Inovação, desenvolvimento e educação

A capacidade de inovar tem relação direta com desenvolvimento econômico, como mostram inúmeros exemplos. Paises que investem em inovação são potências mundiais tanto do ponto de vista econômico quanto do ponto de vista de liderança tecnológica. Entende-se por inovação não apenas a capacidade criativa de enxergar novas soluções, mas também a capacidade de implantar essas soluções provocando mudanças na sociedade, prosperidade econômica e avanços tecnológicos.

Um modelo muito discutido sobre a questão é o de transferência tecnológica, que pressupõe que o conhecimento gerado em universidades e centros de pesquisas, via a pesquisa básica ou pesquisa nos fundamentos, pode e deve ser transferido para o setor produtivo (empresas). O modelo aceito atualmente é linear, descrito como um encadeamento virtuoso dos seguintes passos: -geração de conhecimento via a pesquisa básica, independente da forma como esse conhecimento vai ser utilizado; -utilização de resultados da pesquisa básica em pesquisa tecnológica, mais preocupada com a questão da utilização dos resultados; -desenvolvimento do processo produtivo para que a produção possa ser iniciada; -produção e operação, quando então o produto final vai para o mercado consumidor. Olhando as duas primeiras fases da cadeia, a pesquisa básica é normalmente desenvolvida em universidades e centros de pesquisa, e a pesquisa tecnológica fica a cargo das empresas interessadas nos resultados e seus usos. O desenvolvimento tecnológico é normalmente utilizado como uma medida do sucesso ou liderança de um país na inovação tecnológica, expressa pelo número de patentes requeridas ou registradas anualmente pelas empresas do pais. Os números são de assombrar, por exemplo a IBM tem marcas de 3500 patentes por ano, seguida pela Samsung, Canon e várias outras (vejam o ranking internacional de patentes em 2006, aqui).

A discussão mais interessante sobre esse modelo é que, nos paises que detêm a liderança tecnológica e consequentemente têm alta capacidade de inovar, as coisas não acontecem sempre seguindo o fluxo de transferência tecnológica como apresentado acima. Nesses países, a pesquisa tecnológica é principalmente desenvolvida nas empresas, sendo que as maiores têm centros de pesquisa e desenvolvimento tecnológicos próprios, muito bem equipados e que empregam um número muito grande de doutores e mestres. No decorrer do desenvolvimento das pesquisas tecnológicas, surge a necessidade de geração de conhecimento novo, via pesquisa básica, em decorrência das necessidades e demandas por resultados específicos e ainda não disponíveis. Por exemplo, para permitir que astronautas pudessem sair das estações orbitais para o espaço, foi necessária muita pesquisa básica em novos materiais resistentes às novas condições de uso. Inicia-se assim um ciclo a partir da pesquisa tecnológica caminhando no rumo da pesquisa básica, no fluxo inverso ao da transferência tecnológica. E esse caminho inverso é o dominante, com as empresas demandando e financiando o desenvolvimento de pesquisa básica (parcerias universidade-empresa) nas universidades com um foco em aplicações. Passa-se a desenvolver pesquisa básica motivada por aplicações, o que segundo os puristas rompe com a independência e motivações da mesma (gerando uma discussão polêmica e infrutífera).

Dentre outras consequências e demandas, o avanço tecnológico impõe muita pressão sobre o sistema educacional do pais, que tem a função de gerar a mão de obra qualificada para suprir as necessidades das empresas, possibilitando assim a sustentação desse ciclo virtuoso de crescimento e prosperidade. Podemos tirar daí a primeira grande lição, e talvez a única que interessa: sem educação de qualidade em todos os níveis, não é possivel suprir a demanda por bons profissionais necessários para sustentar o desenvolvimento tecnológico. E, pior ainda, não se consegue ter disponibilidade de profissionais que queiram assumir posições nas universidades, encarregando-se da formação da mão de obra, desenvolvimento de pesquisas em parceria com as empresas, orientação de estudantes de pós-graduação, etc. Os paises que enxergaram isso com clareza e investiram na educação de todos os níveis, experimentam hoje um forte ciclo de desenvolvimento econômico. Exemplos são Cingapura, Coréia do Sul e Irlanda, para ficar apenas nos mais conhecidos. Outros paises estão na mesma rota de desenvolvimento sustentável, começando a despontar nos rankings de desenvolvimento tecnológico. Surge assim um ciclo virtuoso de desenvolvimento sustentável e forte, tendo como consequência o desenvolvimento econômico do pais e de toda a população.

As pesquisas na área social mostram claramente que o caminho comprovadamente correto para a erradicação de pobreza, melhoria de condições de vida da populaçao, desenvolvimento tecnológico e econômico de maneira sustentável, sem a dependência de soluções paliativas e de programas do governo ou do partido político de plantão, é pela educação. Educação de qualidade, em todos os níveis mas principalmente nos níveis básicos, ensino profissionalizante público que permita aos jovens terem uma profissão técnica e ingressar mais cedo no mercado de trabalho é o único caminho sustentável para começarmos a resolver nossos problemas crônicos e seculares.

(para ler mais, recomendo o excelente livro já com versão em português: Pasteur´s Quadrant: basic science and technological innovation, Donald E. Stokes, Brookings Institution Press, 1997)

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Consultor Independente, Treinamento Empresarial, Gerência de Projetos, Engenharia de Requisitos de Software, Inovação. Professor Titular Aposentado, Departamento de Informática, Universidade Federal de Viçosa, Minas Gerais, Brasil. Doutor em Informática, PUC-Rio, 1990. Pós-Doutoramento, University of Florida, 1998-1999

Publicado em Educação, Sustentabilidade
4 comentários em “Inovação, desenvolvimento e educação
  1. welington martins ribeiro disse:

    Muito bom

  2. Ivanildo Luciano Nogueira disse:

    A inovação educacional na área da eletricidade demandada-se em função dos constantes avanços tecnológicos e da fase contínua de mudanças em que se apresenta o mundo atual e globalizado. Delimitando espaços, deve satisfazer as novas demandas profissionais que hora se apresentam em função do desenvolvimento industrial do nosso estado. Tal projeto inovador deve buscar em princípio, a quebra de paradigmas e implantação de um modelo moderno e padronizado de educação, induzido tanto pela globalização quanto pela mobilidade que se faz necessária ao profissional de sucesso.

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