Maturidade em processos em órgãos públicos?

Em 2009 iniciamos a primeira implementação mpsBR nivel G nas empresas do APL-Ti-Viçosa (Arranjo Produtivo Local em Ti), terminada com sucesso na empresa Cientec, em 2010. Na verdade, esse processo começou bem antes, em 2007, com um trabalho de dissertação de Mestrado em Computação de um aluno meu orientado, focado nas mesmas empresas. Na época, a qualificação mpsBR ainda estava meio longe para as empresas daqui, e começamos uma preparação bem inicial, palestras sobre mpsBR e sobre Engenharia de Software, mostrando os possiveis caminhos iniciais que as empresas poderiam seguir, com baixo investimento, para irem melhorando a qualidade e competência em desenvolvimento de software. Tudo incentivado pelo Paulo Márcio de Freitas, da Cientec, envolvido com a Agência de Desenvolvimento de Viçosa, em um projeto financiado pelo SEBRAE-MG.

Naquela época, comecei a pensar no desafio de qualificar a antiga CPD – Central de Processamento de Dados da UFV, hoje DTI – Diretoria de Tecnologia da Informação, na sua DSI – Divisão de Sistemas de Informação, que é onde os sistemas administrativos da UFV são produzidos. Conversas iniciadas com analistas e projetistas de lá, preparei um curso mais longo para a equipe de desenvolvimento, focado em processos, melhoria de processos, gerência de projetos e gerência de requisitos. Claro, inicialmente, o curso assustou mais do que animou a turma de lá, mas valeu a pena, foi um primeiro passo indispensável para provocar o inicio da mudança, que é lenta em qualquer lugar, mas em se tratando de órgão público, tende a ser mais lenta e mais cheia de curvas.  Um detalhe interessante é que boa parte dos colaboradores da DTI se formaram em Ciência da Computação no DPI-Departamento de Informática da UFV, e foram meus alunos em Engenharia de Software e Sistemas de Informação. Alguns fizeram também o Mestrado em Computação no DPI, tornando o terreno ainda mais fértil para vôos mais desafiadores.

roadahead Esse preparativo teve efeitos interessantes, pois a DSI decidiu que iam em algum momento entrar nos grupos de implementação preparados pelo CCOMP-Centro de Competência em mpsBR e CMMI da FUMSOFT, e alguns analistas de lá arregaçaram as mangas e começamos o processo de mudança. Criando processos, cultura de processos, artefatos, adotando boas práticas de desenvolvimento, disseminando e discutindo boas práticas para ir provocando o inicio do processo de mudança. Muito bem, em Maio de 2011, finalmente, depois de negociações e um apoio pesado da Reitoria da UFV, a DSI entrou no grupo G8 de implementação, focando no nivel G. Dai para cá, 15 meses depois, umas 2500 horas de trabalho segundo as contas da Margareth Machado Duarte e Pollyanna Lopes Mota, consultorias mensais com o Alex Prado da Fumsoft, e consultorias semanais de 2 horas cada comigo, o resultado final: aprovação no nível G do mpsBR, sem necessidade de avaliação final, tudo resolvido na avaliação inicial feita pelos consultores externos, vindos de Campinas-SP. Aprovação válida por três anos, até 2015, quando será necessário fazer outra avaliação, ou então tentarmos subir para o nivel F, outro enorme desafio.

