A crise já chegou aqui…

Já que está todo mundo falando da tal da crise, achei conveniente dar uns pitacos aqui sobre o mesmo assunto. Nunca é demais repetir os mesmos temas, a história tem que ser contada, recontada e discutida, para evitarmos que ela se repita no futuro. Esse é um ditado chinês que faz parte da minha lista: povo que não conta a sua história, corre o risco de vê-la se repetir. E vejam que a crise de 1929 não está táo longe assim. Mas, porque estamos no meio dessa crise planetária? Como a economia mundial está indexada pelo dólar, que é a moeda forte do planeta. Negócios são feitos em dólar, importação e exportação são feitas em dólar, commodities são negociadas em dólar, e vamos por ai afora. É uma consequência mais ou menos óbvia que qualquer balançada que afete o dólar e sua relação com as demais moedas, vai causar impacto nos negócios no resto do mundo globalizado. Pior ainda, quando a balançada econômica acontece no país que é o dono do dólar, no caso os EUA.

Não importa muito qual foi a razão particular que levou à balançada dessa vez. Certamente não foi um motivo único, as variáveis são muitas e são interconectadas, muda o valor de uma delas, as demais que dependem dela também vão mudar mais cedo ou mais tarde. A questão dos empréstimos feitos de maneira irresponsável pelos grandes bancos estadunidenses para financiamento de habitações foi apenas o estopim que disparou o efeito dominó que acabou atingindo o resto do mundo. É irresponsável, na minha opinião, porque uma grande maioria das pessoas que tomaram esses empréstimos (a juros e condições de mercado) não tinham condições de pagá-los, e isso era sabido. E o que se seguiu foi essa crise de inadimplência a que estamos assistindo, os bancos não conseguiram pegar de volta o dinheiro emprestado e seus juros, começou a quebradeira dos bancos, e ai danou-se todo o sistema, afetando a economia global. Vi na CNN o depoimento de um senador estadunidense, responsável (ou melhor, irresponsável…)  por uma lei recente que garante ao cidadão estadunidense o direito de ter o financiamento da sua casa, mesmo que ele tenha poucas condições de pagar  o financiamento! E essa lei foi feita com o único objetivo de permitir aos bancos ampliar o volume de empréstimos (o que não tem nada a ver com o direito a moradia…). É mole? Como se isso não bastasse, ainda tem o enorme financiamento da invasão do Iraque, do Afegasnistão…

Mas, como tudo isso afeta o dólar e atinge a gente cá do outro lado? Os bancos não recebem os empréstimos, ficam sem dólares para continuar emprestando, o financiamento do consumo fica comprometido, a população endividada fica sem dinheiro para consumir e sem acesso aos financiamentos para o consumo, a baixa no consumo tem impactos nas importações de todo tipo afetando os produtores de bens de consumo e commodities  de outros paises que sobrevivem de exportar para os EUA, o governo estadunidense tem que intervir  com programas de salvamento dos bancos, o dólar fica escasso no mercado e consequentemente sobe de valor em relação às demais moedas, e a economia mundial atrelada ao dólar também vai junto pro buraco. Exigindo dos governos dos demais paises o uso de reservas cambiais (se tiverem) para jogar dólares na economia interna evitando a alta excessiva de seu valor, alta essa empurrada pela escassez e pelo aumento da procura por dólares para pagamento de compromissos previamente assumidos (em dólar) pelas empresas e pelo próprio pais. É uma ciranda infernal e depredadora, um ciclo vicioso que tem que ser interrompido sob pena de a crise se tornar tão grave quanto a de 1929.

Bom, mas quero chamar atenção aqui para um outro aspecto dessa crise toda. O modelo de crescimento econômico a que estamos assistindo no momento, baseado no modelo de bem-estar estadunidense que acabou se transformando em modelo para o resto do mundo, não é sustentável. O planeta já está exaurido, explorado acima da capacidade de recuperação, e taxas de crescimento anuais de 10% como é a tão elogiada taxa de crescimento da China,  são irreais e não são sustentáveis nem se tivessemos disponivel um segundo planeta Terra zerado e inexplorado. Em várias postagens anteriores chamei atenção para isso, particularmente na postagem O planeta Terra vai aguentar o tranco?, releiam. Falando diretamente, não há como as demais nações do mundo almejarem uma taxa de crescimento da economia de 10% ao ano. E como é que o mundo vai reagir a isso? vendo algumas poucas nações comendo literalmente os recursos naturais das outras, para atingirem sua meta de bem-estar social e econômico? E o resto do mundo no buraco e se danando por motivos aparentemente banais, basta ver nos noticiários o que está acontecendo no Congo, no Sudão, no Zimbábue, no Haiti, e vamos por ai afora. Não estamos imunes a nada disso, é melhor a gente ir se acostumando com a idéia de que os valores sociais e econômicos atuais do nosso mundo vão ter que mudar, e muito, um outro nível de equilíbrio vai ter que surgir, e não pode demorar muito. A sociedade do carro, do individualismo, está com os dias contados (vejam o indicador do WWF sobre a questão ambiental aqui).

As perguntas que atormentam todo mundo são: como é que eu fico nessa crise? meu emprego vai ser mantido? o bem-estar da minha família está ameaçado? meu salário no fim do mês está garantido? até que ponto estamos protegidos aqui no Brasil? Muito difícil prever todas as consequências, impossível. Mesmo porque nós seres humanos somos um desastre para fazer previsões de longo prazo. A recomendação mais útil é a de sempre: cautela, muita cautela. Evitar endividamentos desnecessários, com prazos longos. Levar a vida leve, sustentável e sem excessos. E, principalmente, preparando-nos para quando a crise acabar. Como? investindo em conhecimento, em empregabilidade, a época agora é de investimento pessoal para estarmos prontos para quando o mundo emergir da crise e retomar o crescimento em bases sustentáveis. Temos que apelar para a nossa criatividade. E cruzar os dedos para que a crise seja dominada com o mínimo de respingos destrutivos.

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Consultor Independente, Treinamento Empresarial, Gerência de Projetos, Engenharia de Requisitos de Software, Inovação. Professor Titular Aposentado, Departamento de Informática, Universidade Federal de Viçosa, Minas Gerais, Brasil. Doutor em Informática, PUC-Rio, 1990. Pós-Doutoramento, University of Florida, 1998-1999

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Publicado em Economia, Social, Sustentabilidade

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