Diversidade, sala de aula e patrulhamento ideológico

Minha geração foi profundamente marcada pela Revolução de 1964, também chamada de golpe militar de 1964, e seus desdobramentos na sociedade. A turma que nasceu por volta de 1950 (1951 no meu caso) estava com uns 15 anos em 1964, ainda meio crianças para entendermos completamente o que estava se passando. Nessa época, nossa diversão era jogar volei ou pelada, tocar violão, namorar, ir para as brincadeiras dançantes, de vez em quando tomar um samba (coca-cola com cachaça) ou um cuba-libre (coca-cola com rum) quando a grana era suficiente. Essa geração foi pega no pulo quando entrou na universidade no final da década de 1960 e início da década de 1970. Os DCEs (Diretórios Centrais dos Estudantes) estavam fechados e proibidos de reabrir, não eram permitidas reuniões ou aglomerações, nada podia ser falado ou, pior ainda, escrito, porque sempre tinha alguém do lado para dedurar você aos órgãos de repressão. O AI5 (Ato Institucional 5) e o DL477 (Decreto Lei 477) foram as marcas mais fortes dessas gerações, e vivemos nossa juventude até a formatura ainda sob os efeitos desses instrumentos de repressão.

Dessa nossa nossa geração não despontaram grandes líderes, pois na idade em que as idéias florescem e o caráter se forma mais agressivamente, estávamos travados e reprimidos sem possibilidade alguma de expressão ou desenvolvimento de capacidade de liderança e realização. A censura e os censores estavam por todo lado, travando a criatividade e a livre expressão e circulação de idéias, censurando filmes, músicas, livros, jornais, e qualquer outra manifestação artística ou cultural que fosse julgada imprópria pelo regime militar e seus representantes civis. O músico Geraldo Vandré tornou-se um símbolo, e sua música Caminhando (Prá não dizer que não falei de flores) tornou-se um hino da resistência, e é cantada e lembrada até hoje. Liamos alguma literatura underground, nome dado na época às publicações proibidas de circular às claras, como por exemplo o jornal O Pasquim, quando ele nos chegava às mãos de alguma maneira. Mais tarde, bem mais tarde, ele teve a circulação liberada nas bancas e saiu da condição de literatura underground. Um livro muito interessante sobre esse período é O Pasquim e os anos 70, escrito por meu quase-homônimo prof. José Luiz Braga (quase porque o meu Luis é com “s”), professor da Faculdade de Comunicação da UnB, uma adaptação de sua tese de doutoramento.

Como se isso não bastasse, vivíamos assombrados pelo patrulhamento ideológico. A figura do dedo-duro e sua presença, imposta pelo estado, dentro das salas de aula, nas associações, jornais, meio artístico e outros era temida e real, casos e mais casos sobre esse ator do sistema repressivo já fazem parte dos livros de história. Não podiamos falar nada, comentar nada, frequentar certos lugares, rir de nada em público. Em sala de aula, nem pensar, a insegurança era enorme, pois não sabiamos se o colega do lado era um dedo-duro que ia nos delatar aos órgãos de repressão, representado dentre outros pelo temido DOPS – Departamento de Ordem Política e Social. Nem queiram imaginar o que foi essa época e seus efeitos posteriores na sociedade. Pois bem, felizmente depois de muito sacrifício, mortes, lutas, bombas, invasões, tortura, tudo isso passou, e entramos em uma nova era, com o fim do regime militar e a restauração da democracia no pais. Diretas já, eleições, imprensa livre, livros sobre o regime, a vida voltou ao normal.

Essas coisas me voltaram à cabeça, e resolvi escrever essa postagem aqui no blog, para fazer uma reflexão que quero compartilhar principalmente com meus colegas professores (atuais e futuros), que como eu passam boa parte do seu dia na sala de aula, na boa e alegre convivência com os alunos, ajudando em sua formação não apenas técnica, mas também de cidadão, de visão sistêmica, de capacidade de análise, de avaliação de riscos, de boas leituras, de boa escrita e de boa fala. Voces acham mesmo que a patrulha ideológica acabou, e que estamos livres dela? Na minha humilde opinião, acho que não acabou, e ela continua presente nas salas de aula, embora felizmente muito branda e ocasional… mas como?

A diversidade na sala de aula de nossos dias é incrivel. Origem, cor, religião, opção sexual, grupo familiar, posição social, tendência política, distúrbios… e mais um monte de outros aspectos convivem na sala de aula, proporcionando a todos uma experiência de convívio muito rica e fascinante, uma verdadeira sopa cultura. Felizmente, a convivência é pacífica (pelo menos aqui na UFV), e cabe a nós professores tentar manter esse equilíbrio. O que nem sempre é possivel pois afinal somos apenas humanos, o que não é suficiente para gerenciar algumas situações. Mas, como professores que somos, ficamos em evidência na frente da turma por aulas e mais aulas seguidas, e nosso comportamento e falas em sala de aula entram na cabeça de cada aluno de acordo com o seu filtro semântico, cada um entende o que a gente fala de acordo com seus próprios credos, tendências e valores. E aí é onde mora o perigo e onde o patrulhamento e o preconceito reafloram, embora não com a mesma conotação da época da ditadura militar. Por qualquer descuido ou excesso, emitimos opinião (não-técnica) sobre algum assunto, e essa opinião, sem intenção de atingir ninguém ou nenhum grupo específico, emitida dentro de um contexto determinado e apenas para despertar os alunos para algum problema ou tema, atinge alguém do outro lado de uma maneira completamente diversa da nossa intenção, e ai podem começar os problemas e dores de cabeça. Esse é o ponto para o qual eu queria chamar a atenção, nessa longa postagem meio histórica e meio ativadora da nossa memória, nós professores não prestamos atenção ou até nem percebemos esse tipo de risco (que é desprezível ou até inexistente na maioria das vezes). Estamos sempre muito expostos, ainda mais hoje com toda essa tecnologica disponivel ao alcance de todos: celulares com câmera digital, gravador de bolso…

