O planeta Terra vai aguentar o tranco?

Está mais que divulgado e sabido que nosso planeta Terra encontra-se exaurido, explorado além da sua capacidade de recuperação. Florestas, água, aquecimento global, lixo não-degradável, doenças novas e antigas reincidentes, pobreza, enormes diferenças entre os padrões de vida nos paises mais ricos e nos mais pobres, guerras e invasões motivadas pela posse de recursos escassos (petróleo), e vamos por ai afora. Não faltam reportagens nas principais revistas do mundo sobre o assunto, que não é novo, é antigo. O grande problema é que nós, seres humanos, não nos preocupamos com problemas enquanto eles não acontecerem do nosso lado e nos incomodarem.  Ou será que estou errado? Em uma postagem recente aqui no blog, Um sistema sobre o nosso mundo, ficam claras as principais variáveis desse jogo em que todo mundo perde.

Mais recentemente, o aumento muito grande no preço dos alimentos voltou a chamar atenção para o problema e mostrou que ele já está aqui do lado, afetando a panela de todo mundo. As variáveis são muitas, de dificil controle, e elas interagem entre si muitas vezes de maneiras inusitadas e não percebidas. Por exemplo, que o aumento no preço do petróleo causa aumento no preço dos gêneros de modo geral é fato sabido da economia, pois a maior parte dos insumos da agropecuária no mundo é derivada do petróleo, sem contar o diesel e a gasolina utilizadas no transporte. Se considerarmos o consumo de petróleo para movimentar a enorme e crescente frota de carros de passeio no mundo todo, o quadro é alarmante, afetando diretamente o preço dos alimentos, pois a demanda de petróleo fica maior que a oferta, e ele vai ficar mais caro e mais escasso. E o impacto não é somente nas reservas de petróleo, temos também a poluição que aumenta muito, piora a qualidade do ar nas grandes cidades, aparecem doenças respiratórias que antes não eram frequentes, etc. Mesmo que fosse possível aumentar muito a extração de petróleo, esse aumento dificilmente acompanharia a demanda, e o planeta não tem mais reservas de exploração barata, o petróleo vai continuar subindo muito de preço. Já há economistas trabalhando com uma projeção de 200 dólares o barril no curtissimo prazo, uma catástrofe na economia mundial.

E ai aparece a solução milagrosa: etanol, que também não vai resolver o problema. Infelizmente, a parte motorizada da humanidade, a indústria e os governos, somente conseguem enxergar o problema do ponto de vista de arrumar uma alternativa ao petróleo para se possa continuar andando de carro sem maiores preocupações.   Mas, do ponto de vista sistêmico e da sustentabilidade do planeta e da nossa vida aqui, esse é o foco errado. O foco tem que mudar, passando para o transporte coletivo concentrando o foco nas variáveis local de moradia, local de trabalho, escola das crianças, etc. e suas relações, coisa que os governos (em todos os níveis) não conseguiram prover adequadamente. Ou melhor, somente alguns poucos paises ou cidades privilegiados alocaram recursos e esforços em soluções sob esse ponto de vista, e Belo Horizonte-MG é um exemplo admirável, modelo copiado em outras partes do planeta.

Os números são de alarmar qualquer um. Por exemplo (extraido da reportagem da revista Veja de 28/05/2008), se cada indiano e cada chinês aumentarem em 25% seu consumo de carne de frango, o que não é muito considerando que a dieta atual deles é muito pobre em proteina animal, e se cada chinês também aumentar em 25% seu consumo de carne de porco, somente para alimentar os novos rebanhos de porco e frangos para suprir essa nova demanda  seriam necessárias 27,9 milhões de tonelada de milho e mais 10,5 toneladas de soja, demandando uma área equivalente ao estado do Ceará para produção. Isso sem contar que o consumo de insumos derivados de petróleo e água iria aumentar na mesma proporção. E a água seria usada não apenas nas lavouras, mas também no abate dos animais, na limpeza de abatedouros, etc. Há pouco tempo, participando de uma banca de tese de doutorado aqui na UFV, tomei conhecimento do volume de água necessário para abater um boi para consumo (em média): 2500 litros. Para abater, lavar as peças, a carcaça, limpar o couro, limpar o abatedouro, etc. É mole? deu até vontade de não comer mais carne de boi… E não pára por ai, para produzir um quilo de queijo, gasta-se entre 6 e 20 litros de água, dependendo de como a produção é organizada.  E para produzir uma garrafa de cerveja? E olhem que os animais domésticos ainda não entraram nas estatísticas, quando isso acontecer é que o impacto deles vai ser percebido mais claramente. Somente no Brasil a proporção é 1 animal doméstico para cada 5 habitantes, uma relação muito acima da recomendada como limite saudável pela OMS-Organização Mundial de Saúde.

