Pessoas ou processos?

O artigo citado no final da postagem me chamou a atenção, principalmente por ter sido escrito por Robert L. Glass, autor do livro Facts and fallacies of software engineering, de que gosto muito e uso em minhas disciplinas de engenharia de software. Há um tema que já se arrasta há algum tempo e que parece ainda estar longe de uma conclusão, sobre se a questão principal na gerência de projetos (de software) são os processos utilizados como modelo de desenvolvimento, são as pessoas envolvidas e que tocam os processos adiante, ou ambos? E o Robert Glass foi achar em um livro do Watts Humphrey, que é o grande mentor do SEI-Software Engineering Institute, uma discussão exatamente sobre esse tema. O livro, Managing for innovation, foi publicado pela primeira vez em 1987, e ficou meio esquecido talvez porque o tema não chamava tanta atenção assim na comunidade de engenharia de software da época, que estava mais preocupada com outros problemas. O livro foi republicado em 1997, com o título Managing technical people, e também parece que não teve muito impacto na comunidade.

A idéia de ambos os livros é a de que pessoas fazem a diferença no desenvolvimento de software e sistemas, e o autor explora a questão do ponto de vista da importância da criatividade e inovação e sua relação no desenvolvimento de projetos. Criatividade é a nossa capacidade de pensar em coisas novas, e inovação é nossa capacidade de realizar coisas novas. Nas palavras do próprio Humphrey, “While innovation requires creativity, it also involves a great deal of hard work” (inovação pressupõe criatividade, mas inovação envolve muito trabalho duro).

Uma relação interessante, já discutida em outros livros de administração, é a de que quando os gerentes controlam muito fortemente as atividades das pessoas nos projetos, o poder criativo da equipe cai muito, ao passo que um estilo gerencial mais livre e mais baseado na responsabilidade e compromisso das pessoas envolvidas, habilitam o aumento da criatividade. Uma outra relação interessante foi estabelecida com o grau de experiência administrativa, habilidade em gerenciar pessoas e conhecimento tecnológico do administrador de projetos e seu grau de envolvimento nos projetos. Nos projetos mais inovadores, os gerentes se envolveram pessoalmente no desenvolvimento do projeto e mantiveram contato permanente com o pessoal de desenvolvimento.

Uma primeira conclusão é que o maior nível de inovação em projetos acontece quando (a) o gerente tem muito conhecimento técnico e se envolve pessoalmente no desenvolvimento e (b) quando se aumenta a liberdade do pessoal técnico. Também não resta dúvida de que a base da inovação nos projetos está mais relacionada com os usuários finais e seu conhecimento sobre o que está sendo desenvolvido, do que com o pessoal de computação que se dedica mais à tecnologia e desenvolvimento: 75% de toda a inovação é impulsionada por forças de mercado. Ou seja, as necessidades do usuário é que determinam se uma inovação vai ter sucesso ou não, e não a tecnologia aplicada no seu desenvolvimento. Portanto, temos ai um conclusão muito interessante: as pessoas são tão importantes quanto os processos e as tecnologias, e as técnicas de gerenciamento de projetos devem levar esse fato em consideração para terem sucesso.

Managing for innovation, autor Rober L. Glass, coluna Practical Programmer, CACM March 2008, páginas 17-18

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Consultor Independente, Treinamento Empresarial, Gerência de Projetos, Engenharia de Requisitos de Software, Inovação. Professor Titular Aposentado, Departamento de Informática, Universidade Federal de Viçosa, Minas Gerais, Brasil. Doutor em Informática, PUC-Rio, 1990. Pós-Doutoramento, University of Florida, 1998-1999

Publicado em Carreira, Engenharia de Software
4 comentários em “Pessoas ou processos?
  1. Leo de Carvalho disse:

    Achei interessante no artigo quando R. Glass fala sobre
    inovação e idade.
    – Quanto mais velho, mais técnico e, talvez, menos criativo.
    – O apogeu da inovação chega, geralmente, na juventude.

    Este é um ponto importante a ser considerado na formação de uma
    boa equipe…mesclar técnica, criatividade, liberdade e um bom relacionamento com
    os usuários finais pode trazer bons resultados… olhem só o exemplo da GOOGLE…

  2. (comentário postado pelo André Castro, andrecastr@gmail.com, deu problema na página e eu mesmo estou trazendo para cá)
    =========
    >>>>>>muito bom Zé, o interessante é o paradoxo com o atual mercado de fábricas de desenvolvimento de software. Essas estão insistindo em impor um modelo mecanicista e tecnisista baseado em teorias de Tailor, ou das antigas fábricas do período da revolução industrial. Pelo menos é o que eu vejo que está sendo praticado no mercado.

    O que vejo é a prática dessas fábricas adotarem um modelo de produção com processos rídigos, com número de horas exaustivo, com atividades continuas e a exigëncia de alta produção, em um trabalho que envolve pensamento, disposição, criatividade, relações interpessoais e outros fatores humanos que não são propriamente mecänicos como os antigos proletariados. Mais ou menos uma tentativa de impor uma produção de software baseado no modelo de fábricas do filme “Tempos Modernos”, lembre-se do filme de Chaplin.
    Minha opinião é que realmente estamos num período de atenção na organização para a profissionalização dos processos, das pessoas e da cultura em geral no ambiente de desenvolvimento de software. Algo que já foi escrito na teoria por grandes pesquisadores da área como Humprey e Glass e que agora só agora começamos a ver chegar com maior força no mercado, principalmente das médias e grandes empresas, ainda longe das pequenas.

    Acredito que ainda estamos longe de um modelo ideal. Porque esse modelo tem que começar na mudança na base, no fundamento, na educação acadêmica dde todos os profissionais envolvidos, mais ou menos como sempre discutimos sobre o modelo de educação sugerido na Universidade de Indiana (SE NAO ME ENGANO)
    Mas de toda forma o caldeirão esta fervendo e estamos caminhando para um novo modelo de desenvolvimento de software e para que possamos atingir a excelência como em outros domínios, temos que aprender muito e unir esforços de pesquisa e prática para alcançar os objetivos de qualidade dos produtos.

  3. Fernando Neto disse:

    O problema que vejo é que pensamos em desenvolvedores de software como um bando de genios com incrivel capacidade técnica e criativa para soluções de eng de software. E ficamos consternados com os modelos de gestão que reprimem estas mentes criativas. Concordo 101% que muitos modelos de gestão e seus gerentes coibem o trabalho de bons programadores e analistas.
    Acontece que o mercado está entupido de desenvolvedores ruins. E não quer dizer que gente ruim não mereça trabalhar na nossa indústria. Há espaço para software feito por programador ruim. Aliás, há mais espaço e mercado para esses caras do que para genios da Google e Microsoft.
    Nestes casos não há como confiar na liberdade criativa e usar um modelo mais fraco de gestão. O software não é um quadro que sempre você pensa num artista fazendo. Software é um produto comercial, e o mercado dita as regras. E as regras estão nos jogando para um mercado “Tailoriano”. Vendemos o que se compra. E quando um cliente pede um software barato para controle de contas a pagar, você não precisa de gênios fazendo isso. O teu cliente não paga por criatividade, ele paga por um “contas a pagar”.
    Acho que tem espaço para ambos os casos. Há projetos onde a equipe deve ser mais experiênte e ter sua criatividade incentivada e há projetos que podem ser vistos como fabricas de sapato.
    Se for assim, operador de telemarketing também deve ter criatividade incentivada. Separador de lixo reciclado tambem deve ter criatividade incetivada. Software não é mais nobre do que qualquer outro produto ou serviço.
    Até médicos se sujeitam a seguir padrões, horarios, gestão. Até consulta médica é fabriqueta. E é o que nós queremos pagar para 99% das doenças.

  4. Fácil é teorizar sobre criatividade e qualquer outro tema.
    Difícil e desafiador é meter a mão na massa: encarar um grupo com um projeto x, buscando tanto a participação do grupo como ainda a participação criativa.
    Surgem críticas, desânimo, os que nada querem fazer criticam a proposta, desengajam os que estavam interessados.
    Que fazer? Você tem um compromisso e tem que atravessar o grupo e recolher a criatividade de outros.
    Estes desafios que muito enfrentei e que ainda enfrento, sintetizei-nos em artigos e palestras que gradualmente acabaram-se tornando num vídeo-texto.
    A síntese deste vídeo-texto, cujos fundamentos até hoje uso, compartilho resumidamente com interessados, a seguir:
    “Criatividade em Equipe” – Técnicas para otimizar a criatividade em equipe, recolhidas em experiência diária no desenvolvimento, introdução e gestão de projetos inovadores e respectivas equipes, ênfase em marketing e vendas, commodities e finanças, Recursos Humanos e sistemas organizacionais de empresas. Vídeo-texto. Resumo em http://www.suma.com.br/loja/produtos_descricao.asp?lang=pt_BR&codigo_produto=35

    Clique se tiver interesse e bom proveito.

    Atenciosamente,

    paulo guilherme hostin sämy

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