Sociedade do carro

Ford T

Ford T

Estou com este artigo no forno há um bom tempo, esperando a idéia melhorar ou o tempo livre aparecer. Tudo começou com essa beleza ai do lado, o famoso Ford T. Criado por Henry Ford, foi o primeiro carro da história da humanidade  produzido em série em linha de montagem. Nas palavras do próprio Henry Ford: vou construir um carro para as multidões. Será grande o suficiente para a família, e pequeno o suficiente para ser utilizado e mantido individualmente. Será construido utilizando os melhores materiais existentes, pelos melhores operários disponíveis, e baseado nos melhores projetos que a engenharia moderna puder oferecer. Mas terá um preço baixo, de tal forma que qualquer um que ganhe um salário razoável poderá ter um para aproveitar com a sua família as horas de prazer nesses enormes espaços abertos criados por Deus. Para a época, eram principios e idéias extremamente nobres, que deixavam escondidos a idéia do lucro, de construir uma grande empresa que fosse capaz de abrir um mercado ainda inexistente e por desbravar. Impossivel prever, nessa época, o que seria o mundo lotado de carros apenas um século depois.

São inquestionáveis os enormes benefícios que o carro, ou melhor dizendo os veículos automotivos, trouxeram para a humanidade e seu progresso. Escoamento de safras, transporte escolar, viagens de ônibus tornando os acessos mais rápidos, transporte de bens de consumo, uso individual proporcionando liberdade de locomoção, flexibilidade de horários e de localização geográfica. Enfim, chegamos ao estágio de desenvolvimento atual devido, em grande parte, ao uso do carro em suas mais diversas instâncias. Mas… sempre tem um mas na história: quem poderia prever essa explosão no uso do carro e na sua transformação, de fato, em objeto de desejo e símbolo de ascensão social e de liberdade individual? Henry Ford lançou a semente na sua famosa declaração.

Alguns países foram capazes de enxergar e de investir na época certa, em outros modos (ou modais) de transporte, como o ferroviário, o hidroviário e o aéreo, tirando o foco único nos transportes terrestres. Reparem que o transporte por trens ou metrôs, por exemplo, é muito presente na maioria das grandes nações e cidades do mundo. Infelizmente, nesse particular parece que por aqui comemos mosca, e por falta de visão de longo prazo de governos e mais governos (federal, estadual e municipal), de falta de políticas estratégicas bem definidas e duradouras, o país depende hoje fortemente do transporte terrestre, por caminhões em estradas de rodagem e pelas ruas castigadas e esburacadas de todas as cidades. Numa situação dificílima de reverter em médio ou longo prazo (sendo otimista).

Os municípios, que dependem de coleta de impostos ou das cotas do Fundo de Participação dos Municipios para terem recursos para melhorar a estrutura das cidades, têm tantos problemas acumulados para resolver (saúde, educação, redes de água e esgoto, tratamento de água, tratamento de esgotos, crescimento econômico, violência urbana, segurança, policiamento, manutenção da estrutura viária pública, …) que certamente o problema dos carros vai ficar sempre em segundo (ou mais)  plano, e cada vez mais vai ser assim. Os recursos coletados nunca vão ser suficientes para resolver todos os problemas, e certamente seria uma inversão de valores colocar o carro particular em posição mais alta na escala de prioridades municipais.

Bom, mas pelo menos o problema do transporte coletivo poderia ser equacionado, não poderia? Disponibilidade em termos de horários e quantidade de veículos, número de linhas, de tal forma que fosse possivel ao cidadão comum deixar o carro na garagem e usar o transporte coletivo com segurança e tranquilidade. O exemplo sempre citado é o de Curitiba, cidade modelo no mundo todo, resultado em parte das idéias do urbanista Jaime Lerner. Que conseguiu enxergar com a antecedência necessária as prioridades em termos de organização e serviços, implantou um sistema de transporte urbano modelar, que satisfaz a maioria esmagadora de seus usuários, valorizando o ser humano acima de tudo.

