Empreendedorismo, inovação e as categorias de base

Aproveitando que estamos na Semana Global do Empreendedorismo, vou baixar mais uma postagem que está na cabeça há algum tempo, quieta no canto dela, esperando um momento para poder aparecer. Antes de mais nada, eu não acho nada fácil ser empreendedor, e acho mais difícil ainda ser inovador. Os dois temas estão intimamente ligados, embora um não seja consequência do outro: ser empreendedor não tem como consequência ser inovador, e vice-versa. Claro, um influencia o outro, mas não é uma relação de causa e efeito.  Já escrevi antes aqui no blog sobre a relação entre empreendedor e empresário, e também sobre as condições para que a inovação e empreendedorismo se desenvolvam.

Unicef – crianças e criatividade

Tenho visto muitas iniciativas aparecerem, mas o Brasil ainda está na rabeira da inovação, somos grandes importadores e usuários de tecnologia desenvolvida fora, com muito pouca coisa desenvolvida aqui. Recentemente é que o estado do Rio de Janeiro passou a investir fortemente em um Parque Tecnológico associado com a UFRJ, trazendo empresas e centros de pesquisa para cá, para promover a inovação. E  já temos também o exemplo do Recife na área de computação, com o Porto Digital e o CESAR, iniciativas em Minas (Inatel, UFJF, UFV, UFMG) e o Parque Tecnológico de BH. Em Viçosa-MG, temos o CENTEV-Parque Tecnológico de Viçosa  associado ao Centev-UFV.   Enfim, e finalmente, parece que estamos acordando e sendo sacudidos pela onda da inovação, baseado no fato inegável  da economia de que existe uma relação econômica muito forte entre inovação e desenvolvimento, que  são grandes impulsionadores da economia de um pais.

Bom, mas para apoiar essas iniciativas, precisamos da base, como também acontece no futebol com as categorias de base. Se elas não existem, não há como realimentar o time principal com novos talentos, que são necessários a cada ano e são responsáveis por fazer a roda girar. Do ponto de vista da inovação e empreendedorismo, as categorias de base estão nas universidades, faculdades e colégios, que geram os jovens talentos desde os primeiros momentos. Este tem sido nosso grande desafio: os parques tecnológicos estão ai, as condições estão lançadas, temos ainda timidamente os investidores em inovação e empreendedorismo, temos crowdsourcing, oportunidades e desafios tanto do ponto de vista global, quanto do ponto de vista interno ao pais. Mas, ainda não demos o passo fundamental, que é mudar o foco da educação que damos aos nossos alunos em todos os níveis, para uma educação voltada ao empreendedorismo, que promova nos jovens a capacidade de sonhar, de investir no sonho, de projetar seu sonho para o futuro e conseguir se enxergar realizando o sonho, que é o que impulsiona os empreendedores.

Neste ponto, estamos apanhando feio, pois nosso modelo de educação principalmente na universidade ainda é baseado em aulas expositivas, matéria passada em sala, quadro de giz, provas, avaliações, etc. O professor ainda é considerado passador de matéria e transferidor de conhecimento, ao invés de ser apenas um intermediário incentivador e direcionador das capacidades dos alunos.  E pior, não estamos conseguindo acompanhar os alunos, que hoje têm acesso rápido a informação e conteúdo de qualidade (se quiserem) disponivel na web. Um exemplo é a Khan Academy, que é muito criticada por alguns mas que, inegavelmente, está causando uma revolução na disponibilização de material de qualidade e gratuito,  via web. E está causando uma revolução, seguidores já estão aparecendo. Com isto, temos material disponivel à vontade na web, e com qualidade. Os alunos vão lá, aprendem sem precisar aparecer na sala de aula, e conseguem se virar sozinhos na maioria dos assuntos. E o papel do professor ainda não mudou, estamos tentando competir com tudo isso na sala de aula, levando uma enorme desvantagem.

