Interrupções e a queda na produtividade

Interrupções são consideradas um grande entrave à produtividade, um gargalo para a produção nas empresas. A Engenharia de Software, que depende muito de concentração e trabalho contínuo para não perder o fio da meada, também é diretamente afetada pelas interrupções. Em enquete conduzida de novembro de 2006 a janeiro de 2007 e publicada no ano passado, conduzida pela SEC Talentos Humanos, o item interrupções pelos colegas, pares e chefes teve 27,8% dos votos, foi o campeão da enquete. Dos 263 votos da enquete, o restante da classificação ficou assim: –telefonemas, 23,6% dos votos; –instant messenger, 13,7% dos votos; –email, 12,5% dos votos; –distrações/dispersões, 12,2% dos votos; –reuniões, 5,7% dos votos e conversas de corredor, 4,6% dos votos.
        A questão não é nova, sendo um reconhecido problema na área de Gerência de Projetos. O modelo de qualidade de software preconizado pelo SEI (Software Engineering Institute), que começa com o PSP-Personal Software Process para o nível de competência pessoal, seguido pelo TSP-Team Software Process para o nível de competência e organização de equipes, e acaba no CMMi-Capability Maturity Model integrated, leva em consideração a questão das interrupções, notoriamente no PSP que trata da competência e organização no nível pessoal.
        O PSP segue também o modelo de aquisição de competências por níveis, de forma similar ao TSP e ao CMMi quando usado no modo em estágios. Esse modelo de crescimento por níveis sucessivos de competência, denominado originalmente de stages of growth model, foi criado pelo professor e pesquisador Richard L. Nolan, para descrever a evolução da TI nas empresas. No primeiro nível do PSP, denominado PSP0 – Medidas pessoais básicas, no formulário específico para registro de atividades, as interrupções devem ser registradas com tempo de início e tempo de término e uma breve nota explicativa para cada uma. Posteriormente, esse tempo decorrido é computado e associado com as principais causas de interrupção. Nas vezes em que aplicamos o PSP em sala de aula e em empresa, houve concordância de que os principais vilões são os telefonemas, chat, email, etc., coincidindo com os resultados da pesquisa da SEC. O uso dos dados sobre interrupções pode, sem dúvida alguma, fornecer à empresa informações valiosas sobre seu ambiente de trabalho e sua organização.
        Recomendo, a quem se interessar pelo assunto, uma postagem sobre interrupções do blog HeadRush, mantido pela Kathy Sierra e Dan Russell, responsáveis pela série de livros Head First…. (Head First Design Patterns, Head First Java, ….). Esse blog foi descontinuado no ano passado, e causou pesar na sua imensa comunidade leitora, principalmente pelos motivos que levaram ao fechamento: ataques externos ao blog e à pessoa da Kathy Sierra (está tudo explicado no blog a partir da página inicial). Os artigos do blog continuam lá, são mais de 400 a maioria muito interessante, e em particular o artigo sobre interrupções, que volto a recomendar, Sensemaking 3: how do people manage interruptions?
        Bom, do ponto de vista da produtividade, não há dúvida de que interrupções em excesso atrapalham e muito, interrompendo o fluxo de raciocínio, causando atrasos e erros, pois para voltar ao fluxo interrompido leva um tempo, que pode ser um tempão. Mas há controvérsias: seres humanos não são máquinas, e certamente há interrupções positivas que ajudam a melhorar a produtividade, como aquelas para um café ou uma troca de idéias com colegas quando a produtividade está em queda e a cabeça começa a esquentar. Sem excessos e com responsabilidade, as interrupções são necessárias.
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Consultor Independente, Treinamento Empresarial, Gerência de Projetos, Engenharia de Requisitos de Software, Inovação. Professor Titular Aposentado, Departamento de Informática, Universidade Federal de Viçosa, Minas Gerais, Brasil. Doutor em Informática, PUC-Rio, 1990. Pós-Doutoramento, University of Florida, 1998-1999

Publicado em Carreira, Engenharia de Software
2 comentários em “Interrupções e a queda na produtividade
  1. Joao Gazolla disse:

    Muito interessante as palavras…
    Li algo relacionado no blog Lifehacker, escrito por Gina Trapani

    http://lifehacker.com/369128/get-things-done-with-bi+modal-work-styles

    Basicamente ela fala sobre dois modos de se trabalhar…

    1)loose/open, and 2)focused/closed.

    É uma maneira bem interessante de se dividir os modos de trabalho…
    Inté!

  2. V. disse:

    Graças às interrupções sucessivas e constantes eu raramente trabalho no laboratório, e passei a fazer tudo que é possível do meu trabalho em casa. Mas como você colocou muito bem, “seres humanos não são máquinas”, e às vezes uma diminuída no ritmo rende muito mais em produtividade mais tarde. Não existe fórmula nem processos para desenvolver criatividade, na verdade, geralmente excesso de certas regras acabam é prejudicando a capacidade de criação.

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