Na maioria das cidades, estamos chegando a uma situação de impossibilidade total, e que só vai piorar. Ruas, acessos, estradas vão continuar entupidos e em péssimo estado de conservação, pois os municipios não conseguem acompanhar o aumento da demanda, e não há espaço disponivel nas ruas e estradas para que alguma melhora de curto prazo possa ocorrer. Um aumento da capacidade das vias teria perna curta, em pouquissimo tempo também essa solução paliativa estaria comprometida da mesma forma, entupida com os carros que já circulavam, e com os outros que vão passar a circular porque o trânsito melhorou. E ai teriamos dois problemas: o antigo que já existia, e o novo criado pela solução paliativa.

O resultado todo mundo conhece de sobra: motoristas raivosos, estresse constante, brigas e mortes no trânsito, motocicletas em número cada vez maior surgindo como uma alternativa individual e barata à falta de estrutura de serviços de transporte coletivo. E o cidadão continua na dependência do carro individual: sai para trabalhar, deixa menino na escola (escolas poderiam ter horários estendidos como acontece em vários paises), alguém tem que pegar as crianças na escola e levar de volta para casa, volta no fim da tarde ou inicio da noite e pega um trânsito descomunal, leva o triplo do tempo (se não chover) para chegar em casa estressado, puto da vida, mais querendo banho e cama do que qualquer outra coisa, para começar tudo de novo no dia seguinte.

Para piorar, os combustíveis fósseis estão em extinção e o ser humano continua procurando alternativas ao petróleo, para que os carros continuem a circular do mesmo jeito: álcool carburante que ganhou o nome chique de etanol, hidrogênio, carro elétrico, lixo, óleo de lanchonete, etc. A meu ver, uma tremenda perda de tempo e de recursos, pois o modelo atual baseado em carros de passeio individuais está agonizante há muito tempo, não tem a menor possibilidade de continuar existindo. O modelo tem que mudar, a visão sistêmica dos problemas tem que ser adotada, o ser humano tem que ser valorizado acima de tudo. Felizmente, os bons exemplos de soluções corajosas continuam a pipocar, a cidade de Nova Iorque volta a dar um ótimo exemplo,  vejam aqui, e deixem a imaginação funcionar…

(este artigo foi escrito por zeluisbraga, e postado no meu blog zeluisbraga . wordpress . com) (this post was written by zeluisbraga, published on zeluisbraga . wordpress . com)

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Consultor Independente, Treinamento Empresarial, Gerência de Projetos, Engenharia de Requisitos de Software, Inovação. Professor Titular Aposentado, Departamento de Informática, Universidade Federal de Viçosa, Minas Gerais, Brasil. Doutor em Informática, PUC-Rio, 1990. Pós-Doutoramento, University of Florida, 1998-1999

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Publicado em Social, Sustentabilidade, Tecnologia
5 comentários em “Sociedade do carro
  1. Rômulo Chagas disse:

    Olá Zé Luis. Prazer imenso ler seu blog, que só agora tomei conhecimento. Este texto me faz lembrar, e lamentar, o péssimo estado das ruas e vias públicas em geral de nossa querida Viçosa. Se Henry Ford vagasse por aqui, ele nos aconselharia a voltar a andar a cavalos!
    Um grande abraço.
    Do amigo Rômulo.

  2. É isto Zé! Carro já era há mais de 30 anos. Temos que inverter as prioridades: agora os cidadãos é que são importantes.Por isso Calçadões, Ciclovias, Transporte coletivo de qualidade e diversificado, no lugar de estacionamentos, ruas largas, viadutos, semáforos, quebra-molas, estas bobagens do início do século vinte.

  3. railer disse:

    eu já tive carro aqui no rio, mas hoje ando de táxi quando preciso, metrô ou ônibus, já que moro perto do trabalho e o carro não faz falta. ainda tem a questão do custo associado a um carro, que não é barato.

    o trânsito no rio precisa melhorar, qualquer problemas em alguma das vias se reflete em congestionamento em muitos pontos.

    uma coisa bacana, que lembrei vendo o vídeo de nyc, é que as vias da praia se fecham aos domingos e feriados, desde o aterro do flamengo, criando uma imensa rua de lazer.

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