Rotina: a ida e a volta

Nem me lembro mais quando, certamente foi quando eu era adolescente, vi um trecho de um filme sobre aptidão física, e a mensagem final ficou gravada: sempre que possível, associar esforço físico com as atividades diárias. Se a distância a percorrer é razoável, então vou a pé; se são poucos andares a subir ou descer vou de escada, etc. Com o passar do tempo, isso se transformou em rotina que já entrou na lista das coisas que faço até sem perceber. Não andar de carro regularmente, por exemplo, o que para a maioria das pessoas é inconcebível, para mim é normal, o carro fica na garagem e eu enfrento meu curto trajeto de 1,6km de casa até minha sala na UFV, todos os dias, duas idas e duas voltas, debaixo de sol ou debaixo de chuva, sem o menor problema. Essa quilometragem ai é “sem desvios”, vocês vão perceber até o final do texto que na verdade, hoje ela se transformou em 2 km (ou mais).

Tráfego em Mumbai - India

Tráfego em Mumbai - India

Bom, essa rotina que sempre foi prazerosa e que pratico em qualquer lugar onde estiver, está se transformando em um dissabor aqui em Viçosa. A degradação das ruas, calçadas e até das largas avenidas do campus da UFV é visível. A rotina é mais ou menos assim: andar sempre olhando para o chão para evitar torcer o pé nos infindáveis buracos ou desníveis de piso das calçadas e das ruas; continuar olhando para o chão para evitar pisar nas bostas de cachorro que povoam as ruas em grande quantidade; de vez em quando tirar o olho do chão e olhar adiante, pois sempre tem alguém andando de bicicleta na calçada que já é estreita e só comporta no máximo três pessoas uma ao lado da outra; prestar atenção no cidadão que vem empurrando a bicicleta pela calçada, ocupando o espaço de pelo menos dois pedestres; ficar de olho nos carros entrando nas garagens dos prédios, a gente toma susto toda hora pois alguns motoristas sobem na calçada agressivamente e o pedestre que se dane; prestar atenção no início da PHRolfs ao passar pelo Posto do Beto para não ser atropelado por motos e carros que entram e saem direto, transformando o espaço do posto de gasolina em rua; prestar atenção para desviar dos grupos que páram no meio da calçada ou da avenida da UFV para conversar, travando o fluxo sempre grande de pedestres; prestar atenção nos bêbados sentados ou deitados nas calçadas em alguns locais onde estão seus butecos preferidos; desviar das mesas de butecos e restaurantes que ocupam espaços públicos (calçadas) como extensão de seus negócios, uma prática comum em qualquer canto do nosso país; desviar das inúmeras bicicletas deixadas pelos donos presas em postes, lixeiras e qualquer outra coisa que se preste a amarrar uma corrente com cadeado; prestar muita atenção se for atravessar a avenida principal da UFV, onde os carros e motos trafegam sempre em alta velocidade, embora a máxima sugerida seja 40km/h; muito cuidado para não ser atropelado ao sair ou entrar nos pavilhões de aula da UFV (PVA e PVB) pois os carros, motos e bicicletas trafegam nas avenidas na velocidade que acharem melhor, e alguns cada vez mais frequentes com o som no máximo, contribuindo com o sossego para as nossas aulas. Como se tudo isso não bastasse, ainda tem que desviar das aglomerações de estudantes que ficam na entrada do campus, final da PHRolfs, anunciando festas e vendendo ingressos para arrecadar fundos para as formaturas, aí o pedestre tem que sair da calçada e andar na rua disputando espaço com os carros e motos e correndo muitos riscos. Ia me esquecendo dos fumantes, sempre tem um com um cigarro na mão empesteando o ar e eu também tenho que desviar deles, para não me transformar em fumante involuntário.

As alternativas para quem anda a pé não existem. Ou o pedestre tem que contornar as represas do campus e subir a antiga ladeira dos Operários, ou então passar pela rua dos Estudantes (beira-linha), indo sair lá na frente da av. PHRolfs. Essa tem sido a alternativa para quem não quer se aborrecer demais. O que mais assusta nessa estória toda, é que pedestres são a esmagadora maioria aqui em Viçosa, calculo numa estimativa conservadora que de 10.000 pessoas que circulam pelo campus da UFV diariamente, no máximo 10% (1000 pessoas) circulam de carro ou moto, os 9.000 restantes encaram a pé ou de ônibus mesmo. Claro, invariavelmente cada carro levando uma única pessoa. Paradoxalmente, todas as soluções (caras) são pensadas para resolver o problema dos carros e dos motoristas (a via alternativa no campus, os novos estacionamentos…), e o pedestre vai ficando cada vez mais jogado para escanteio. É justo?

