Individualismo

Como pedestre convicto que sou, tenho o privilégio de poder observar calma e tranquilamente comportamentos, ações, reações, respeitos e desrespeitos das pessoas durante minhas andanças. Principalmente no trajeto de casa para a UFV e vice-versa, duas a quatro vezes por dia, todos os dias da semana. Fatos e ocorrências que também vejo em outros locais por onde consigo andar a pé, não é nada exclusivo de Viçosa ou da UFV. O que já posso dizer dessa experiência “social”  é, pelo menos, que estamos vivendo uma época do individualismo exagerado e sem limites.

Motoristas avançam de qualquer maneira, cada um no seu carro, forçam passagem onde não há como passar, tomando o espaço dos mais fracos que são pedestres e ciclistas que existem em muito maior número. Ciclistas que passam entre os carros de qualquer maneira, ou simplesmente descem das bicicletas e vão empurrando as mesmas por cima das calçadas de pedestres (quer dizer, antigamente as calçadas eram para os pedestres) em um espaço em que mal cabem três pedestres um ao lado do outro; motoqueiros que forçam a passagem de qualquer maneira na rua, por cima das calçadas, por entre os pedestres, na contra-mão, ultrapassam pela direita onde o motorista não tem a menor condição de ver que tem alguma peste ultrapassando; pedestres que agora andam pelo meio da rua mesmo, porque o espaço nas calçadas não existe e ainda tem que ser disputado com bicicletas, cachorros, pessoas conversando paradas e em grupos sem o menor constrangimento de obstruirem a passagem; motoristas que estacionam seus carros em vagas reservadas exclusivamente para deficientes, sem o menor constrangimento e ainda têm reação violenta quando alguém fala alguma coisa; motoristas que estacionam por cima das calçadas usando o argumento de que não há vaga para ele estacionar, como se estados e municipios fossem obrigados a prover vagas para todo mundo que compra um carro; fumantes que fazem questão de desrespeitar a lei, e vamos por ai afora, a lista é interminável.

O episódio do cidadão enfurecido que atropelou um monte de ciclistas em Porto Alegre  em fevereiro de 2011 pode ser considerado um outro exemplo extremo de individualismo. Ciclistas fazendo sua manifestação pacificamente, cidadão querendo passar, discute com os ciclistas, a conversa deve ter esquentado o ritmo, e a reação foi avançar com o carro por cima dos ciclistas, atropelando pelo menos 16, felizmente sem vitimas fatais.  Independente de julgamentos de quem tem ou não tem razão, a reação do motorista é completamente desproporcional ao tamanho do problema.  É o mesmo que atropelar um pedestre porque ele está atravessando a rua fora da faixa, ou dar um tiro em alguém por causa de um esbarrão sem importância numa rua lotada de gente. E já estamos chegando lá…

Claro, alguém vai comentar logo ai abaixo, não temos fiscalização, a polícia não aparece, por isso acontecem os exageros. Correto, mas independentemente de o estado conseguir prover essa segurança nesse nivel individual (o que no meu entendimento é impossivel acontecer), o maior problema está mesmo no ser humano e no individualimo exagerado a que chegamos. O interessante é que as pessoas não conseguem pensar eticamente, nunca se colocam no lugar do outro. Será que o motorista que atropelou os ciclistas pensou em algum momento que o filho dele, que estava dentro do carro, poderia estar na rua com os ciclistas? Será que o motoqueiro que passa por cima da calçada para resolver o problema dele e atropela algum pedestre imagina que aquele atropelado poderia ser a mãe dele?

Comparando com a teoria do big-bang de formação do universo, me parece que estamos vivendo um periodo de expansão exagerada do individualismo, que quando atingir seu limite, vai ocasionar a movimentação no sentido contrário que é aglutinação, e voltaremos  a uma fase de desvalorização do individual em favor dos agrupamentos, e da valorização da familia e da vida familiar como fatores de educação, ética e respeito por nossos semelhantes.  Se é que a humanidade vai conseguir chegar até lá sem se auto-destruir antes…

(este artigo foi escrito por zeluisbraga, e postado no meu blog zeluisbraga . wordpress . com) (this post is authored by zeluisbraga, published on zeluisbraga . wordpress . com)

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Consultor Independente, Treinamento Empresarial, Gerência de Projetos, Engenharia de Requisitos de Software, Inovação. Professor Titular Aposentado, Departamento de Informática, Universidade Federal de Viçosa, Minas Gerais, Brasil. Doutor em Informática, PUC-Rio, 1990. Pós-Doutoramento, University of Florida, 1998-1999

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Publicado em Educação, Social, ZeRaivoso
11 comentários em “Individualismo
  1. Daniella disse:

    Excelente texto, Zé. Eu vivo falando isso aqui em Lafaiete. As pessoas perderam o respeito pelo próximo e só pensam em si mesmas.
    Esses problemas que você relatou são muito comuns aqui em Lafaiete. Eu comprei um carro há um ano e meio e quase sempre as pessoas me veem a pé por aí.
    Não é que eu não goste de dirigir, eu não gosto de dirigir na minha cidade, no meio de tanto estresse. E eu que já tenho tanto motivos pra me estressar, por que criar mais um dirigindo no meio de tantos “mautoristas”?
    Vou mencionar esse post no meu blog, se você deixar. Acho que todos deveriam ler e repensar suas atitudes.

