Mercado para super-especializados

O mercado de trabalho estadunidense está revelando uma tendência interessante nos últimos anos. Os super-especializados, profissionais com mestrado, doutorado ou pós-doutorado, estão com a bola toda e muito requisitados. Segundo dados da NSF (National Science Foundation), o número de pessoas trabalhando em setores de ciência e engenharia aumentou 4,2% em 2006, e o nível de desemprego é baixissimo, na casa de 2,5% também em 2006, o menor nível de desemprego do setor desde a década de 90. A tabela abaixo, extraída dos dados da pesquisa, mostra parte dos dados, comparando os anos de 2003 e 2006.

2003 and 2006.

Antes de mais nada, é preciso reparar bem no tamanho dos números, que refletem o tamanho do mercado do lado de lá, resultado de uma política de desenvolvimento científico, tecnológico e industrial muito forte que ganhou seus principais contornos ao final da Segunda Guerra Mundial. Reconheceu-se na época que o esforço de guerra seria muito mais científico e tecnológico do que de músculos e força, completamente diferente do ocorrido na Primeira Grande Guerra. A Guerra Fria que se seguiu, e a corrida armamentista entre EUA e URSS, tiveram o efeito de forçar a organização do desenvolvimento da ciência e da tecnologia, com muita verba para financiamentos e formação de mão de obra. O que se observa na tabela mostrada, é certamente fruto desse desenvolvimento ao longo dos últimos 50 anos pelo menos. A própria NSF foi criada por volta  de 1950, como resultado desse esforço de desenvolvimento.

Os dados são coletados pela NSF em universidades, levando em conta os graduados e os que recebem o título de doutor, seguindo sua trilha pelo mercado de trabalho. Esse esforço de coleta e registro de dados recebe o nome de Scientists and Engineers Statistical Data System, atualizado continuamente. Mais alguns dados da pesquisa: em 2006, havia 1,9 milhão de graduados em áreas de ciência, engenharia e saúde que se formaram entre 2003 e 2005, que entraram diretamente no mercado de trabalho ou continuaram seus estudos para obter graus mais altos de especialização (mestrado ou doutorado). Um outro resultado interessante é que 45% dos que tiraram o grau de doutor em alguma universidade estadunidense, continuaram sua especialização com pelo menos um estágio de pós-doutoramento.

Por aqui, o esforço para melhorar a formação com mestrados e doutorados é também muito grande, dentro das possibilidades da nossa economia e dos enormes desafios e problemas que o país tem que enfrentar, resultado de falta de políticas governamentais que direcionassem esse esforço de maneira contínua. Mas o número de cursos de mestrado e doutorado ainda é muito pequeno, e a formação dessa mão de obra especializada ainda é incipiente, o que condena o pais ao eterno atraso científico e tecnológico, ficando sempre a reboque das tecnologias importadas. As dificuldades são muitas, e vão desde a dificuldade enorme para a criação de um curso de mestrado, até as dificuldades muito maiores para levar esse curso adiante, subir de nível e chegar a ter um doutorado. Nada que se consiga com menos de 10 anos de muito esforço e trabalho continuo de todo o corpo de orientadores e pesquisadores de cada programa. Posso falar disso horas a fio, pois sou coordenador do nosso Mestrado em Ciência da Computação do DPI-UFV já há uns sete anos, e boa parte dos meus cabelos brancos (e a falta de cabelos também) são consequência direta dessa atividade.

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Consultor Independente, Treinamento Empresarial, Gerência de Projetos, Engenharia de Requisitos de Software, Inovação. Professor Titular Aposentado, Departamento de Informática, Universidade Federal de Viçosa, Minas Gerais, Brasil. Doutor em Informática, PUC-Rio, 1990. Pós-Doutoramento, University of Florida, 1998-1999

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Publicado em Carreira, Educação, Sustentabilidade
Um comentário em “Mercado para super-especializados
  1. smarzaro disse:

    que isso zé….você tem cabelo suficiente aí para o doutorado da UFV ainda… 😉 Abraços,

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