Soluções paliativas e seu impacto sistêmico

sbEstou lendo The Necessary Revolution, (Ed. Doubleday, 2008), escrito pelo Peter Senge e colaboradores. Já conheço e uso muito em minhas disciplinas o A quinta disciplina, também do Peter Senge, obra que considero fundamental para começar a praticar o pensamento sistêmico.  Logo de cara, no primeiro capítulo do livro, aparece o famoso padrão decisório “shifting the burden” que pode ser entendido mais ou menos como “adiando a solução do problema”. Este é um dos padrões (archetype, arquétipo ou framework) de desvios que aparecem no comportamento de sistemas, causado por decisões reativas, em que o tomador de decisão resolve um sintoma do problema, sem focar na decisão sistêmica que de fato resolveria o problema definitivamente, ou pelo menos chegaria mais próximo de uma solução definitiva. Para entender melhor o padrão, vejam a explicação aqui. A notação utilizada é a de diagramas de influência, muito útil (eu diria indispensável) para ajudar a entender uma situação ou problema sistêmicamente, enxergando o contexto e as variáveis que causam impacto.

Na figura ai do lado, que tirei direto do site SystemThinking, as setas anotadas com “+” (cor azul) indicam variação no mesmo sentido: aumenta/diminui valor da variável na origem da seta, causa um aumento/diminuição no valor da variável da ponta da seta. As setas anotadas com “-“ (cor vermelha) indicam variação no sentido contrário (aumento/diminuição na variável da origem da seta, causam uma diminuição/aumento no valor da variável da ponta da seta). Vamos a um exemplo simples: você está com insônia (problem symptom) e resolve tomar pouco de vinho (symptomatic solution) para dormir (seta azul), o que dá resultado certamente (seta vermelha) diminuindo a insônia que é o sintoma, formando um laço ou loop de equilíbrio. Mas como a solução sistêmica que resolve o problema não foi adotada (fundamental solution), depois de algum tempo (reloginho indica atraso no tempo ou delay) o problema fundamental se manifesta novamente (seta azul indo de problem symptom para fundamental solution), exigindo mais solução paliativa (seta vermelha indo de fundamental solution para problem symptom), e ai você passa a tomar mais um pouco de vinho, o que melhora o sintoma novamente (outro laço de equilíbrio), mas causa uma piora no problema fundamental depois de algum tempo.

Com o passar do tempo o resultado é uma piora no seu estado, indicado pelo caminho lateral (side effect), representando um efeito colateral não esperado e não desejado, que é uma piora sistêmica pedindo mais solução fundamental, mas que é novamente resolvido com a solução paliativa. O efeito colateral não vem imediatamente, ele se manifesta depois de algum tempo, tendo impacto negativo exponencial no problema fundamental, é chamado de laço ou loop de reforço, representado pelo desenho de uma avalanche. Que também é um padrão em análise sistêmica, representado pelo diagrama abaixo. Esse efeito colateral leva à adoção de mais soluções paliativas e, com o passar do tempo, você pode se transformar em um alcoólatra, passa a tomar uma garrafa de vinho por dia, depois pode até passar para bebidas mais fortes, e assim por diante, e seu problema de insônia não se resolve. Atacando direto o problema fundamental de insônia, ele poderia ser resolvido mais direta e definitivamente com uma decisão sistêmica focada no problema real (até uma troca de travesseiro poderia ser uma solução definitiva), e você não correria o risco de sofrer com os efeitos colaterais de suas soluções paliativas. O efeito colateral é um laço de reforço que não se consegue equilibrar com soluções paliativas, que tem efeito de uma avalanche: piora o problema exponencialmente com o passar do tempo.

int06Bom, não é necessário procurar muito para achar esse padrão decisório por ai. Por exemplo, na recente isenção de IPI para os carros de passeio fabricados no Brasil (solução paliativa), favorecendo a indústria automobilistica nacional, houve um aumento nas vendas como esperado, e uma manutenção de empregos, gerando uma aparente melhora. Na data marcada para essa isenção terminar, o governo prorrogou sua validade até o final de dezembro/2012, mantendo a solução paliativa. Um efeito colateral observado e registrado pelos analistas econômicos: um monte de agências de carros usados fechou as portas, porque o preço do carro novo caiu muito, eliminando a vantagem de comprar um usado. E os estoques que eles tinham nas lojas foram depreciados imediatamente, causando prejuizos grandes e que a maioria das lojas não conseguiu absorver por não ter capital suficiente para tanto (vários empregos perdidos). Depois desse tempo todo de vigência da solução paliativa, certamente já houve acomodação na indústria que vai pressionar para que a isenção seja mantida por mais tempo, entrando no ciclo vicioso destrutivo. A solução paliativa causou um efeito colateral grave, que pode ter um custo que ultrapassa os benefícios visíveis da isenção do IPI (essa conta ninguém apresenta…). E qual é a solução fundamental? já provado em vários estudos aqui e lá fora, os carros produzidos e vendidos no Brasil são carissimos se comparados com os mesmos modelos vendidos lá fora, existe uma diferença de uns 15000 reais  e até mais, dependendo do modelo, que ninguém explica com quem é que fica. A solução definitiva tem que ser buscada ai, no alto preço final, e não na isenção de IPI isoladamente (poderia até ser adotada também, junto com as demais soluções para queda de preço de produção e venda).