Será que estou pensando errado, que não estou conseguindo acompanhar a evolução do mundo morando aqui em Viçosa? Nas conversas com outros pedestres convictos ou forçados, a rotina é essa ai mesmo, todos aborrecidos com tudo isso. E novos cursos estão sendo criados na UFV e nas faculdades particulares, o que significa muito mais gente para engrossar a quantidade de pedestres, de carros, de motos… acho que o problema está apenas começando. Soluções? Várias podem ser tentadas, mas o primeiro passo certamente é nossos administradores tirarem o foco do carro de passeio, e passarem a enxergar corretamente o pedestre e as soluções coletivas… Mas eu acho que o que vai acontecer mesmo, em breve, é que os pedestres vão finalmente invadir as ruas, e a solução virá por emergência de um novo padrão de comportamento social. Já está acontecendo aos poucos…

Atualização 6/09/2008 – Li uma notícia animadora sobre o assunto: em São Paulo,  pela primeira vez em 40 anos, o uso de transporte coletivo superou o individual, vejam a noticia aqui. Espero que os administradores das demais cidades do país sigam o exemplo. 

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Consultor Independente, Treinamento Empresarial, Gerência de Projetos, Engenharia de Requisitos de Software, Inovação. Professor Titular Aposentado, Departamento de Informática, Universidade Federal de Viçosa, Minas Gerais, Brasil. Doutor em Informática, PUC-Rio, 1990. Pós-Doutoramento, University of Florida, 1998-1999

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Publicado em Reflexões, Social
8 comentários em “Rotina: a ida e a volta
  1. Joao Gazolla disse:

    Crítico ! Simplesmente Crítico!
    Apesar de querer andar de bicicleta aqui no Rio para ir a universidade que fica a 4,5 km de onde moro, é totalmente inviável, visto que aqui o transito é selvagem e não existem ciclovias.
    Cada vez mais as minorias são privilegiadas. 😦

  2. Pedro H G Fernandes disse:

    Pois é Zé Luis, sua previsão nas últimas linhas se torna relidade ainda mais rápido do que se pode imaginar. Eu moro na rua (leia viela) São José no centro de Viçosa, onde a calçada não tem mais que um metro. As pessoas disputam espaço com carros e motos onde não passam dois carros simultaneamente.

    Por aqui a rua não é asfaltada, mas formada por hexágonos que, há muito, estão soltos permitindo a formação de verdadeiros rios escondidos que sempre espirram no pedestre desavisado.

    Será que não é dever das pessoas que residem, mesmo que circunstancialmente, em Viçosa, cobrar dos responsáveis as soluções para esses e outros problemas?

  3. Olá Zé ! Tudo bom ?
    Sou um leitor rotineiro de seu blog, silencioso, pois quase sempre concordo (e aprendo) sobre suas postagens, mas sempre me abstenho dos comentários. Hoje, entretanto, lendo este post resolví comentar. Vou comentar dois aspectos citados no post, que acho de extrema relevância, e estão intimamente relacionados. O primeiro é sobre a atividade física no dia-a-dia. Sempre defendí esta idéia. Ir para o trabalho à pé, ou de bicicleta é minha rotina agora, que troquei BH por JF. Academia três vezes na semana é um modismo que acaba no primeiro mês. Andar a pé é um vicio que dura toda uma vida. Elevadores falham… Carro polui e consome dinheiro… muito dinheiro. Sempre que posso, faço exercícios sem perceber… O outro comentário é sobre o transporte, e sobre a quantidade de carros por habitante. Aqui em Juiz de Fora, foi publicado pelo jornal Tribuna de Minas que na cidade existe uma média de 1 carro para cada 3.2 habitantes. Até 2012 serão 2 carros por habitante. Belo Horizonte terá o transito de São Paulo (com a infraestrutura de Belo Horizonte) em poucos anos. A facilidade de crédito e o aumento do poder de compra permitem ao cidadão comprar um carro zero instantaneamente. Imagine uma explosão capitalista na china. Imagine 1 carro para cada 100 chineses (é pouco ? é muito ?). Na Europa, iniciativas criam bicicletas públicas. No Brasil, se você sair de bicicleta nos grandes centros, volta numa ambulância. No modelo ER do transito brasileiro, a relação entre as entidades cidadão e carro é 1:1. Falta cidade para tanto carro. Eu faço a minha parte, ando a pé…. e de bicicleta, quando me sinto corajoso…..

  4. Ops….. errei…… em Juiz de Fora, até 2012, será 1 carro para cada 2 habitantes…. este treco num tem “edit” ? até mais !

  5. Obrigado a todos pelos comentários. Essa é uma situação que me incomoda muito, a cultura do carro na nossa sociedade é muito forte. Em parte é status, e em grande parte uma forma de o cidadão se virar sozinho contra a falta de estrutura e a falta de visão das administrações públicas em todos os níveis. Infelizmente, a solução final virá por emergência, teoria do caos: os pedestres vão ser obrigados a invadir a rua, como acontece na India e nas cidades mais populosas do mundo.

  6. smarzaro disse:

    fala Zé..realmente está um inferno para andar em Viçosa…assustei quando estive aí em julho passado…e o pior é que a situação está terrível para todo…pedestres, ciclistas e motoristas…

  7. nilsonfelipe disse:

    Talvez uma solução pelo menos para o entorno da UFV seria transformar a Rua dos Estudantes em um calçadão. Mal dá pra passar carro ali mesmo, então que deixe o espaço para as pessoas andarem a pé.

    • Há várias possibilidades muito boas. Mas infelizmente nossos administradores incompetentes só conseguem privilegiar o carro
      Individual, o pedestre está sempre com a prioridade mais baixa quanto possivel. Obrigado pela visita

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