Dia do professor

Professor

Professor

Mais um Dia do Professor se passa, e mais uma vez sinto a sensação de que nós, professores, temos um baixo reconhecimento de nosso trabalho  pela sociedade. Nas universidades federais, pior ainda porque o feriado do 15 de outubro nem existe mais, foi transferido para o dia 28 de outubro,  o Dia do Funcionário Público,  que por sua vez, também sumiu do mapa. Uma ou outra mensagem de parabéns pelo dia do professor aparece nos emails ou impressas, a maioria delas chavões repetidos a cada ano, mais por obrigação do que propriamente por valorização da  profissão que abraçamos.

Claro, os feriados não importam em nada, são apenas datas comemorativas, e nós estamos lotados delas. Estou me referindo aqui ao reconhecimento da importância do papel social desempenhado pelo professor de modo geral. Acho mesmo que é muito fraco o reconhecimento do papel fundamental da educação para a sociedade, logo a educação que é a única variável que trabalhada isoladamente, consegue em médio tempo promover inclusão social, melhoria de renda, melhoria de percepção, consciência, etc. Mas, até nosso presidente da república faz muita questão de ser enfático em afirmar que nunca precisou estudar para chegar à presidência, o que é tomado como bom exemplo a ser seguido.

Já me senti muito valorizado por ser professor. Mas não foi aqui, foi no ano que passei nos EUA na University of Florida, em estágio de pós-doutoramento. A percepção da importância do papel desempenhado pelo professor por lá é fantástica. Na lista das profissões mais respeitadas naquela época, Professor só era superada pela carreira de Policial. As carreiras mais tradicionais vão lá para o final da fila, uma surpresa. Procurei uma atualização daquela lista, não consegui mais achar. Mas, na busca, achei uma entrevista da Michelle Obama sobre a importância do papel do professor na formação das novas gerações de estadunidenses, que merece ser lida aqui.

Uma parte do artigo eu faço questão de transcrever, desculpem, vai em inglês mesmo, usem os tradutores da internet: We all remember the impact a special teacher had on us—a teacher who refused to let us fall through the cracks; who pushed us and believed in us when we doubted ourselves; who sparked in us a lifelong curiosity and passion for learning. Decades later, we remember the way they made us feel and the things they inspired us to do—how they challenged us and changed our lives. So it’s not surprising that studies show that the single most important factor affecting students’ achievement is the caliber of their teachers. And when we think about the qualities that make an outstanding teacher—boundless energy and endless patience; vision and a sense of purpose; the creativity to help us see the world in a different way; commitment to helping us discover and fulfill our potential—we realize: These are also the qualities of a great leader.

Claro, há enorme diferenças de cultura entre nós, nem de longe está passando pela minha cabeça elogiar a sociedade de lá, e achar que ela é modelo para nós. Nada disso, temos nossa própria cultura muito mais rica e que, aos poucos, vai sendo respeitada e admirada pelo resto do mundo. Meu ponto aqui é somente com relação ao reconhecimento da importância do papel do professor na nossa sociedade e cultura, e essa postagem vai mais como um desabafo muito forte. Ia me esquecendo, na sala de aula onde ensino engenharia de software esse semestre, a sala 358 do Pavilhão de Aulas A, está escrito a canivete no tampo da mesa: Todo professor é filho da puta! É mole?

Deixo aqui minha homenagem ao querido amigo, colega e parceiro de pesquisas Marcelo José Vilela, professor do Departamento de Biologia Animal da UFV, pesquisador incansável da Patologia do Câncer. Falecido na sexta, dia 16 de outubro de 2009, ironicamente vitima de um câncer devastador no pâncreas.

(este artigo foi escrito por zeluisbraga, e postado no meu blog zeluisbraga . wordpress . com) (this post is authored by zeluisbraga, published on zeluisbraga . wordpress . com)

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Consultor Independente, Treinamento Empresarial, Gerência de Projetos, Engenharia de Requisitos de Software, Inovação. Professor Titular Aposentado, Departamento de Informática, Universidade Federal de Viçosa, Minas Gerais, Brasil. Doutor em Informática, PUC-Rio, 1990. Pós-Doutoramento, University of Florida, 1998-1999

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Publicado em Carreira, Educação, Reflexões
11 comentários em “Dia do professor
  1. André Castro disse:

    Alo Zé,

    Eu poderia até continuar com seu discurso. Mas vou preferir citar um exemplo.

    Acho que todos nós Brasileiros vimos nos últimos anos a notoriedade na mídia que ganhou um cidadão chamado Joaquim Barbosa. Pra quem não sabe quem é vale uma lida pelo menos no http://pt.wikipedia.org/wiki/Joaquim_Barbosa, senão procure por todas as revistas Veja, Exame, etc que noticiaram a vida e as atitudes deste cidadão nos últimos dois ou três anos.

    Tenho certeza que este cidadão não andou por ai escrevendo em tampos de mesa, tenho certeza que suas habilidades e sabedoria lhe levaram por caminhos bem mais nobres.

    Pense em quantos professores auxiliaram na construção do conhecimento de um cidadão como este. Pense quantos Joaquim Barbosa estão por ai e quantos não foram os professores que fizeram parte de suas vidas. Pense também quantos Joaquim Barbosa não estão nesse momento sentados em uma sala de aula prestando atenção em um professor e imaginando ou tentando absorver todo o conhecimento transmitido.

    É dessa forma que penso que nós professores devemos atuar, sem esperar nada em troca ou sem desejar reconhecimento, pois ele vem das pessoas mais importantes.

    Penso que tão nobre arte, tão reconhecida nos EUA, é devido ao fato de sermos os multiplicadores do conhecimento e deixarmos pra uma nação exemplos de cidadãos como Joaquim Barbosa. Não só pelo alto cargo que ocupa, mas por suas atitudes de cidadão.

    Grande Abraço.

    André Castro

    • Certissimo, nosso papel é de bastidores, bons exemplos não faltam e nunca vão faltar. Minha bronca é com relação ao nosso reconhecimento pela sociedade como um todo. Vejo aqui na UFV, todos os dias, professores de cursos primários do estado, fazendo curso de atualização no projeto Mãos na Massa, eles fazem o maior sacrificio para estar aqui, se atualizando, salário sempre baixo, usando recursos próprios na maioria das vezes. Mas continuam na luta abnegada e anônima, que é nosso perfil, sempre. abraço,

  2. Zé, realmente para ser professor no Brasil tem que ter vocação para héroi também. Não é fácil. Mas pode ter certeza que você está na categoria que faz diferença e que inspira seus alunos. Abraços.

    • Olá, Rodrigo. Pessoalmente, tenho certeza de que sou valorizado, anonimamente. Minha questão é mais ampla, é percepção do nosso papel na sociedade brasileira… E vamos adiante no sacrificio, ainda há muito a fazer. Você ai em Rio Paranaiba, por exemplo, tem um enorme desafio pela frente…

  3. Haqqaton disse:

    Recentemente tem passado na TV uma propaganda do Estado incentivando as pessoas a escolherem a profissão de professor. Chega a ser ridícula como a situação é pintada. A realidade é muito mais negra.

    Recentemente em Porto Seguro/BA dois professores foram assassinados porque lutavam por melhores condições para eles e para as crianças.

    Nas universidades, se o aluno é reprovado é culpa do professor. Na UFV então vi alunos que passavam a semana em festas e quando iam mal em Cálculo I, Física I, etc.. a culpa era descarregada nos mestres. Profissão “inglória” como a dos goleiros.

    Mas fato é que o professor é o profissional MAIS IMPORTANTE em qualquer nação. Talvez um dia os grandes do poder notem isso.

    Até.

  4. Glauber Costa disse:

    Caros,

    O chamado a ser professor muitas vezes nos é tido como uma cruz, um desafio a ser levado ate o fim. Mas, mesmo que nao haja o reconhecimento geral, um ou outro aluno que se apresenta realizado profissionalmente, ainda que nao diga claramente “obrigado”, da ao professor certeza de sua importancia. Nenhum professor passa em branco pela vida de nenhum aluno.

  5. Luana disse:

    Oi Zé!

    Em geral, as pessoas são ingratas mesmo. Depois que conseguem um objetivo, tendem a considerar investimento único do próprio esforço. Mas um bom professor reconhece seus frutos e sabe que apesar da pouca exteriorização do reconhecimento, ajudou seus alunos a chegar onde almejavam. Mas tenho percebido uma mudança nesse quadro: todas as pessoas com quem tenho tido contato, que não conseguiram terminar os estudos, têm tentado a todo custo voltar, pois já estão se sentindo burras e desqualificadas nessa sociedade de hoje.
    E mais importante: todo mundo se lembra de seu professor favorito, mesmo que nunca tenha agradecido 😉
    Outra: aqui na UFMG, nem o bombom do dia dos professores faz sucesso, então desisti 😦

  6. Rodolfo Poley disse:

    Saudade do professor Marcelo José, um grande amigo, um dos poucos professores que fiz amizade, incetivador e companheiro da natação Luve e Projeto Nadar.

  7. Léo disse:

    Oi Ze, parabens !
    acabei de ter uma idéia. que tal transformar as postagens do blog em um livro impresso ?! abs Léo

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