    • eu já abandonei o carro tem tempos. só uso para viajar, vou de uma garagem até a outra garagem e vice-versa. sempre a pé, ou de busão, ou de taxi… zero de estresse por causa de trânsito, e vou me divertindo com as ignorâncias que vejo o tempo todo. vamos voltar a idade da pedra, andando de tacape na mão e dando marretada nos outros no meio da rua, pode apostar.

  2. Zé, a coisa tá feia mesmo. Aqui no BR, ou se investe pesado no transporte público para desatar uns nós, ou o trânsito aqui vai parecer o da Índia em breve. Talvez com menos vacas nas ruas.

  3. Jacson disse:

    Oi Zé,
    eu acho que está faltando é família, melhor dizendo, pais com tempo de cuidar de seus filhos. Também falta religião, para dar os limites que cada um, interiormente, pede para ter.
    Sei que não se generaliza… mas falta um pouco de humanidade, de fazer algo de bom para o outro sem interesse próprio. Ou melhor, somente pelo interesse de se sentir melhor.

    abraços

  4. Ivo Santiago disse:

    Olha Zé eu sou um dos Brazukas que vejo por aqui mais orgulhosos do país que tem. Temos, óbvio, muitos problemas mas somos muito bons em muita coisa! Infelizmente quanto a esse tema eu acho que temos muito a aprender com o povo do lado de cá do atlântico. Em matéria de educação eles dão um show. Tem as pessoas que não estão nem aí pra nada e saem esbarrando/empurrando/atropelando todo mundo mas tem muito mais gente educada. Ao que parece é um questão de “educação de berço”. Meus pais sempre me ensinaram a ceder espaço pros mais velhos e pros mais apressadinhos numa boa, por exemplo. Talvez se as pessoas pensassem mais nos exemplos que estão dando para os filhos daqui a 20, 30 ou 40 anos as coisas melhores (vide a diminuição da criminalidade nos EUA 20 anos depois de legalizarem o aborto…)

    É algo a se pensar

    • Em particular ai na Irlanda, o povo é muito religioso, preza a familia e as tradições irlandesas. Andei muito por ai, e aprendi a admirar o povo irlandes. Nunca vi tanta educação e tanta simpatia assim, a gente se sentiu em casa, bem-vindos na terra deles. Não gosto de comparações porque os valores são diferentes, culturas diferentes, mas infelizmente, não há como não comparar. Assista ao filme Leap Year (Casa Comigo), todo ambientado na Irlanda tradicional, na cultura deles, muito bom e muito interessante.

  5. Carolina Moreira de Paula disse:

    Zé, refletir sobre esse tema tem me deixado triste…
    Outro dia estava lendo um texto do Cortela, em que ele define ética da seguinte forma: “A ética é, antes de mais nada, a capacidade de protegermos a dignidade da vida coletiva. Afinal de contas, nós, homens e mulheres, vivemos juntos. Aliás, para seres humanos, não existe vivência, existe apenas convivência. Nós só somos humanos com outros humanos. A nossa humanidade é compartilhada. Ser humando é ser junto. Isso significa que é preciso que saibamos que a nossa convivência exige uma noção especial da nossa igualdade de existência, o que nos obriga a afastar do ponto de partida qualquer forma de arrogância”.

    Em resumo, se somos individualistas a tendência é sejamos anti-éticos, desrespeitosos com o próximos, intolerantes, arrogantes… é preciso refletirmos sobre nossas atitudes no dia a dia e, principalmente, pensarmos que tipo de comportamento iremos ensinar para nossos filhos no sentido de sair desse ciclo vicioso… como alguém aí pra cima disse, temos buscar o que há de bom com o pessoal do outro lado do atlantico, reconhecendo que somos um povo que temos muito a melhorar nesse quesito… aprender a olhar para o outro como o outro…!

    • É isso, Carol. O que estamos assistindo é o rompimento dos valores de humanidade, da convivência. Vai funcionar como na teoria big-bang da formação do universo. Só que o bang está ainda em andamento, estamos longe do movimento de aglutinação, se é que a humanidade vai chegar até lá.

  6. railer disse:

    concordo com tudo que você escreveu. além de pedestre, sou corredor, e não tem coisa mais chata do que o grupinho conversando na pista de corrida, vendo você se aproximar e não dando a mínima. já teve caso de eu passar no meio e ainda falo alto ‘licença!’.

    realmente a melhor solução seria se colocar no lugar do outro, mas acho que muita gente tem dificuldade de fazer este exercício.

  7. Salles disse:

    Zé,
    Acho engraçado (trágico) que, quando mudei para Viçosa, achava que a cidade possuía um dos trânsitos mais educados (todos motoristas respeitavam a lei e paravam na faixa para os pedestres, etc..).
    Hoje em dia acho que a situação aqui está piorando muito. Já vi carro ESTACIONADO na rotatória da Caixa Econômica da UFV (tirei até foto quando vi 🙂 ), muito carro estacionado na UFV em lugar onde é proibido até mesmo parar ( basta ligar o pisca alerta que pode estacionar 🙂 ), poucos motoristas dando preferência para o pedestre na faixa , etc.

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