Riscos da avaliacao pelos pares

Cientistas

A notícia publicada na Nature, sobre os três professores biólogos que foram assassinados no campus da University of Alabama (Huntsville), e a forma como tudo aconteceu, me deixou ao mesmo tempo perplexo e preocupado. Uma neurocientista, Amy Bishop, tinha sido reprovada no concurso para professor efetivo (tenure) no Departamento de Biologia da University of Alabama, e em uma reunião do departamento, sacou de uma pistola 9mm e atirou contra os colegas (Fevereiro de 2010), matando três deles: Gopi Podila, chefe (e criador) do Departamento de Biologia; Maria Ragland Davis, especialista em patologia de plantas e Adriel Johnson, biólogo celular. Ao todo, entre mortos, feridos e a atiradora que foi presa, mais da  metade dos professores do departamento foi envolvida no episódio.

O fato, por si só, deixou a comunidade perplexa pela violência e pela percepção de até onde o ser humano pode chegar com seus desequilibrios provocados por acessos de raiva ou outras causas, e as reações desproporcionais que ocasionam. O que, é claro, não é prerrogativa de nenhum grupo especifico, acontece com qualquer um em qualquer classe social e com qualquer (suposto) nível intelectual, como o caso relatado deixa bem claro. Uma reação frontalmente contrária ao que a sociedade espera: ao avançarmos em conhecimento e nos estudos, chegando até o nivel de doutorado ou além dele, nosso modelo de mundo deveria se aperfeiçoar e deveriamos melhorar como seres humanos.

O ser humano é o único habitante do planeta que nasce desprovido de instintos básicos de sobrevivência e autodefesa, exceto o de alimentação, tem que aprender tudo devagar, cada um construindo seu próprio modelo. As demais espécies já caem no chão andando, aprendendo a correr e a se defender, a subir nos galhos das árvores, a rosnar ou latir para afastar inimigos, e a se impor pela força.  Nossa sobrevivência depende dos modelos de mundo que construimos ao longo da vida, ao qual vamos acrescentando conhecimento na medida em que vivemos e vamos aprendendo. Temos consequentemente a prerrogativa do livre arbítrio, que nos permite tomar decisões baseadas em principios éticos e morais, que ajudam a regular nossas relações sociais, como bem descreve o filósofo Immanuel Kant. E também por isso é que se espera que o ser humano tenha controle sobre suas reações e instintos mais primitivos, impondo sobre eles os principios da boa convivência social. Dai decorre a necessidade das leis, para ajudarem a regular o que o ser humano não consegue fazer por conta própria. A idéia é a de que temos o livre arbitrio para escolher não praticar a ação errada em cada situação, do ponto de vista da moral e da ética. Caso nosso livre arbítrio não atue a favor do equilibrio social, ai então atua a lei para corrigir os desvios.

Mas, minha reflexão sobre esse caso vai também por um outro lado, a que estamos crescentemente expostos. Somos, por força de lei e da cidadania, convocados a participar dos mais diversos tipos de comissões, que muitas das vezes envolvem o julgamento de pessoas. Bancas de concurso, bancas de dissertação e de teses, bancas de monografias, júri popular, etc. são ótimos exemplos. Quantos são os casos conhecidos em que cidadãos comuns são convocados para participar como jurados em julgamentos, e são flagrantemente ameaçados por pessoas associadas com os réus? E alguns até sofrem consequências graves. E nas bancas de concurso, como foi o relatado acima e resultou no assassinato de três professores?  Para pensar, e muito…

(este artigo foi escrito por zeluisbraga, e postado no meu blog zeluisbraga . wordpress . com) (this post is authored by zeluisbraga, published on zeluisbraga . wordpress . com)

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Consultor Independente, Treinamento Empresarial, Gerência de Projetos, Engenharia de Requisitos de Software, Inovação. Professor Titular Aposentado, Departamento de Informática, Universidade Federal de Viçosa, Minas Gerais, Brasil. Doutor em Informática, PUC-Rio, 1990. Pós-Doutoramento, University of Florida, 1998-1999

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Publicado em Reflexões, Social
Um comentário em “Riscos da avaliacao pelos pares
  1. railer disse:

    não tinha ficado sabendo disso. realmente é algo pra se pensar. qualquer tipo de julgamento de pessoas pode deixar uma parte insatisfeita e sabe-se lá o que isso pode provocar.

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