Em um novo modelo de educação, o foco deveria ser na educação empreendedora, assunto já muito trabalhado por educadores ao redor do mundo, particularmente pelo prof. Fernando Dolabela com a sua Pedagogia Empreendedora, levando a semente do empreendedorismo para alunos do secundário. E ele chegou numa constatação interessante: essa semente pega mais rápido e encontra mais terreno fértil nas escolas públicas. De minha parte, como professor e quase saindo fora da universidade pública, já tentei vários modelos e tendências nas minhas aulas. O que funciona melhor com as novas gerações, é o modelo “fazer antes para aprender depois”: os alunos é que propõem o projeto para seu grupo, marco data para entrega de uma fase do desenvolvimento do projeto, falo muito pouco sobre ela em sala de aula, eles se viram para fazer como conseguirem, e na semana seguinte à da entrega, eu levo os trabalhos para a sala de aula, e discuto com cada grupo o que foi apresentado e o que deveria ter sido feito. E ai sim, repasso os assuntos relacionados com o tema, e o nivel de interesse e aprendizado aumenta assustadoramente. Em breve, postagem sobre esse modelo, estou devendo. Claro, isso não é invenção minha, o nome é PBL-Problem Based Learning, que é uma área na educação, e não entendo porque ainda não pegou por aqui…

(este artigo foi escrito por zeluisbraga, e postado no meu blog zeluisbraga . wordpress . com) (this post is authored by zeluisbraga, published on zeluisbraga . wordpress . com)

Anúncios

Consultor Independente, Treinamento Empresarial, Gerência de Projetos, Engenharia de Requisitos de Software, Inovação. Professor Titular Aposentado, Departamento de Informática, Universidade Federal de Viçosa, Minas Gerais, Brasil. Doutor em Informática, PUC-Rio, 1990. Pós-Doutoramento, University of Florida, 1998-1999

Marcado com:
Publicado em Empreendedorismo, Inovação, Reflexões
6 comentários em “Empreendedorismo, inovação e as categorias de base
  1. João Paulo disse:

    Excelente Zé Luis!
    Concordo plenamente com a questão da educação e os métodos ultrapassados de ensino. Vejo que se as universidades não abrirem os olhos e mudarem a forma como a informação é passada, em alguns anos a importância de uma universidade vai diminuir consideravelmente. A maioria das pessoas vão buscar seu próprio conhecimento, e a parte interessante disso, é que vão buscar só o que é mais relevante para a sua formação profissional.

    A parte ruim dessa história toda, é não ter tido a oportunidade de assistir suas aulas.

    Excelente post! Abraços.

  2. Jhoney Lopes disse:

    Sensacional!
    O mais difícil é conseguir disseminar essa cultura empreendedora, quebrar o medo de que se todo mundo for empreendedor todos serão empresários. Precisamos de empreendedores em todos os lugares, dentro de casa, no mercado privado em cargos públicos e principalmente empreendedores sociais.

    Um exemplo genial de utilização do PBL é o Olin College (http://www.olin.edu/)

    Se esperar que o governo faça alguma coisa, vai demorar muito, porque a visão fechada de dentro do sistema, não permite que eles vejam além. O único caminho para inovação é vir de fora do sistema.

    No mais parabéns pela postagem.

  3. Chico Neto disse:

    Zé, concordo com vc, não sei porque a metodologia PBL-Problem Based Learning ainda não pegou por aqui. Aguardo o post sobre o assunto. E outra, quais são os críticos da Khan Academy ? Eu acho uma iniciativa maravilhosa. Deveria ser apoiada pelo MEC, deveria ser incentivada dentro das salas de aula, nas empresas e nas residencias.

    Um Abraço

    Chico Neto

    • Já vi criticas do tipo que é tudo igual, as aulas são todas do mesmo jeito, que não constitui um verdadeiro aprendizado e sim um treinamento, etc. Mas, o que é inegável, é que funciona, e ajuda muita gente a aprender muita coisa. Com isso, eles vão passando por cima das criticas. Abraço, obrigado pela visita

  4. Paulo Sales disse:

    Excelente post Zé! Vou pesquisar melhor sobre o modelo PBL, achei interessante.
    Abraço.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: