E o usuário final, como é que fica no processo?

Venho acompanhando o desenrolar do problema com o rebatimento do banco traseiro do Fox, carro da Volkswagen de lançamento recente,  totalmente desenhado na filial brasileira e exportado daqui para o resto do mundo. As notícias de dedos decepados ou prensados no momento de voltar com o banco para a posição normal são várias, e até o momento, o problema foi resolvido apenas de maneira paliativa. O problema já é de conhecimento público, e estima-se que as vendas do Fox cairam de terceiro para quinto lugar entre o primeiro trimestre de 2007 e o primeiro trimestre de 2008, em parte devido ao impacto negativo do problema na confiança do consumidor.

Lendo uma reportagem na revista Exame de 7 de Maio de 2008, “O grande erro da Volks”, que recomendo aos leitores, é que um outro problema me saltou aos olhos: Desde o primeiro acidente registrado em 2004, a direção da Volkswagen sempre insistiu que o problema é das vítimas, que não haviam acionado o sistema corretamente. Posição esta confirmada pelo presidente da empresa em entrevista em cadeia nacional, em que ele afirma que basta seguir as instruções contidas no manual do proprietário para fazer a operação correta. Ainda segundo a reportagem, uma solução definitiva envolveria um grande esforço de reprojeto e retrabalho e seria inviável tanto do ponto de vista técnico quanto do ponto de vista econômico, pois afetaria a estrutura do carro.

Para a Volkswagen, reconhecer a falha significa reconhecer limitações no projeto do carro, já que o desenho do sistema de rebatimento do banco traseiro foi responsabilidade do setor de engenharia da Volks, e esse reconhecimento de falha seria um tranco na cultura da empresa. A área de engenharia ainda hoje não admite que o carro tem problemas. Para um engenheiro acostumado a desenhar e fabricar carros, o Fox realmente não tem problemas, o sistema funciona e o manual é claro a respeito da forma como operá-lo. O problema é que o consumidor não acha isso, e é ele quem compra e usa o carro.

Bom, mas e daí? que lições podemos tirar dessa questão? que relação ele tem com a Engenharia de Software? Não está parecendo que esse filme é exibido regularmente na nossa área? Requisitos, sempre os requisitos. Requisitos implementados errados, requisitos extraidos errados, requisitos especificados errados, requisitos não testados e não aferidos pelo controle de qualidade, requisitos não validados no mundo real… tudo remete ao usuário final, que segundo os métodos mais modernos e as tendências atuais, deve de alguma forma sempre fazer parte do processo desde o seu início. Desde que o ciclo de desenvolvimento em cascata caiu em desgraça (na minha opinião injustamente), e o desenvolvimento iterativo passou a ser a palavra de ordem no desenvolvimento de software, o usuário final passou a ocupar lugar de destaque. Hoje, tanto um processo RUP-like quanto um método ágil recomendam que o usuário faça parte permanente da equipe, com alta disponibilidade para o projeto.

A reportagem da revista Exame deve ser lida, representa uma lição muito interessante que não se encontra nos livros, daria até para transformar em um caso para usar em disciplinas de engenharia de software e engenharia de produção. A reportagem serve também para deixar claro que nas áreas tradicionais de engenharia, onde os processos são formalizados e seguidos à risca, falhas ocorrem e fogem ao controle dos gerentes de projeto, e o usuário final às vezes fica de fora do processo.

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Consultor Independente, Treinamento Empresarial, Gerência de Projetos, Engenharia de Requisitos de Software, Inovação. Professor Titular Aposentado, Departamento de Informática, Universidade Federal de Viçosa, Minas Gerais, Brasil. Doutor em Informática, PUC-Rio, 1990. Pós-Doutoramento, University of Florida, 1998-1999

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Publicado em Carreira, Engenharia de Software
3 comentários em “E o usuário final, como é que fica no processo?
  1. Caro Professor,

    Nesta mesma idéia de comparação da engenharia comum com engenharia de software, me veio a insite de o “teste de software” ser o proporcionador da qualidade no software.

    Participei recentemente da apresentação do grupo HDI (http://www.grupohdi.com) sobre o processo deles de testes de software, que se baseia no teste a exaustão com o “Gerador Automático de Casos de Testes”.

    Seria esta vertente (novos métodos e ferramentas de teste) o caminho para a qualidade do software??

    t+
    Luciano

  2. Olá, Luciano. A qualidade tem que ser garantida em todos os passos do processo de construção do software, seja lá como ele for, iterativo, sequencial ou ágil, ou alguma mistura deles. O teste é apenas mais uma ferramenta, que ganha força por causa da grande disponibilidade de ferramentas que facilitam muito a aplicação dos testes. Mas pode ter certeza de que a qualidade tem que ser garantida ao longo de todo o ciclo de vida, não há como descobrir via teste as funcionalidades que foram esquecidas ou foram especificadas erradamente. Não existe mágica nessa estória… zeluis

  3. André Castro disse:

    Fala Luciano,

    O problema que vejo com relacao a testes é a falta do seu planejamento no início da montagem do cronograma de marcos, quando se vai fechar uma proposta ou escopo inicial.

    Geralmente, as empresas pecam em retirar os ciclos de testes em das as etapas de construcao do sistemas (isso acontece também com revisão de artefatos gerados no ciclo).

    Para minimizar o preco da proposta final e ganhar a concorrência, as horas de testes são subestimadas, tanto testes de unidade do desenvolvedor quanto testes de aceite de analista. Dai, quando se coloca o interesse pra fechar um outro projeto, não interessa ferramenta HDI ou qualquer outro processo automizadado. O problema extrapola o teste.

    E isso é o que mais tem acontecido no mercado.

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