Decisões reativas

Cada vez que leio alguma notícia sobre assaltos e assemelhados realizados por motoqueiros, como o que vitimou o ortopedista Lidio Toledo Filho nesse final de ano, fico imaginando que algum dia algum legislador vai ter a idéia de proibir o carona nas motos. Ou, indo mais longe um pouco, vai proibir as motos de circularem. Mas não é que hoje pela manhã topei com a noticia com o título SP pode proibir garupa em moto, no sitio do Yahoo? Não quero aqui discutir a proposta e muito menos criticá-la. Mas vou aproveitar a oportunidade para refletir sobre esse tipo de decisão.

imagemClaro que temos um problema imenso a ser resolvido, pois as motos estão ai, são um meio de transporte barato e possivelmente uma ótima solução para as nossas grandes cidades entupidas de carros de passeio principalmente. Mas, junto com o grande aumento no número de motos, vêm também os problemas causados por alguns de seus pilotos, e que são mostrados regularmente pela midia: motos circulando em cima da calçada, andando na contramão, assaltos e outros crimes praticados por motoqueiros e seus caronas, atropelamentos, excesso de velocidade, e vamos por ai afora. A paranóia está se instalando nas cidades, e basta um motoqueiro parar do lado de um carro no sinal para ficar todo mundo apreensivo (inclusive eu). Se ele mexer na mochila ou na pochete, então é o caos, já se imagina um assalto, que ele vai sacar uma arma, etc. E com razão, pois esse tipo de ação está ficando cada vez mais comum, e é dificilimo ou mesmo impossivel de ser coibida ou monitorada pela polícia.

A proibição de garupa em motos, se for aprovada, é mais um exemplo de decisão reativa, tomada pelos nossos administradores com base apenas no fato isolado, sem uma análise sistêmica de toda a situação. É um dos perigos de análises causa-efeito sem recorrer a dados e ferramentas que auxiliem a enxergar a situação real, a enxergar a floresta toda, e não apenas uma árvore isolada. Exemplos: o número de crimes praticados pelo garupa das motos está aumentando, então vamos proibir garupa nas motos; o assaltante usa as mãos para segurar a arma e assaltar e matar, então vamos obrigar todo mundo a andar com as mãos amarradas; e podem procurar que vocês vão achar mais um monte de exemplos nessa linha, decisões tomadas com base nos fatos isolados, sem enxergar todo o contexto. Os recentes e horríveis acidentes aéreos no Brasil fornecem exemplos de várias decisões reativas tomadas pelo impacto dos acontecimentos, e o problema fundamental continua lá, parado e pronto para causar mais problemas.

A questão é que as decisões reativas têm perna curtissima, e atuam principalmente nos sintomas de um problema muito maior, que pode ser chamado de problema fundamental. E isso cria um ciclo de decisões do mesmo tipo, uma em cima da outra, pois o problema fundamental não pode nunca ser resolvido pela eliminação de seus sintomas, ele tem que ser atacado frontalmente. Do ponto de vista do administrador público, as decisões reativas têm impacto imediato e aparecem como realizações da administração dele, ao passo que a solução dos problemas fundamentais exigem visão de médio a longo prazo, e quem vai colher os frutos da decisão certamente não vai ser o administrador que a implementou, vai ser algum outro vários anos depois.

Claro, temos um problema grave a ser resolvido, e em algumas situações, não há como fugir de tomar imediatamente decisões reativas paliativas. Mas elas têm que ser acompanhadas pelo ataque ao problema fundamental, senão tornam-se inócuas e causam mais problemas no curto prazo. Para ler mais e entender melhor a questão da análise sistêmica para tomada de decisões, recomendo o livro A quinta disciplina, de Peter M. Senge, Ed. BestSeller, 2006. Esse livro deveria ser leitura obrigatória nos colégios, dentro do contexto de um curso especifico para trabalhar os conceitos que ele transmite. E nossos administradores, de todos os níveis, deveriam ser obrigados a fazer um curso de treinamento nas técnicas sistêmicas. Será que a idéia pega?

(noticia do portal G1, já com uma opinião mais sistêmica)

Consultor Independente, Treinamento Empresarial, Gerência de Projetos, Engenharia de Requisitos de Software, Inovação. Professor Titular Aposentado, Departamento de Informática, Universidade Federal de Viçosa, Minas Gerais, Brasil. Doutor em Informática, PUC-Rio, 1990. Pós-Doutoramento, University of Florida, 1998-1999

Publicado em Livros, Social
3 comentários em “Decisões reativas
  1. Valter Lobo disse:

    Seria o mesmo que dizer ‘quem bebe água tem câncer’, falta analise com inteligência e foco no resultado. O livro já esta na minha lista de leituras obrigatórias.

  2. Deci disse:

    Podia incluir esse post na categoria Livros do seu blog, já que eu incluo essa sua categoria como referência para leituras =)

  3. Olá, Deci. Fiz a alteração que você solicitou. Comecei a escrever o post sem pensar no livro, a citação dele apareceu no decorrer da escrita. Obrigado,

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