Pirataria: mudanças no capitalismo

Reggae, graffitti, remix, disco, break dance, movimento punk, DIY (Do It Yourself), viral marketing, hiphop, flash mob, freerunning/parkour, freesoftware, opensource, creative commons, popup stores e mais um monte de outros nomes esquisitos, fazem algum sentido para vocês? A gente escuta falar deles aqui e ali, noticia na TV, em alguma revista, mas de fato nunca me passou pela cabeça relacionar todos eles, e enxergar a sua base comum. Que é a resposta ao que não funciona bem na economia do capitalismo tradicional, voz das minorias sem acesso a trabalho, salário, mercado de consumo. E tome mais nomes relacionados: TAKI 183, Ecko, David Mancuso, Courtney Love, DJ Jazzy Jeff, FUBU, baile funk, tecnobrega paraense, Radio1 da BBC,…

41K4CZbze L._SL160_PIsitb-sticker-arrow-dp,TopRight,12,-18_SH30_OU01_AA160_ O capitalismo como conhecemos hoje, tem sofrido os impactos de todos esses movimentos, e finalmente parece que as regras estão mudando, embora lentamente. Reproduzindo aqui as palavras do sábio Mahatma Gandhi: “First they ignore you, then they laugh at you, then they fight you, then you win.” Tomem, por exemplo, o mercado fonográfico que é um exemplo mais conhecido de todos nós. Do disco de vinil, quando as bolachas de vinil eram comercializadas com 12 músicas (em média) nos dois lados, até a evolução para o formato mp3 associado com a internet,  e a pirataria que se seguiu na internet (Napster, Kazaa, Pirate Bay…), que quebrou todos os principios capitalistas relacionados com a comercialização de músicas. E obrigou finalmente a indústrica fonográfica a procurar outros modelos que permitissem sua sobrevivência em novas bases. O artista se libertou das amarras das gravadoras, saindo da escravidão dos contratos de exclusividade, ficou muito fácil gravar um disco independente e deixar as faixas disponiveis num sitio da web para download gratuito, e receber a retribuição pelo trabalho em shows e apresentações pelo pais afora. As gravadoras, que eram os intermediários que ficavam com a maior parte do dinheiro que circulava no negócio, ficaram de fora desta. Bandas mais novas, como Móveis Coloniais de Acaju e Graveola e o Lixo Polifônico são dois bons exemplos de bandas já nascidas nessa nova cultura, sem as amarras capitalistas das gravadoras tradicionais.   Este novo modelo deixa todo mundo mais feliz, consumidores e artistas, exceto é claro as grandes gravadoras, em situação cada vez pior.

O mesmo aconteceu com o software e o domínio da Microsoft. O movimento de pirataria ajudou a pressionar o surgimento do conceito de software livre, que é associado com a idéia de liberdade, e não de preço. Para entender melhor o conceito, “livre” deve ser entendido como relacionado com liberdade como em “liberdade de expressão” (free speech), e não como em “cerveja de graça”, no sentido de gratuito. O Linux e sua evolução obrigaram a uma revisão de conceitos tanto da Microsoft que mantinha o monopólio dos sistemas operacionais para microcomputadores, quanto do conceito capitalista de comercialização do software e direitos associados. Hoje, ninguém mais é obrigado a pagar pelo software, temos opções free muito boas e competitivas (vejam o sitio SourceForge), e está vindo ai o sistema operacional do Google, prometido para esse ano de 2010. O movimento de pirataria, mais uma vez, obrigou a mudança no modelo de lucro exagerado, partindo para um modelo mais cooperativo, mais socializado, mais ganha-ganha.

