Carreiras em TI 2008-2018, EUA

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Topei com um artigo muito interessante sobre a projeção da evolução das carreiras em TI nos EUA, para o período de 2008-2018. Foi publicado na página do Calvin College (Michigan), naturalmente para ser usado como um atrativo forte para os estudantes seguirem carreiras em TI, oferecidas pelo Calvin College. Os dados são confiáveis, extraidos diretamente do US Bureau of Labor Statiscs, que é a fonte de dados estadunidense para esse tipo de estudo e projeção.

Puxei de lá os dois gráficos acima, que dizem tudo. Para o periodo 2008-2018, 71% dos empregos em ciência e tecnologia nos EUA serão na área de computação. Destes 71%, 27% serão em Engenharia de Software, 21% em Redes, 10% em Análise de Sistemas, e o restante distribuido em outras áreas. O segundo gráfico é mais impressionante, pois mostra a enorme diferença entre a oferta de empregos em amarelo, e o número de entrantes no mercado. Ou seja, na Computação vão se formar menos de 30% da mão de obra necessária no periodo, uma diferença enorme, que não é observada nos outros setores onde ocorre um excesso de oferta de mão de obra especializada. Empresas internacionais na área de TI levam de seis meses a um ano para conseguirem recrutar e contratar um profissional qualificado em Engenharia de Software ao redor do globo, e levá-lo para trabalhar em seus centros de Pesquisa e Desenvolvimento espalhados pelo mundo afora, e ganhando altos salários. É uma verdadeira caçada mundial ao bom profissional.

Bom, por aqui também as coisas se comportam mais ou menos da mesma forma, embora não tenhamos tantos dados disponiveis assim. Não faltam boas vagas para os profissionais competentes em Computação e Engenharia, e a discussão sobre baixos salários pagos pelo setor está começando a se espalhar, os comentários recentes provocados por uma reportagem na BHTiMagazine são apenas o começo. Se os atuais níveis de crescimento econômico se mantiverem, a tendência tanto aqui quanto no resto do mundo é a de termos mais oferta de vagas do que profissionais para ocupá-las.

Mas, agora vem a pergunta: existe mercado para todo mundo? Quem vai ocupar o filé dessas vagas? Quem é o Engenheiro de Software que o mercado está procurando e que, nos EUA, ganha salários que chegam a US$140.000,00 por ano? Qual o nivel de competência solicitado pelo mercado? São nesses pontos que eu acho (tenho certeza) que a porca torce o rabo. O profissional de Engenharia de Software (Arquiteto de Software, Projetista de Software e outras) tem que ter amplitude de cohecimento, e nunca é aquele profissional que sabe alguma coisa superficial de RUP (Rational Unified Process), de  Métodos Ágeis, etc. Tem que conhecer processos de produção, processos organizacionais (CMMI, mpsBR), muito de algoritmos e estrutura de dados, arquitetura de software (pouca gente sabe o que é isso), sistemas distribuidos, SOA, computação em nuvens, compiladores, linguagens de programação, além das habilidades interpessoais e de gerência (nesse ponto, somente em gestão de projetos temos um outro mundo de conhecimento). Se quiserem saber mais sobre o conteúdo da área de Engenharia de Software e as matérias ou assuntos que um Engenheiro de Software deve dominar, consultem o guia SWEBOK-SoftWare Engineering Body Of Knowledge, primo do PMBOK-Project Management Body of Knowledge.

E eu, como professor e pesquisador em Engenharia de Software, volto a repetir aqui o que não me canso de falar na sala de aula. O mercado paga pelo que você faz, e não pelo que você é. Quem traça a linha da carreira é o próprio profissional, e ninguém mais. O mercado é cada vez mais exigente, existem bons e maus salários em todo canto do mundo, os bons salários são destinados a quem tem "garrafa vazia prá vender", ou seja: experiência, competência, conhecimento, etc. Não adianta nada você fazer um curso superior furreca, levando as disciplinas na displicência (ou nas coxas, se preferirem um termo mais “popular”) e deixando-as em segundo plano por qualquer motivo, depois se formar, fazer uma certificação Java de entrada, e querer ir para o mercado ganhando um alto salário. E ainda por cima reclamar se seu salário for baixo, como pode ser observado em muitos dos comentários na reportagem da BHTIMagazine. O mercado profissional em TI está ficando comoditizado no nivel de conhecimento básico, e habilidades em programação (qualquer linguagem) não qualificam mais ninguém para ganhar bons salários, pois é barato para as empresas darem treinamento e formarem seus próprios programadores.

Acordem ai, o mundo é o limite, mas somente para os competentes de fato. Antes de querer ganhar um bom salário, responda honestamente: você contrataria um profissional com a sua competência na sua própria empresa?

(este artigo foi escrito por zeluisbraga, e postado no meu blog zeluisbraga . wordpress . com) (this post is authored by zeluisbraga, published on zeluisbraga . wordpress . com)

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Consultor Independente, Treinamento Empresarial, Gerência de Projetos, Engenharia de Requisitos de Software, Inovação. Professor Titular Aposentado, Departamento de Informática, Universidade Federal de Viçosa, Minas Gerais, Brasil. Doutor em Informática, PUC-Rio, 1990. Pós-Doutoramento, University of Florida, 1998-1999

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Publicado em Carreira, Educação, Engenharia de Software
12 comentários em “Carreiras em TI 2008-2018, EUA
  1. Vitor disse:

    Excelente artigo com dados extremamente utéis e motivadores para a área de TI.

