Des-Educação?

Um final de semana recente, estava numa tarde de feriado estacionando o carro no Boulevard Shopping, em BH. No nível G1 que estava aberto, fui procurar minha vaga lá adiante, pois as vagas mais próximas da entrada desse nivel eram para idosos (eu estou quase me qualificando a ocupar uma delas…), e outras eram para portadores de necessidades especiais. Pois não é que, quando voltamos para entrar no shopping, vem um infeliz e estaciona na primeira vaga de frente, reservada para idoso! De repente aparece um vigilante interno do estacionamento, circulando de moto, e o motorista desliga o carro, espera o vigilante passar, em seguida acerta o carro na vaga, e sai com a namorada tranquila e espertamente. Garoto novo, talvez uns 22 anos, acho que tem futuro no nosso mundo de espertos.

Em seguida, entramos no shopping e fui comprar umas miudezas numa loja. Peguei o que eu precisava (proteção de feltro para pé de cadeira), esperei o comprador que estava à minha frente pagar a conta dele, e fui para o balcão exíguo onde só cabe um cliente de cada vez. Estava pagando, e me entra uma jovem senhora acompanhada aparentemente da mãe dela,  e colada no meu ouvido esquerdo e quase montada no meu ombro, começa a falar com a caixa que estava fechando minha conta. Claro, tomei um susto danado, se não fosse meu betabloqueador diário, eu teria apelado na hora. Pois aquela já era a segunda grosseria gratuita em menos de meia hora no shopping.

downloadDepois fui me lembrando das espertezas que tinha presenciado em uma viagem naquela mesma semana. A tal da bagagem de bordo, aqui no Brasil, é a coisa mais falida que já vi. Claro que há limites impostos pelas regras de aviação civil e que se aplicam no mundo todo: 5kg para vôos nacionais e 10kg para vôos internacionais, além das medidas de altura, largura e profundidade. Como por aqui  as companhias aéreas não verificam essas bagagens, quem cumpre a regra mais uma vez acaba sendo o errado da estória (como é o nosso caso). No vôo Guarulhos-Confins, uma passageira me entra com uma mala que não cabe nem em portamalas de carro pequeno, e literalmente enfia essa mala no bagageiro, e quase quebra a tampa do mesmo. Avaliando assim no olho, seguramente aquela mala dela tinha mais de 15kg. E a minha mala é de bordo, e foi despachada porque estava com pouco mais de 10kg, porque eu insisto em cumprir as regras. Claro, lá fora os limites são respeitados, as companhias aéreas têm um gabarito, a bagagem de bordo tem que caber nesse gabarito, senão o passageiro tem a opção de despachar essa bagagem, ou então esvaziá-la ali mesmo, no chão, até que ela esteja no padrão de peso. E essa verificação é feita com todo mundo, não adianta resmungar nem espernear nem apresentar a carteira de autoridade…

E ai fui me lembrando de outras espertezas diárias. Por exemplo, as vagas de estacionamento para portadores de deficiência e a outra para idosos, disponíveis no estacionamento do supermercado da Funarbe aqui na UFV, estão constantemente ocupadas por carros de motoristas que são apenas espertos. E que brigam prá valer (já aconteceu várias vezes) se qualquer pessoa fizer qualquer comentário contra. Já houve um caso recente, em que um portador de necessidade especial precisou da vaga, e ela estava ocupada. Como o carro que estava na vaga não tinha a identificação que é obrigatória pelo código nacional de trânsito, o legitimo usuário da vaga ficou muito puto e estacionou o carro dele atrás, e largou lá. E o que o dono do carro que estava errado na vaga fez? Subiu com o carro no meio-fio, saindo por cima da calçada, e o outro carro ficou lá, estacionado completamente errado. Quem viu a cena depois, achou uma maluquice total, um carro estacionado atrás de uma vaga que não tinha carro nenhum nela… Como não há fiscalização, o cidadão acaba tendo que se expor desnecessariamente para tentar fazer valer seus direitos.

Eu sinceramente já desisti de tentar entender o ser humano, e nessas situações menos ainda. Quem conseguiu ler até aqui pode até levantar a hipótese de que não temos fiscalização e que a certeza da impunidade é que faz o cidadão ser espertalhão, no mundo todo. Claro, esse é um dos pontos, mas não é o mais grave. Para mim o mais grave é que os seres humanos não sabem mais viver em sociedade, estamos numa marcha rápida para uma sociedade do individualismo, em que cada um faz o que acha melhor sem se preocupar com regras, leis e com quem está do outro lado. E parece que o cidadão sente uma tremenda raiva do estado e das leis, e quanto mais ele puder desrespeitar o estado e seus representantes, melhor ele se sente. Passem a observar com atenção, e vocês vão se assustar.

Atualização 23/05/2012 – Ontem aconteceu uma coisa estranha, que tenho que relatar aqui. Estava no caixa do supermercado da Funarbe, 13h30m, entrei na fila do caixa rápido, atrás de mim tinha outra pessoa, um jovem, possivelmente um estudante da UFV. De repente o caixa do lado vagou e estava vazio, e o que o rapaz atrás de mim fez? bateu no meu ombro e me indicou o caixa vago, respeitando a fila. Incrível, mas vez por outra essas coisas acontecem. Ele fez exatamente o contrário do que os espertos fariam… Foi estranho ou não foi?

