Dabbawalas

No mundo tecnológico em que vivemos, nem nos passa pela cabeça gerenciar uma cadeia de suprimentos ou cadeia produtiva sem algum auxílio de computadores, sistemas de informação sofisticados, bancos de dados remotos, segurança, privacidade, gerentes de sistema, gerentes de negócio, etc. Nem mesmo as mercearias (ninguém fala mais esse nome) do interior ou dos bairros mais afastados do centro das grandes cidades escapam do uso desses sistemas, o controle via a famosa caderneta já é coisa do passado, e o Brasil já está inovando com a implantação da nota fiscal eletrônica.

Dabbawala

Dabbawala

E ai topei com o artigo Os marmiteiros de Harvard na revista Exame 925, mostrando exatamente o contrário: o funcionamento de uma cooperativa dos entregadores de marmitas de Bombaim, na India. Os números são de impressionar: 5000 homens que todos os dias executam um serviço de entregas de 200.000 marmitas com refeições prontas (e quentes). Esses entregadores, denominados dabbawalas,  pegam as marmitas nas casas dos fornecedores e as entregam no horário do almoço na área comercial da cidade. A região onde as marmitas são coletadas fica no extremo oposto da região onde elas são entregues, numa cidade imensa e congestionada como é Bombaim, a maior cidade da India. E eles ainda fazem a logística reversa, ou seja, pegam as marmitas depois de terminadas as refeições, e voltam com elas à origem para reiniciarem o processo no dia seguinte.

A rotina é de impressionar. Para a coleta, eles usam bicicletas, carrinhos de mão ou caixas de madeira que levam até 60 marmitas (as marmitas não são descartáveis). Dai as marmitas são organizadas de acordo com o seu destino já na estação dos trens, que são o meio de transporte utilizado para levar as marmitas do ponto de origem até o destino. Chegando na área comercial da cidade, as marmitas são entregues por outro grupo, que levam as marmitas até os escritórios, e uma hora depois de entregues, começa o processo da logística reversa. E, pasmem, o índice de falhas nesse sistema é próximo de zero, estimado pela revista The Economist na ordem de um erro a cada 16 milhões de entregas! Isso é de assustar qualquer especialista em logística das melhores escolas. Os níveis hierárquicos são apenas três: entregadores, coordenadores e pessoal de apoio administrativo de escritório (claro, um escritório é indispensável). Os dabbawalas são empoderados (empowered) para resolver problemas locais que surjam durante as entregas, 85% deles não concluiram o ensino fundamental, ganham em média 120 dólares por mês, e nunca houve greves ou paralizações no serviço. E o sistema foi criado há mais de 116 anos! Vale a pena visitar o sitio deles, para entender melhor essa gigantesca operação.

Estão sendo citados como exemplo de empreendedorismo social, que é fundamental em um pais com tanta pobreza como é o caso da India. Pessoas de baixa qualificação técnica têm um emprego digno e com um ganho mensal considerado razoável para os padrões de salário da India. O gerenciamento de todo o sistema é um enorme desafio, e muitas lições podem e devem ser tiradas da sua análise, tanto é que que a organização é objeto de estudos na Harvard University. Sem entrar demais em detalhes, o que consigo enxergar como ótimas lições: como favorecer o lado social substituindo eficiente e eficazmente computadores por pessoas; o grande impacto de poucos níveis hierárquicos com distribuição de poder de decisão; como utilizar os meios de transportes mais antigos como a bicicleta, o famoso JK – Joelho e Kanela, e os trens que são o meio de transporte principal numa operação gigantesca;  como não gastar (muito) dinheiro com tecnologia, substituindo-a por sistemas mais simples, mais bem gerenciados e que funcionam; como fazer uma organização dessas gerar lucro no final das contas; e mais um monte de lições que certamente vão aparecer em algum livro sobre a organização.

Mas, um pequeno detalhe: o sistema funciona bem porque tanto os pontos de coleta de marmitas quanto os pontos de entrega ficam concentrados em áreas pequenas da cidade, facilitando e muito o trabalho. Talvez (certamente) esse sistema não funcione tão bem numa cidade mais espalhada como por exemplo São Paulo, Nova Iorque, etc.

(postagem feita a partir do artigo Os marmiteiros de Harvard, jornalista Luciene Antunes, revista Exame 925, de 27 de agosto de 2008)

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Consultor Independente, Treinamento Empresarial, Gerência de Projetos, Engenharia de Requisitos de Software, Inovação. Professor Titular Aposentado, Departamento de Informática, Universidade Federal de Viçosa, Minas Gerais, Brasil. Doutor em Informática, PUC-Rio, 1990. Pós-Doutoramento, University of Florida, 1998-1999

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Publicado em Economia, Empreendedorismo, Social, Sustentabilidade
6 comentários em “Dabbawalas
  1. PG disse:

    Muito interessante, um grande exemplo. Infelizmente não pude deixar de pensar em como um computador poderia ajudar ainda mais esse povo (hehe).
    Obrigado por me mostrar isso.

  2. Uma indústria com mais de 100 anos mantendo uma taxa de crescimento de 5-10% ao ano, não é difícil imaginar o porque de ter chamado tanta atenção. Mais incrível ainda, o site deles cita uma certificação ISO!

    Tudo isso graças a um trabalho em equipe praticamente impecável. Realmente uma lição a ser aprendida pelos empresários das bandas de cá.

  3. Bernardo Giori Ambrósio disse:

    Alô Zé, depois vou procurar esse artigo para ler. Talvez seja possível fazer um jogo gerencial relacionado com isso, no estilo do UFV BeerGame, mas com suas particularidades.

  4. Pode ser, mas a premissa é bem diferente, no caso dos dabbawalas a informação necessária é apenas a disponivel em cada elo da cadeia, e nada mais. Bem localizado, não há necessidade de controles ou informação globais. Pode ser uma variante do jogo da cerveja.

  5. Patrik disse:

    Acho que o funcionamento tão bom desse negócio se deve principalmente às pessoas. O povo indiano não é um povo qualquer. Sabem direitinho o que é disciplina e comprometimento. O poder de decisão dado as entregadores também uma peça chave do esquema. E convém destacar que trem não costuma parar de funcionar, bicicletas não costumam ter defeito por pane elétrica e que com boa saúde pode-se caminhar bastante.

  6. Alexandre disse:

    Professor, lembro de ter feito um comentário em sua aula de INF600 sobre o que levou, e leva, muitos empresários a implantarem TICs nos seus sistemas. O Brasil está adotando a “informatização” como uma regra, após vários anos fazendo isso mais por modismo do que por ser vantajoso. Observar sistemas como esse dos marmiteiros de Bombaim nos faz pensar que ainda é possível manter organizações e sistemas de informação dependentes de regras e competências, muito além da dependência de softwares e hardwares que achamos ser indispensáveis.

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