  2. Fred Paulino Ferreira disse:

    Muito bom o texto.

    Sou desenvolvedor de sistemas Java e assim que cheguei ao mercado percebi que a empresa leva em consideração o que você sabe e o que você faz. Inocentemente achava que por ter formado em uma universidade pública de qualidade e ter a certeza de que o conhecimento teórico meu era superior ao de muitos outros egressos de outras universidades já tinha emprego garantido em empresas de renome e com um bom salário. Eliminava minhas chances de ser chamado para entrevistas quando me achando superior colocava a pretensão salarial na faixa de R$2.500,00 a R$3.500,00 para vagas em Belo Horizonte MG.

    Mesmo hoje entendendo melhor o mercado privado e meu salário dentro da faixa que almejava inicialmente acho que as coisas devem mudar. Você tem que ser valorizado também pelo que você é.

    Falando em desenvolvimento de software, no fim das contas o mal pagamento leva à mudança constante de emprego e impacta na qualidade do software. Realmente é mais fácil e barato a empresa treinar e formar o seu programador, mas ela parece se esquecer que eles são “os piões da obra”. Profissional que se sente desvalorizado com certeza não vai trabalhar bem. Toda a fase de análise e projeto é concretizada na fase de desenvolvimento. Se esta fase não é bem feita, a qualidade do produto final está comprometida.

    Apesar de não ter conhecimento e experiência em toda a área de engenharia de software eu me contrataria para a minha própria empresa, pois tenho uma formação teórica forte e tenho capacidade de adaptação e aprendizado rápido. Isto sim é importante e devia ser mais valorizado inclusive financeiramente.

    • Olá, Fred. Muito bem, o raciocinio é esse mesmo. O mercado vai mudando na medida em que a pressão for aumentando. Oferta e procura, essa é a lógica do capitalismo. Em breve vou voltar a esse assunto, com uma postagem sobre rotatividade de mão de obra (turnover), com base em dados e modelos muito interessantes. Abraço,

  3. railer disse:

    eu comecei como programador e fui evoluindo ao longo desses anos. realmente o conhecimento é algo que precisa ser sempre atualizado para não ficarmos para trás, principalmente quando o assunto é t.i.

  4. André Castro disse:

    Alo Ze,

    Muito bom post e acho que essa linha de noticias interessa muito ao mercado de profissionais de TI. Uma seção do blog direcionada para essa linha pode aumentar em muito a qualidade dos comentarios e das visitas. Coisa que não da pra ser feita no twitter por exemplo.

    Abs,

    • As tags Carreira e Empreendedorismo são para essas postagens. Se você clicar nelas, vai ver várias postagens nessa linha. A grande critica que tenho aos sites de blog é que é mais dificil organizar os assuntos, de vez em quando tem que fazer uma postagem com um thread das demais que falam sobre o mesmo assunto. Abraço,

  5. Marcio Molica disse:

    Olá Zé Luis e demais colegas,

    Atuo no mercado (mineiro – BH) de informática a quase 20 anos e o que tenho visto é que, exceto nas softwares houses, a parte de implementação (leia-se programação) é total ou parcialmente terceirizada nas grandes empresas. Empresas como Stefanini, HP, IBM ora fornecem os módulos de sistemas prontos ora fornecem os profissionais a serem alocados nos sistemas dos clientes. O mercado, na minha opinião, esta precisando de bons analistas de negócios que conheçam de sistemas, tecnologias, eng. de software, gerenciamento de projetos mas que, principalmente, agreguem valor ao negócio da empresa onde atuam. Transformar a bagagem de conhecimento em resultado para a empresa faz toda a diferença. Em empresas onde a atividade fim não é informática, como por exemplo um banco, o que interessa é o resultado materializado na forma de sistema. Como o sistema foi feito, por qual tipo de profissional, qual tecnologia empregou, etc… não importa para a empresa. Para ela o que conta é ter um sistema robusto, resiliente, dentro do orçamento previsto e que agregue valor para a empresa. Os profissionais de TI atuando neste banco devem transformar todo o seu conhecimento em um sistema cujas boas características possam ser percebidas pela organização. Lembrando que todo sistema (sob o ponto de vista organizacional) é composto por Pessoas + Processos + Ferramentas. O sistema é apenas uma ferramenta. Ter um ótimo sistema sem pessoas capacitadas para utilizá-lo ou processos bem definidos para integrá-lo a organização é perda de tempo e dinheiro. Um bom gestor pode resolver um problema mexendo em Pessoas e Processos e utilizando as mesmas ferramentas. Tem um estudo que mostra que 70% dos problemas são causados por falta de Processos, 20% por falha de conhecimento das Pessoas e apenas 10% por Ferramentas inadequadas. Este mesmo estudo mostra que as empresas focam a maioria do seu tempo e recursos em Ferramentas, Pessoas e, por último, Processos, mudando claramente o foco do problema. O profissional que olha para a informática como uma ferramenta e sabe escolher as mais adequadas para a empresa certamente é mais valorizado.

    • Ola, Márcio. Não é a toa que o novo contexto da Engenharia de Software tende a ser a VBSE-Value-Based Software Engineering, aquela que agrega valor ao negócio, dá um retorno de investimento, etc. Na linha que você mesmo comenta. Abraco,

  6. Raphael disse:

    Ola, Zé. Pretendo fazer Ciência da Computação (graduação) e me especializar em Inteligência Artificial. Eu gostaria de saber, qual a “melhor” universidade brasileira nessa área?

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