(este artigo foi escrito por zeluisbraga, e postado no meu blog zeluisbraga . wordpress . com) (this post is authored by zeluisbraga, published on zeluisbraga . wordpress . com)

Consultor Independente, Treinamento Empresarial, Gerência de Projetos, Engenharia de Requisitos de Software, Inovação. Professor Titular Aposentado, Departamento de Informática, Universidade Federal de Viçosa, Minas Gerais, Brasil. Doutor em Informática, PUC-Rio, 1990. Pós-Doutoramento, University of Florida, 1998-1999

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Publicado em Reflexões, Social, ZeRaivoso
12 comentários em “Des-Educação?
  1. Zé, ótima postagem. É triste presenciar à falta de educação de muitos, principalmente dos jovens de hoje em dia. Na fila do RU para comer, para pegar o suco, todos furão a fila. Tremenda falta de educação, muitos falam que os nordestinos são mal educado, mas aqui em viçosa vejo tanta coisa, e eu como um cearense nato, não faria. Quando estava de mudança para viçosa, tinha uma mala menor, achei que poderia embarcar com ela, a mulher pesou e deu 11kg, eu paguei 140R$ pelo excesso, quando entrei no avião, tinha pessoas que o excesso de bagagem era bem maior, fiquei super chateado, assim como fico com aqueles que furão fila, não respeita vagas de estacionamento (muitos colocam o carro ocupando duas vagas), entre outras.

  2. Juninho disse:

    Outro dia vimos um espertão desses pegando a vaga para idosos no Minas Shopping. Com o filho pequeno e mulher juntos. Ela também é safada porque concorda. Os dois dando o bom exemplo pro filho. Depois, as pessoas vem dizer que é culpa da juventude. Mas quem criou e educou a juventude foram os adultos e idosos de hoje. E ninguém ganha uma carteirinha de isenção de responsabilidade quando se torna idoso. Bom, nesse caso do Minas shopping a gente procurou o vigilante e mostrou. Ele disse que não podia fazer muita coisa. Ficou por isso mesmo. Se bobear a gente sai como chatos e frescos numa situação dessas. Eu não acredito que veremos o Brasil mudar isso não. E nem meus filhos e netos.

  3. juliaobraga disse:

    Zé, os jovens estão ilustrando suas vidas vendo os membros do Brasil público fazerem-nos, a todos, inclusive eles, engenhos de engonço (cansei-me da palavra imbecil, que ficou extremamente vulgar). Como está a Erenice Guerra? Olhe a CPI do Cachoeira! E o impacto da confusão de personalidade do senador Demosténes? Etc., etc., etc., …
    Tá danado, companheiro.

  4. levi disse:

    Infelizmente a nossa des-educação é uma marca cultural. Mas eu tenho fé que vamos conseguir mudar!

  5. Marcio Molica disse:

    Realmente enquanto nação nós deixamos muito a desejar, mas estamos melhorando. É lento mas vejo pessoas em BH recolhendo as fezes dos seus pets nas ruas, em alguns pontos de ônibus existem filas, mesmo no trânsito existem pessoas educadas (acredito que estas estão aumentando). Minha visão é positiva, pena que a velocidade do avanço é muito lenta. Também com os péssimos exemplos dos governantes, das elites e da mídia associado a um sistema educacional falido a coisa não poderia ser diferente mesmo. O fato de ter pessoas discutindo esse assunto em um blog já é indicador de um avanço.

  6. Lucas Vegi disse:

    Excelente postagem Zé.
    Infelizmente é a mais pura verdade… O mais triste disso tudo é que geralmente quem age certo no meio de um bando de pessoas erradas, acaba sendo motivo de chacota e sendo ainda mais desrespeitado. Boa parte disso sem dúvida é cultural, mas realmente estamos em níveis preocupantes. Podemos observar pra todo lado na sociedade que vemos esses espertalhões, seja estacionando em vaga de deficiente, ou elegendo-se na política para representar o povo e enriquecendo as custas dele. A impressão que tenho é que o nível de des-educação é proporcional à idade, quanto mais novo é o indivíduo, mais “deseducado” ele é.
    Posso estar pensando errado, mas vejo isso como sendo um problema de berço. A vida acelerada de hoje em dia não esta permitindo as famílias educarem seus filhos adequadamente. Muitas crianças, desde pequenas passam muito mais tempo com as babas do que com os pais. Mesmo sendo um mal necessário para a maioria das famílias de hoje, acredito que surte muitos efeitos negativos na formação dessas crianças, que acabam crescendo sem noção nenhuma do que significa ter limites.

    • sem dúvida, Lucas, uma razão forte é o berço. não temos dados para afirmar isso, mas com pai e mãe fora de casa para ganhar o suficiente para sobreviver e poder dar um futuro aos filhos, o básico fica esquecido. abraço,

  7. railer disse:

    zé, eu observo muita coisa assim aqui no rio. o carioca já tem essa mania de ‘querer ser esperto’, o que complica muita coisa.
    ótima postagem. me fez lembrar uma ação publicitária que fizeram sobre esse lance das vagas para cadeirantes. dá uma olhada aqui:
    http://www.brainstorm9.com.br/22132/advertising/esta-vaga-nao-e-sua-nem-por-um-minuto/

  8. Tathiana marim disse:

    Zé, perfeito seu post. O entendimento proposto vale, não somente, para observarmos os outros mas, também, nossas próprias atitudes em relação a estes tipos de situações, devemos nos policiarmos no intuito de melhoramos.

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