Com isso, a DSI passou a fazer parte de um seleto grupo de órgãos públicos que podem ostentar o selo de qualidade mpsBR nivel G, coisa rara. Porque, infelizmente, a ideia geral é a de que órgão público é desorganizado, formado por pessoas que com o tempo ficam indolentes, sem vontade de ir adiante numa carreira mal remunerada e que apresenta poucos desafios à inteligência. Não é isso? Claro que não, ficou demonstrado com esse enorme esforço e resultado final exatamente o contrário. Na verdade as pessoas querem sempre mudar, basta um desafio novo bem conduzido, e um processo de preparação e convencimento adequados, que as pessoas respondem. O ser humano é movido a desafios, acabou o desafio, a gente se acomoda mesmo. Certamente a implementação em órgãos públicos apresenta mais desafios, há mais particularidades e emperramentos, que têm que ser resolvidos passo a passo, não existe uma linha de mando como nas empresas privadas. O amadurecimento em processos é obtido sempre com um longo processo de convencimento, discussões e mais discussões, comunicações muito bem organizadas e no momento certo, fundamentais para os colaboradores nunca se sentirem excluidos.

Foi gratificante ter participado deste esforço, que acabou contagiando os demais setores da DTI. Hoje a Michelini Lopes da Mota, Diretora da DTI, já pensa em implementar processos de qualidade de serviços em alguns desses setores, já até temos um início tímido. Mas, foi assim mesmo que começou com o mpsBR, esforço tímido, estudos, e muito trabalho. Parabéns a todos os envolvidos, principalmente às meninas do SEPG, Margareth e Pollyanna, que lideraram o processo apoiadas sem restrições pela Michelini. Para mim, que sou funcionário público federal e professor da UFV há 36 anos, acostumado com o serviço público e seus altos e baixos, foi um aprendizado sem igual, escola nenhuma poderia me ensinar tanto em tão pouco tempo, foi quase outro doutorado prático. Com efeitos imediatos nas minhas disciplinas e salas de aula, em benefício dos alunos que passaram pelas minhas aulas, que conseguiram manter o interesse pela Engenharia de Software.

Em breve, vamos publicar um artigo com os dados da implementação, para deixar como lições aprendidas para outras empresas e órgãos públicos. Já está estruturado, estávamos esperando a publicação do resultado oficial na página do Softex, para ser completado e publicado. (Nota: meu trabalho como implementador associado à Fumsoft via convênio de cooperação registrado e aprovado oficialmente com o DPI da UFV não foi remunerado por opção pessoal minha, doei meu tempo para esta nobre causa)

Notícia no UFV em Rede, 04/10/2012;

(este artigo foi escrito por zeluisbraga, e postado no meu blog zeluisbraga . wordpress . com) (this post is authored by zeluisbraga, published on zeluisbraga . wordpress . com)

Consultor Independente, Treinamento Empresarial, Gerência de Projetos, Engenharia de Requisitos de Software, Inovação. Professor Titular Aposentado, Departamento de Informática, Universidade Federal de Viçosa, Minas Gerais, Brasil. Doutor em Informática, PUC-Rio, 1990. Pós-Doutoramento, University of Florida, 1998-1999

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Publicado em Engenharia de Software, Reflexões
7 comentários em “Maturidade em processos em órgãos públicos?
  1. Bruno Dourado disse:

    Que legal….parabéns a todos os envolvidos…
    Já fiz um estagio no antigo CPD onde a chefe do grupo era a michelini…
    Fiz alguns amigos por lá….lá se vão 10 anos…

    Bruno Dourado – UFV 2000

  2. Parabéns, Zé e toda equipe do DTI. Muito bacana mesmo a iniciativa. E que continuem subindo os níveis até alcançar o A.🙂

  3. julio Cesar disse:

    Olá Zé,
    Parabéns pelo trabalho que executou aqui na DTI, e parabéns a todos os envolvidos no processo, principalmente a Pollyanna e a Margareth. E vamos que vamos tentar implentar o Nível F.🙂
    Abração!

  4. Evaldo Vilela disse:

    Parabéns, Zeluis, pelo belo trabalho, que nos da motivação para acreditar que eh possivel avancar!

  5. Léo disse:

    Oi Zé!

    Parabéns pelo trabalho! Quando o paper for publicado, avise-nos. Gostaria de conversar com mais calma com você sobre o assunto, que muito me interessa🙂

    Grande abraço,

    Léo

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