Software como serviço

Os modelos de negócio na área de TI evoluem na medida em que a tecnologia avança. O surgimento da internet e sua disseminação pela sociedade e pelo mundo dos negócios abriram novas perspectivas e novos modelos, antes apenas imaginados. A adoção do modelo de aluguel de software, que vem sendo discutido há algum tempo, está sendo possivel graças à internet e sua disponibilidade atual, no nosso mundo conectado, embora ainda tenhamos conectividade restrita e o avanço da banda larga venha acontecendo a passos lentos. No nosso mundo capitalista, tudo é movido pela economia, nada aparece do nada e de graça, o motor são os negócios e o que eles vão poder gerar de retorno aos investimentos feitos.

Mas, o que é aluguel de software ou software como serviço, quando comparado com o modelo tradicional vigente? No modelo tradicional, o software é comprado na base de uma licença para cada terminal ou máquina usuária; os dados ficam armazenados nos servidores da empresa e o acesso a eles somente pode ser feito via máquinas conectadas ao servidor; e a atualização de versões tem que ser feita diretamente pelo departamento de TI, máquina por máquina. Já no modelo de negócio baseado em aluguel de software, não há aquisição de software, que é alugado e pago por mês com base no número de usuários; o sistema roda no servidor do prestador de serviço e pode ser acessado pela internet; a atualização do software é feita apenas no sitio do prestador de serviço, passando a valer para todos os usuários cadastrados. A empresa Salesforce, que tem uma representação aqui no Brasil, é uma das pioneiras nesse novo modelo de negócios. A empresa tem mais de 40000 clientes cadastrados, com mais de 1 milhão de usuários, e ainda foi mais longe: em seu portal, outros desenvolvedores podem colocar seus sistemas utilizando o mesmo modelo de aluguel. Do lado de cá, a brasileira Datasul também adota o modelo, nas suas soluções de outsourcing.

Esse modelo de negócios, ainda em início de disseminação e rodeado de dúvidas e preconceitos naturais, pode aos poucos se transformar em mais uma solução de eficiência e produtividade administrativas, comparável à organização baseada em processos que começou a ser adotado na década de 1990, provocando uma verdadeira revolução nas empresas, sendo hoje quase obrigatório para que as empresas atinjam níveis de competitividade global. Todos os modelos inovadores têm uma curva de aprendizagem, ou de aculturamento, que exige tempo e dedicação. Em uma análise preliminar, a principal vantagem da adoção deste modelo seria a possibilidade de qualquer empresa, independente do tamanho, poder utilizar os mesmos sistemas utilizados pelas grandes empresas, nivelando as questões administrativas e de processos de negócio internos, permitindo a elas melhores condições de competitividade com as empresas maiores. Atualmente, os investimentos para ter, por exemplo, um sistema de gestão integrado em qualquer empresa são muito altos, o que é uma barreira para sua utilização por empresas médias, pequenas ou micro.

Mas, como ficará a questão da segurança e privacidade dos dados, que a principio ficam armazenados nos servidores da empresa prestadora do serviço? Essa é uma questão cultural complicada de superar, tem que haver muita confiança no modelo e no prestador de serviço para embarcar nele e deixar os dados estratégicos da sua empresa armazenados em outro canto que não sejam seus próprios servidores, administrados pelo seu pessoal de TI. Uma outra questão mais simples é como ficaria a customização do software alugado às necessidades da empresa? As empresas têm suas particularidades, e o software tem que ser aderente a elas, pelo menos em princípio. Espero contribuições dos leitores para a questão, é preciso entender muito bem os prós e contras, para ter uma visão sistêmica que permita tomar decisões.

Esse modelo de negócios é novo na área de TI, mas existem iniciativas semelhantes em outros setores da economia. Por exemplo, o servico Exporta Fácil do correio brasileiro oferece a empresas de qualquer tamanho o serviço de exportação de produtos, viabilizando a existência de um grande número de empresas produtoras de bens que, sem essa alternativa, teriam um custo de exportação proibitivo dada a sua escala de produção. Outro exemplo ainda do próprio correio brasileiro é o Correio Net Shopping, um portal de lojas que vendem seus produtos utilizando os serviços dos correios para pagamento e entrega.

