Aula da saudade, janeiro de 2012: Vãos, abismos e becos sem saída

Em janeiro não tem jeito, é diploma na mão e saudade no peito

As redes sociais tendem a se tornar cada vez mais presentes, aglomerando mais pessoas e se expandindo além das fronteiras físicas tradicionais. Aqui, estou me referindo a redes sociais de fato, independentes dos meios como serão habilitadas (Facebook, Twitter, Linkedin, redes de telefonia celular, etc. são habilitadores).  Redes sociais devem ser entendidas com  organização plana, democráticas, que crescem sem controle e não admitem linha de comando e de mando, favorecendo a colaboração, a inovação e a criatividade. Em oposição às hierarquias a que nos acostumamos no nosso mundo, presentes nas grandes organizações tanto públicas quanto privadas, em particular na estrutura das escolas que são responsáveis pela formação de todos nós. Sim, vivemos em um mundo de hierarquias, em que cada um tem um papel definido pela sua posição na hierarquia, e deve se comportar e até pensar de acordo com o que preconiza a hierarquia e seus níveis mais altos, o que tende a impedir ou dificultar as atitudes e pensamentos inovadores, disseminação de novas ideias, colaboração entre grupos.

Neste mundo futuro próximo que já se configura e no qual vocês vão estar fortemente inseridos, as atitudes devem ser de independência: auto-aprendizado substituindo o aprendizado tradicional em que o professor passa o conhecimento para o aluno (conceito que se estende a todas as hierarquias que conhecemos); empreendedorismo, espirito empreendedor, proatividade acima de tudo; inovação sempre que possível; saber desistir na hora certa; saber insistir no que vale a pena insistir; saber enxergar abismos e becos sem saida e desistir na hora certa; saber insistir no aprendizado sem desistir por qualquer motivo.

Seth Godin, em seu livro O melhor do mundo(The Dip), usa três curvas para expor atitudes e situações comuns no nosso dia, vejam na figura ao lado. Por exemplo, O  ABISMO é representado por uma curva em que algum momento, entra-se no buraco sem fundo e sem volta. Situações típicas citadas no livro são as relativas a vícios ou

Vão, beco sem saida, abismo

excessos de modo geral: bebida, cigarro, drogas, etc. Mas, para a vida real, há muitos outros vícios que podem nos empurrar para abismos, como por exemplo opções anti-sociais que tendem a levar a pessoa a um isolamento total, o que em algum momento vai significar abismo.  Já o BECO SEM SAIDA representa a situação em que insistimos em continuar com atitudes ou ações que não nos levam a lugar nenhum, e não conseguimos enxergar que estamos num beco sem saida, “trabalha, trabalha e nada muda”. Ambas as curvas representam situações do nosso cotidiano, que temos que saber enxergar e, mais que isso, saber tomar a decisão de desistir no momento adequado. Há uma grande dificuldade ai, pois nossa cultura ocidental que gosta de dualidades como certo-errado, bom-mau, bem-mal, é contra o fracasso, normalmente associado com a desistência que automaticamente nos joga para o lado negro da força. E nossa tendência é insistir mais e mais no erro por uma questão cultural, para não ter que assumir publicamente que desistimos de alguma coisa. Não sabemos lidar com o fracasso, infelizmente, mas temos que aprender a fazer isso.

O VÃO é a curva que todos vocês conhecem de sobra, que usamos nas aulas principalmente de Engenharia de Software e que denominamos “curva de aprendizagem”. Ela representa  a situação que vivemos ao longo de toda a vida, que é a de aprendizado continuo, de melhoria permanente, como exige a própria vida. Saimos de um nível de conhecimento ou experiência confortável e partimos para um aprendizado ou experiência nova. Num primeiro momento, quando entramos na parte baixa da curva que costumamos chamar de vale do desespero, ficamos com a sensação de incompetência, porque não conseguimos fazer mais nada do jeito antigo, e ainda não temos  habilidade com as novas técnicas ou conhecimentos. Esse é o momento do maior risco, pois o ser humano tende a desistir no meio do vale do desespero, quando normalmente não é o momento de desistir, ao contrário, seria momento de continuar insistindo. A menos, é claro, que se perceba estar entrando em um beco sem saida ou então num abismo, e ai sim, o passo correto é desistir. Por exemplo, aprender a tocar violão do jeito certo pois normalmente a gente toca um violão de buteco, aprendido com amigos, usando cifras e com um tipo de batida com poucas variações, umas três ou quatro batidas no máximo. E quando a gente começa a aprender mais formalmente, bate o  desespero total: aquelas músicas que a gente sabia tocar estavam todas “erradas”, a batida que sabiamos está uma porcaria, mas ainda não temos habilidade com o jeito certo, e caimos numa região em que momentaneamente a gente perde a competência. O mesmo acontece nos esportes, do tênis eu posso falar por experiência própria, seu aprendizado tem vários vales do desespero.

Na sociedade em rede, o aprendizado contínuo via a própria rede e independente dos meios tradicionais em bancos de escolas de qualquer nivel, vai nos colocar permanentemente lidando com o vão. E não será nunca algo como “saí de um vão, agora posso entrar em outro vão”, os caminhos do aprendizado em rede não são em cascata, sequenciais, um depois do outro. O aprendizado também ocorre em rede, a gente vai pulando de um lado para outro seguindo as indicações dos links que nos levam pelos caminhos que nós mesmos vamos escolher. Ou seja, estaremos sempre multi-aprendendo, pelas interligações.

Essa é minha mensagem para vocês. Agradeço demais o convite para proferir essa Aula da Saudade que é sempre uma distinção que recebo com muita alegria. Ainda mais desta turma, que também me honra como Professor Homenageado, recebo duas homenagens com enorme satisfação e gratidão. Um detalhe: talvez seja minha última aula da saudade pois, como vocês sabem, minha aposentadoria vai acontecer em breve.

Referências

Linked, O mundo é planoEconomia da colaboração: Wikinomics,

-Esta aula da saudade foi parcialmente inspirada no livro comentado na postagem Vale do desespero ou beco sem saida?  e no livro FLUZZ, do Augusto de Franco, que pode ser baixado free no site da Escola de Redes.

-Não produzi transparências para essa aula da saudade.

(este artigo foi escrito por zeluisbraga, e postado no meu blog zeluisbraga . wordpress . com) (this post is authored by zeluisbraga, published on zeluisbraga . wordpress . com)

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Consultor Independente, Treinamento Empresarial, Gerência de Projetos, Engenharia de Requisitos de Software, Inovação. Professor Titular Aposentado, Departamento de Informática, Universidade Federal de Viçosa, Minas Gerais, Brasil. Doutor em Informática, PUC-Rio, 1990. Pós-Doutoramento, University of Florida, 1998-1999

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Publicado em Educação, Empreendedorismo, Redes sociais
7 comentários em “Aula da saudade, janeiro de 2012: Vãos, abismos e becos sem saída
  1. railerr disse:

    gostei muito do texto. ótima mensagem. deve ter sido bacana essa aula da saudade.

    sucesso pra galera que tá se formando e espero continuar lendo bons textos aqui mesmo depois da aposentadoria, hein!

  2. Renato disse:

    Muito boa sua aula Zé, como sempre! Deu até vontade de estar aí participando …
    Espero que sua aposentadoria demore mais bastante tempo.rsrs
    Abraços.

  3. Eu estava nessa aula, três anos depois estas reflexões se encaixaram muito bem. Me vejo em alguns becos sem saída e em muitos vãos. Vou relembrar a turma. Abç Zé!

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