E aqui no Brasil, temos alguma coisa nesse rumo? Claro que sim, desde os baile funk e a própria música funk citados explicitamente no livro, até o cada vez mais famoso e conhecido Tecnobrega paraense (desculpem o link para a wikipedia em ingles, o artigo em português é minimo e não tem informação nenhuma) um movimento de música surgido em Belém do Pará. O sitio Bregapop tem de tudo, de todos os estilos musicais do tecnobrega, com as músicas para baixar livremente. A lógica do negócio é muito interessante: as bandas gravam o CD independente, produção caseira, fazem a copiagem e capas, e levam para as bancas e quiosques onde são vendidos por merreca, quase que só para pagar o preço da midia. O que interessa mesmo é a banda cair no gosto popular, e o povo lotar as apresentações e shows da banda. A banda Calypso é um exemplo muito bem sucedido do tecnobrega.

Tudo isso e mais uma organização impressionante de conceitos na minha cabeça, ganheir a partir da leitura do livro The pirate´s dilemma: how youth culture is reinventing capitalism, escrito por Matt Mason, um escritor, consultor e empreendedor inglês, editor da revista  underground RWD Magazine que é a grande divulgadora da denominada “música urbana”. Nem me lembro mais de onde peguei a dica desse livro, a leitura foi uma das mais instigantes dos últimos tempos, e o melhor: o livro é muito barato, edição descartável. Recomendo, e muito.

(este artigo foi escrito por zeluisbraga, e postado no meu blog zeluisbraga . wordpress . com) (this post is authored by zeluisbraga, published on zeluisbraga . wordpress . com)

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Consultor Independente, Treinamento Empresarial, Gerência de Projetos, Engenharia de Requisitos de Software, Inovação. Professor Titular Aposentado, Departamento de Informática, Universidade Federal de Viçosa, Minas Gerais, Brasil. Doutor em Informática, PUC-Rio, 1990. Pós-Doutoramento, University of Florida, 1998-1999

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Publicado em Dicas, Economia, Inovação, Livros
6 comentários em “Pirataria: mudanças no capitalismo
  1. […] This post was mentioned on Twitter by José Luis Braga, andrielefr. andrielefr said: @zeluisbraga Bacana Zé! Gostei do último texto do blog. http://bit.ly/aZc7l7 […]

  2. Paulo Ganns disse:

    E aí Zé,

    Muito boa análise!

    Vamos ver como o movimento de destruição do capitalismo ortodoxo vai rolar em outras indústrias! Será que vai impactar nas farmácias? Nas bolsas? Na educação?

    Eu acredito que Gandhi sabia muito mais! Mais um pensamento dele:

    “Como defender uma civilização que somente o é de nome, já que representam o culto da brutalidade que existe em nós, o culto da matéria!”

    []s

    Paulo Ganns Chaves

    • Sem duvida alguma, outras mudanças estão a caminho. O modelo baseado em ganho excessivo já caiu no chão, eles é que ainda não perceberam. Por exemplo, nos EUA o sistema de ensino superior está entrando em crise, porque não tem quem consiga pagar as altissimas taxas. Crise anunciada há um bom tempo. A indústria farmacêutica está no mesmo rumo, os ganhos são exorbitantes, na base de 7 dólares de ganho para cada dólar investido. abraço,

  3. Valter Lobo disse:

    Lendo o post lembrei do livro:
    Free o Futuro dos Preços – Chris Anderson ( mesmo auto A Cauda Longa) .

    Fala sobre a economia do grátis principalmente de coisas com o custo de distribuição muito baixo. O livro conta a historia do ‘modelo de negócios’ da Banda Calypso.A competição do linux com o windows e diversos modelos de negócios grátis, ate mesmo uma loja com produtos grátis. A partir deste livro começei a enteder mais sobre o como o google ganha dinheiro .. empresa de entretenimento como a rede globo que vende publicidade, na Rede globo temos programas de tv grátis finaciado por anuciantes que pagam a publicidade no Google temos software/informação e com os anuciantes pagando a publicidade.

  4. railer disse:

    lembro de ler um artigo na pós-graduação sobre a banca calypso e essa estratégia de marketing de experiência, criando um burburinho antes, vendendo cds a preços ínfimos para depois lotar os show e ganhar com isso, com a performance ao vivo.

    quero saber mais sobre essa creative commons.

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