Hoje somos por volta de 6 bilhões de habitantes no planeta, em 2050 que está logo ali, seremos (ou melhor serão) 9,2 bilhões de bocas, a se manter o atual ritmo de crescimento da população. Imaginem todo esse sistema com esse monte de variáveis, interagindo fortemente umas com as outras, impactos negativos (raramente vamos ter impactos positivos) se propagando rapidamente pelo mundo globalizado. Poeira da África chegando até aqui, cobras gigantes de Burma infestando o estado da Florida (noticia aqui), um monte de gente querendo fugir para onde possa haver alguma possibilidade  de sobrevivência. E a solução, onde está? Se houver alguma solução, ela está no próprio ser humano, ou talvez em alguma mutação nossa, que certamente vai surgir daqui a uns milhares de anos.

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Consultor Independente, Treinamento Empresarial, Gerência de Projetos, Engenharia de Requisitos de Software, Inovação. Professor Titular Aposentado, Departamento de Informática, Universidade Federal de Viçosa, Minas Gerais, Brasil. Doutor em Informática, PUC-Rio, 1990. Pós-Doutoramento, University of Florida, 1998-1999

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Publicado em Social, Sustentabilidade
7 comentários em “O planeta Terra vai aguentar o tranco?
  1. Pelo jeito que anda as coisa (ver notícia abaixo), certamente o planeta Terra tentará resolver a questão como já cantava em 1974 o Filósofo, Ator e Cantor Raul Seixas :

    Buliram muito com o planeta
    E o planeta como um cachorro eu vejo
    Se ele já não aguenta mais as pulgas
    Se livra delas num sacolejo

    “G8 aceita reduzir emissão de gases pela metade até 2050” em http://g1.globo.com/Noticias/Mundo/0,,MUL639135-5602,00.html

  2. Léo Silvestre disse:

    Zé,

    Poderia falar um pouco mais sobre “… e Belo Horizonte-MG é um exemplo admirável, modelo copiado em outras partes do planeta.”?

    Abraços,

    Léo

  3. Fala, Léo. BH tem um modelo de alocação de vagas em escolas públicas de primeiro e segundo graus, que foi importado pela UNESCO para outros países. Os alunos se inscrevem pelos correios, a alocação é feita com auxílio de um sistema de informações geográfico da PRODABEL, e o aluno é encaminhado para a escola mais próxima de sua casa, já com um estudo das rotas de ônibus, etc. Esse é um dos segredos para as cidades do futuro próximo, de combustível carissimo e ruas entupidas: minimizar os deslocamentos. Abraco,

  4. Léo Silvestre disse:

    Olá Zé!

    Agora entendi 🙂 Muito bom!

    Abraços!

  5. n tenho nomee disse:

    explique um pouco mais vai ser melhoooor

  6. n tenho nomee disse:

    o desculpa ai só foi zueira ta bem explicado gostei muito e entendi bjs e desculpa ai o infotunio

  7. Nathan disse:

    Eu acredito que a Terra nada mais é de que uma grande árvore, e nos humanos somos os lenhadores, cada um que corta um pedaço “ah não muda nada” mas vai mudar do jeito que está só falta muito pouco para que essa árvore caia deixando todos nos sem nada, por nossa propria culpa

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