O que é o preconceito? No meu entendimento, é você se esconder atrás do próprio preconceito, para vigiar e criticar preconceitos na fala e atitude dos outros… A história está ai, cheia de exemplos…

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Consultor Independente, Treinamento Empresarial, Gerência de Projetos, Engenharia de Requisitos de Software, Inovação. Professor Titular Aposentado, Departamento de Informática, Universidade Federal de Viçosa, Minas Gerais, Brasil. Doutor em Informática, PUC-Rio, 1990. Pós-Doutoramento, University of Florida, 1998-1999

Publicado em Educação, Reflexões, Social
5 comentários em “Diversidade, sala de aula e patrulhamento ideológico
  1. […] Novembro 4, 2007 às 7:30 pm · Arquivado em blogosfera, consumo Li três posts hoje que falam de patrulha. Comecei com a patrulha ideológica, numa reflexão sobre a liberdade de pensar e opinar, direito omitido de uma geração (da Ditadura) e ainda hoje veladamente tosado em algumas instituições de ensino. O autor, um professor, fala para seus pares em Diversidade, sala de aula e patrulhamento ideológico. […]

  2. Francisco Leonardo Gazzola disse:

    Prof. Zé Luis, o que chamau de Perigo com certeza existe e pode ter consequências, digamos, chatas. Contudo, esse perigo ( na forma do preconceito, ou um celular ligado gravando tudo ) que aumenta a probabilidade de um mal-entendido, não deve tolher o papel do professor de nos enriquecer com sua visão crítica de mundo, ou pelo menos do assunto em questão. Assim como existem espectadores ávidos por brechas da fala do professor, cheios do preconceito como você definiu, existe um número ainda maior dos que estão ávidos por escutar novas reflexões além das do meio estudantil. Para nós que estávamos em sala de aula, em cidades longe dos pais, que ainda não tínhamos “patrões e opiniões além das das cabeças com 20 anos, a opinião do professor é fundamental para melhorar nosso senso crítico, muitas vezes um senso ainda “moleque”.

    Portanto, apesar do perigo, acho que o professor, que já é herói por outros vários aspectos, também deverá ser homem-aranha ao evitar o tal Perigo mas ao mesmo tempo não deixar uma aula vazia de opinião.

    Valeu, Chico

  3. Mas o fato é que o mundo está mudando, e temos o preconceito aflorado em todo canto, até onde não era para existir. De vez em quando chegam aos ouvidos noticias de reações mais bravas sobre comentários de professores em sala de aula, dentro do contexto adequado. Aqui na UFV, por exemplo, conheço dois casos, o de um colega que estava dando aula sobre distribuição de renda e inserção social (não tenho certeza se era exatamente isso, mas era parecido), e um aluno o acusou de estar abordando o tema de forma preconceituosa e o pau quebrou; e o meu próprio que, apesar de não ter havido nada perceptivel na sala de aula, fui acusado via chefia do departamento de emitir comentários preconceituosos na sala de aula, e o aluno que fez a denúncia supostamente estava me ameaçando com um processo administrativo por causa disso. Logo eu… Resultado: por causa de um aluno, fui levado a rever minha postura na sala de aula, e ela mudou radicalmente, comentários nunca mais, apenas o assunto da aula e estamos conversados. Até as brincadeiras estão travadas por conta disso. Esse é o novo mundo… abraço,

  4. Zé,
    Eu imagino que o que aconteceu realmente deve ter sido contrangedor para você. Nunca ti vi mal intensionado, nem com preconceitos. Mesmo sem este problema, eu sempre percebia em você um certo cuidado, mesmo em situações de visível indignação. Lamento muito por este problema enfrentado. Entretanto, como diz o ditado popular, há males que vêm para bem.
    Temos que aproveitar estas situações para tirarmos alguns proveitos. De repente, você da uma recuada na exposição das opiniões, mas depois volta com mais propriedade, mais experimentado na abordagem.
    Como bem lembrou o Léo, as opiniões dos professores são importantes, em particular as suas. É claro que não temos que sempre considerar todas as opiniões de todo mundo (você conhece melhor que eu verdadeiras pérolas no ramo), mas todos os professores desempenham um papel fundamental neste aspecto. Você mais ainda!
    É isto. Parabéns pelo aniversário do blog. Espero voltar a lê-lo com frequencia e retomar o meu. Grande abraço,
    Marconi

  5. Regina Caeli disse:

    Quero escrever uma MONOGRAFIA COM OTEMA DIVERSIDADE….AMEI!!!!!!!!!!!

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