(Revista Exame, 9 de abril de 2008, seção de Tecnologia: software, artigo Drible no departamento de TI)

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Consultor Independente, Treinamento Empresarial, Gerência de Projetos, Engenharia de Requisitos de Software, Inovação. Professor Titular Aposentado, Departamento de Informática, Universidade Federal de Viçosa, Minas Gerais, Brasil. Doutor em Informática, PUC-Rio, 1990. Pós-Doutoramento, University of Florida, 1998-1999

Publicado em Economia, Engenharia de Software
7 comentários em “Software como serviço
  1. whg disse:

    Outro ponto importante, embora não tenha certeza se se encaixa bem à discussão, é a questão de empresas que lidam com softwares open source. Estas, que vendem serviços relacionados à manutenção e suporte à softwares de código aberto e não o software propriamente dito, estão cada vez mais presente, vide Novell, Canonical, etc…

  2. Maurilio Possi disse:

    Zé, outro assunto interessante e relacionado, é a inovação que o Google vem propondo. Nesse vídeo, de modo bem superficial, tem algumas coisas sobre isso: http://jg.globo.com/JGlobo/0,19125,VTJ0-2742-20080506-321489,00.html .
    Acho que em breve teremos um GoogleOS disponível.

    Abraços

  3. O conceito de cloud computing já é empregado, por exemplo, pela Amazon.com. Olha a postagem Amazon.com e a inovação, o modelo está apresentado la.

  4. Valter Lobo disse:

    Considero uma boa oportunidade de mercado e uma ótima opção para
    sistemas de informação , o empresário necessita apenas de administrar o seu
    negocio e não a área de informática ( TI ) como já acontece com alguns serviços contratados de telefonia, instala o aparelho e começa a falar, disponibilidade de rede e por conta da operadora.

    Segue uma referencia de um paper :
    http://www.mckinseyquarterly.com/Information_Technology/Delivering_software_as_a_service_2006_abstract

    Resenha sobre um livro que foi lançado recentemente falando sobre este tema, The The Big Switch:http://portalexame.abril.com.br/revista/exame/edicoes/0912/tecnologia/m0152288.html

  5. Olá, Valter. Já conhecia a referência do livro do Nicholas Carr, ele é um autor muito citado e lido. Está na fila das leituras, mas são tantos livros antes dele, que nem me animei a comprar (ainda). O modelo de serviços, se houver banda suficiente para suportar seu crescimento, veio para ficar, deve ser a próxima onda em TI. Obrigado pela visita,

  6. Olá Zé, ótimo assunto!

    Uma observação que acho relevante e não foi levantada no artigo Exame: As novas preocupações trazidas pelo SaaS não são apenas segurança e privacidade, também temos pontos que estariam além das “boas intenções” dos fornecedores, (e demandam outras mudanças além das culturais) como escalabilidade, disponibilidade e performance. Quanto maior a popularização do software como serviço, maior serão os requisitos técnicos.

    Aproveitando a deixa do Salesforce (do qual sou cliente e fã 🙂 ), eles possuem um mecanismo para visualização de QoS em runtime (http://trust.salesforce.com/trust/), e para quem pretende oferecer serviços, em pouco tempo isso não será nem diferencial. Vejam que é possível verificar status e histórico dos principais serviços fornecidos pelo sistema.

    Ainda falando do SalesForce, como o artigo cita, existe uma plataforma através da qual é possível publicar seus próprios softwares como serviço, e chama-se appexchange (http://www.salesforce.com/us/appexchange/) e funciona como um marketplace. Já tem muita gente disponibilizando seus serviços lá, já contando com toda a infra oferecida, apenas se adequando a alguns padrões estabelecidos por eles. Ou seja, o Salesforce ganha dinheiro com seu produto, e também ganha alugando o “galpão” para outras empresas venderem…
    abraço, Marcílio.

  7. Alo, Marcilio. O modelo de software como serviço está avançando muito rápido, como convém à velocidade das mudanças provocadas pela internet e sua inclusão nos modelos de negócio. As vantagens do modelo são inúmeras, considero um avanço enorme. A Amazon.com tem modelo parecido de “galpão de software”, que comentei em uma outra postagem anterior, acho que foi Amazon.com e a inovação. Abraço,

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