa recente, enviada por um amigo, realizada nos EUA. relaciona o tempo que você demora para aposentar, com a sobrevida depois da aposentadoria. quanto mais tempo você se mantém na ativa, menor é a sua sobrevida depois que se aposenta. enquanto está mais novo, tem energia e disposição para uma readaptação, talvez entrar em outra atividade, outro curso superior, enfim, consegue ainda mudar. obrigado pela visita ao blog, volte sempre

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: