Formação complementar em administração: uma exigência do mercado

A dinâmica do mercado de trabalho para profissionais de tecnologia, particularmente TI, tem provocado mudanças nas exigências de formação dos novos profissionais. Essas mudanças no perfil não acontecem de uma hora para outra, elas vêm lentamente e temos que ficar de olho para perceber as variações de mercado e ir adaptando os curriculos às novas exigências. Por exemplo, topei com a reportagem Computer science departments must reinvent themselves to avoid a business school takeover, na revista ComputerWeekly. Em bom e claro português: abram os olhos porque os curriculos dos cursos de ciência da computação não estão fornecendo a formação esperada pelo mercado na área de administração e negócios, e estamos perdendo terreno para as escolas de administração e negócios de modo geral. Essa reportagem deveria ser levada a sério, certamente ela é um indicador de mudança lá fora, e ela vai acontecer aqui também, mais cedo do que se espera.

Historicamente, a área de TI das organizações sempre ocupou posição hierárquica nos níveis mais baixos, atuando como prestador de serviços de suporte para os departamentos ou setores que estivessem informatizados. Isso, claro, antes do advento da administração baseada em processos, no final da década de 80. O setor de TI era o culpado por tudo  o que acontecesse de errado na empresa, sujeito a todo tipo de pressão, horários de trabalho malucos ou até mesmo sem horário, um desgaste tremendo. Até surgiu, na época, uma corrente de idéias baseadas no revolucionário artigo do economista Robert Solow, o Paradoxo da Produtividade. Nesse artigo, ele argumentava que os gastos com TI eram crescentes e enormes, e que não era possível enxergar o correpondente ganho em produtividade e melhorias nas organizações que investiam na área. A área de TI foi colocada na berlinda mais uma vez, até que a curva de aprendizagem entrou em cena, e a questão foi entendida de maneira sistêmica, pois leva mesmo muito tempo para uma mudança cultural nas empresas.

Bom, as coisas mudaram muito. Hoje, com as organizações focadas em processos, melhoria de processos, competição em mercados globais (modelo das cinco forças de Michael Porter), tomada de decisão em janelas de tempo estreitas, necessidade de acesso a toda e qualquer informação interna das organizações, e necessidade de enxergar o mundo exterior e as variáveis econômicas que fazem parte dele, a realidade é bem outra. Organizações de qualquer porte, mas principalmente as de médio e grande portes, não podem  mais prescindir dos Sistemas de Gestão Integrados, que integram todos os setores das empresas em sistemas de informações eficientes para apoio a processos decisórios eficazes, permitindo a gestão centralizada e o acesso a informação de qualidade, e na janela de tempo em que ela ainda é útil para apoiar decisões. Essa mudança teve impacto muito grande na importância do setor de TI nas empresas, que saiu da posição de departamento localizado nos porões das empresas, para ocuparem posição mais alta na hierarquia administrativa, passando a ter assento nos conselhos das empresas, e participando das principais decisões de médio e longo prazos. O CIO-Chief Information Officer surgiu no cenário, e com o seu perfil veio a demanda por conhecimentos em administração por parte do pessoal de sistemas. Os Sistemas de Informação e a TI passam a ser parte integrante estratégica  e indispensável do próprio negócio.

E é ai onde está hoje o maior desafio para os curriculos dos cursos de computação, de qualquer natureza. É indispensável, para quem vai para o mercado de trabalho, uma bagagem mínima de conhecimentos em Administração fornecida na graduação. Como é que os curriculos tentam resolver o problema? Incluindo na grade curricular disciplinas optativas da área de administração, sendo as mais comuns: Teoria Geral da Administração; Organização, Sistemas e Métodos; Marketing e até algumas da área de Economia, como Microeconomia. E ai, como são optativas, fica por conta do interesse do aluno e do seu orientador ou coordenador de curso incluir essas disciplinas no plano de curso do aluno. E ai vai um palpite, baseado na minha própria experiência que não é pouca: raros são os alunos que conseguem enxergar a necessidade dessas disciplinas, a grande maioria prefere pegar optativas dentro da própria Computação, desprezando essa oportunidade de formação complementar que ajuda a abrir horizontes.

A SBC-Sociedade Brasileira de Computação mantém sempre atualizado (?) um curriculo de referência para os cursos de Ciência de Computação e Sistemas de Informação. Da leitura desse documento fica bem claro o perfil desejado dos egressos de cada tipo de curso. A crença generalizada (eu não compartilho dessa opinião) é a de o curriculo sugerido para Ciência da Computação é mais pesado em matemáticas e físicas, para dar ao aluno mais fundamentos para encarar um mestrado e um doutorado posteriormente, e o curriculo sugerido para Sistemas de Informação forma melhor o aluno cujo destino é o mercado de trabalho, com a sua carga maior em disciplinas de Administração e Economia. Também a ACM-Association for Computing Machinery mantém um grupo permanente de evolução de currículos, o último documento disponivel, uma revisão de 2005, pode ser baixado aqui, sendo uma referência mundial.

Vai uma opinião, naturalmente baseada na minha experiência, sobre a questão das exigências de mercado e o que as universidades conseguem oferecer. As universidades, principalmente as públicas no Brasil, sofrem com todo tipo de descaso e falta de recursos que todos já conhecem. Não temos agilidade administrativa e nem poder de decisão para implantar uma mudança curricular, incluir disciplinas de conteúdo variável ou contratar pessoal suficiente para acompanhar as necessidades de mercado, e nem sei se deveriamos ter tanta agilidade assim. Temos conseguido, com muito esforço, formar alunos com uma sólida base em fundamentos, capazes de enfrentar os desafios com pouco tempo de adaptação e treinamento em tecnologias específicas. Não vejo, infelizmente, as empresas fazerem a parte delas. Na minha opinião, as empresas deveriam participar do esforço de formação, fornecendo o conhecimento e o treinamento complementares necessários, ao invés de pressionar exageradamente as universidades, que trabalham no limite de sua capacidade de formação. Será que a responsabilidade é somente das universidades?

(visitem o blog sobre Carreira da Computerworld/UOL, 26/07/2008. Obrigado pela dica, Léo)

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Consultor Independente, Treinamento Empresarial, Gerência de Projetos, Engenharia de Requisitos de Software, Inovação. Professor Titular Aposentado, Departamento de Informática, Universidade Federal de Viçosa, Minas Gerais, Brasil. Doutor em Informática, PUC-Rio, 1990. Pós-Doutoramento, University of Florida, 1998-1999

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Publicado em Carreira, Educação
2 comentários em “Formação complementar em administração: uma exigência do mercado
  1. Leo disse:

    Oi Zé, muito bom . Gostaria de indicar o endereço do ComputerWorld-Carreira. Excepcionalmente o site traz esta semana o resultado de uma pesquisa interessante : http://computerworld.uol.com.br/carreira/ . abraço, Léo

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