Risco, incerteza e seus impactos

Alguns livros conseguem fazer a gente ultrapassar barreiras na forma de enxergar o mundo, seus desafios e riscos. Terminei de ler o best-seller da lista do New York Times, The Black Swan: the impact of the highly improbable, autor Nassim Nicholas Taleb (avaliação do NYT aqui), que é um desses livros. Em suas quase 400 páginas, o autor consegue passar de forma simples e fácil de entender uma questão complicada e  que foge ao cotidiano das pessoas: como os eventos altamente improváveis, aqueles com que nem perdemos tempo para prestar atenção, têm impacto nas nossas vidas?

Somos parte de uma sociedade que somente consegue se sentir confortável quando lida com eventos previsíveis. Segundo o autor, é a cultura da curva de Gauss ou da distribuição Normal (Estatística), lembram-se dela? Aquela distribuição de probabilidades que é representada por uma curva em forma de sino, que tem uma região de maior probabilidade de ocorrência de eventos perto da média, e que na medida em que se afasta do ponto médio, a probabilidade de ocorrência dos eventos cai muito rapidamente.  Como por exemplo quando se toma a altura da média da população masculina brasileira, que deve rodar em torno de uns 1,70m. Quando se afasta desse valor, as probabilidades caem muito, por exemplo, a probabilidade de aparecer um brasileiro com uma altura de 2,20m é baixissima, idem para um brasileiro com 1,20m de altura! A probabilidade de isso acontecer é tão baixa, que nem nos preocupamos com ela, nenhum fabricante de calça jeans ou de camisas vai produzir numeração para essa exceção (como também fabricantes de carros, de ônibus, aviões, camas, sapatos, bonés, etc.). Quando lidamos com algum problema em que as variáveis seguem distribuição normal (ou conseguimos forçar a barra para que isso ocorra), ficamos completamente confortáveis e à vontade.

Mas, o livro leva a conversa para outro rumo: e os eventos que não seguem distribuição normal? Aqueles eventos altamente improváveis, que podem representar um enorme risco e que têm associado uma grande incerteza, porque não conseguimos prever sua ocorrência? Como por exemplo o ocorrido em 11 de setembro de 2001, no ataque às torres gêmeas em NY, um evento que deixou o mundo todo paralisado e sem ação. Fugiu da normalidade e dos melhores modelos de predição existentes, e representava apenas um risco distante, com um grau de incerteza associado também tão grande que ninguém prestava atenção nele. Havia indícios de que poderia ocorrer, mas até por questões de segurança, nada foi divulgado pois dentre outras coisas, ia ficar parecendo coisa de professor de universidade, pesquisador maluco que fica brincando com as suas fórmulas e que teria chegado a alguma conclusão absurda. O custo do aparato necessário para evitar o acontecimento seria astronômico e, se ele tivesse funcionado, o evento não teria ocorrido… e tudo teria parecido um enorme desperdício de recursos com medidas preventivas e mais uma insanidade de órgãos de segurança estadunidenses. Por favor, entendam o argumento: estamos falando da nossa incapacidade de prever os eventos improváveis, não estou emitindo julgamento de valor sobre a enorme perda de vidas humanas no 11 de Setembro, o que por si só justificaria qualquer investimento para que fosse evitado.

Esse é o argumento central do livro, e ele descreve um monte de situações similares que ocorreram ou que ainda podem ocorrer. O ponto principal é a nossa incapacidade de fazer avaliações de riscos e nos preparar para eles, no que é denominado de contingenciamento de riscos. Por exemplo, nessa primeira semana de julho de 2008, ocorreu em São Paulo a queda nos serviços de internet e telefonia, prestados pela Telefônica. Caos total, um enorme prejuizo econômico para bancos, empresa, polícia e usuários domésticos, mais de um dia para que as coisas voltassem ao normal, e o porta-voz da Telefônica não conseguia esclarecer nada, pois nos primeiros momentos eles nem sabiam qual era o problema e nem onde tinha ocorrido. Possivelmente, um gerenciamento de riscos bem feito teria permitido enxergar que esse seria um problema que poderia ocorrer em algum momento, e as medidas de contingenciamento teriam sido tomadas mesmo a um custo alto (espelhamento de servidores, criação de rotas alternativas, duplicação de dados em outros roteadores, etc.), pois por mais alto que ele fosse, teria sido menor que o prejuizo causado (que não foi calculado, e duvido que seja…).

E os demais eventos improváveis a que estamos sujeitos? Descongelamento das geleiras do Pólo Norte, altos preços do petróleo no mercado mundial, escassez de alimentos, custo alto de alimentos, guerra pela água e pelos alimentos escassos… tudo isso é altamente improvável, mas o risco existe… Se tiverem tempo e disposição, é uma excelente leitura que com certeza em breve estará traduzido para o português. Melhor ainda, baratinho.

(o livro já foi traduzido: A LOGICA DO CISNE NEGRO: O IMPACTO DO ALTAMENTE IMPROVAVEL, Autor: TALEB, NASSIM NICHOLAS, Editora: BEST SELLER)

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Consultor Independente, Treinamento Empresarial, Gerência de Projetos, Engenharia de Requisitos de Software, Inovação. Professor Titular Aposentado, Departamento de Informática, Universidade Federal de Viçosa, Minas Gerais, Brasil. Doutor em Informática, PUC-Rio, 1990. Pós-Doutoramento, University of Florida, 1998-1999

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Publicado em Economia, Livros, Reflexões
Um comentário em “Risco, incerteza e seus impactos
  1. Henrique disse:

    Breve nao. Ja se encontra ele traduzido por ate 30 reais… em ingles esta mais caro aqui.

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