Esse tipo de solução é até aceitável em algumas situações que exigem solução imediata, mas obrigatoriamente têm que ser acompanhadas pelo estudo sistêmico e pela busca da solução fundamental em curto espaço de tempo, senão o problema se agrava. Do ponto de vista da natureza, exemplos e mais exemplos, que terminam sempre nos impactos ambientais irreversíveis. Por exemplo, nosso planeta já não tem mais capacidade de absorção natural das emissões de CO2 e outros gases devidos principalmente ao uso exagerado de combustíveis fósseis, incluido o carvão para produção de energia elétrica. Pelos dados de 2008 são 8 bilhões de toneladas de CO2 jogadas na natureza anualmente, e o planeta só consegue absorver 3 bilhões de toneladas, as 5 bilhões restantes ficam por ai, poluindo rios, poluindo a já escassa água potável, causando doenças novas e trazendo as já erradicadas de volta, impacto forte no aquecimento global, etc. Apenas diminuir as emissões de CO2 já não é mais suficiente para resolver o problema, soluções definitivas vão certamente passar por tecnologias que ajudem a absorver o excesso de CO2. Isso se houver tempo suficiente para que as soluções façam o efeito desejado, impactos ambientais levam muitos anos para darem algum sinal de recuperação no meio ambiente. Em breve as óbvias soluções coletivas urbanas para transporte de massa, por exemplo, vão ter que ser adotadas queiramos ou não, as bicicletas vão ganhar força no transporte individual e os carros de passeio vão se transformar em objetos a serem usados apenas em algumas estradas, ou então nos finais de semana fora das cidades.  Todos os excessos vão ter que ser eliminados, nós nos acostumamos a pensar em um padrão de conforto tomando como exemplo o estadunidense, que não é sustentável há muito tempo.

Esta postagem ia caminhar para outro tema, mas comecei explicando o padrão shifting the burden e terminei nele mesmo, achei que vale a pena apresentá-lo a quem tiver paciência de ler uma postagem mais técnica. Mas necessária de vez em quando. Na próxima postagem, volto ao assunto que seria o original desta postagem.

Atualização 20/03/2014 – Parte de uma postagem que fiz no Facebook, na data de hoje.

Mais uma decisão reativa: governo de SP quer fazer uma “transposição do rio Paraíba do Sul” para resolver um problema que “pegou todo mundo de surpresa”: a falta de chuvas liquidou o sistema Cantareira (que vem sendo alertado, segundo as reportagens, há uns 50 anos). O problema visível: o Paraíba do Sul é o principal fornecedor de água para abastecimento do RJ, que fica mais abaixo (a jusante do rio), abastece o sistema Guandu. Qualquer alteração de vazão no rio, vai afetar o abastecimento de água no RJ e nas cidades do estado. Este é o impacto mais visivel, certamente outros vão aparecer, quando se mexe em uma variável do sistema, outras são molestadas e podemos ter ai um efeito cascata. Sem contar o enorme gasto em energia elétrica para mover as bombas que vão ser necessárias para bombear a água para o novo destino. Mas, se o governo federal desperdiçou milhões até agora numa transposição do rio São Francisco que não se concretizou e que vai gerar os mesmos impactos ambientais e vai gastar uma fortuna em energia para movimentar o bombeamento de água, o governo de SP está apenas seguindo o “bom exemplo”…

Atualização 14/12/2012 – Alexandre Garcia comenta  problemas nos aeroportos brasileiros

(este artigo foi escrito por zeluisbraga, e postado no meu blog zeluisbraga . wordpress . com) (this post is authored by zeluisbraga, published on zeluisbraga . wordpress . com)

Anúncios

Consultor Independente, Treinamento Empresarial, Gerência de Projetos, Engenharia de Requisitos de Software, Inovação. Professor Titular Aposentado, Departamento de Informática, Universidade Federal de Viçosa, Minas Gerais, Brasil. Doutor em Informática, PUC-Rio, 1990. Pós-Doutoramento, University of Florida, 1998-1999

Marcado com:
Publicado em Reflexões, Sustentabilidade, Transparência
7 comentários em “Soluções paliativas e seu impacto sistêmico
  1. Flvio Oliveira de Sousa disse:

    Nossos lderes j ficam satisfeitos se conseguirem adiar o problema para o sucessor. Fico imaginando outra coisa, todos falam de crescimento sustentvel. Isto implica no s em continuar “vendendo” como antes mas aumentar sempre as relaes de consumo, crescer sobre o crescimento anterior. Na minha viso o crescimento sustentvel insustentvel. Deveriamos parar de vender essa ideia no acha?

    Em 9 de dezembro de 2012 17:38, zeluisbraga

    • sim, tem toda razão, esse é o ciclo de avalanche em que estamos metidos, vai ser assunto de uma próxima postagem. o padrão de consumo insano, todo mundo querendo seguir o padrão insustentável dos estadunidenses, perdas e mais perdas, lixo gerado pelo processo produtivo e pelos bens que deixamos de usar, notadamente os de TI….

  2. Flávio 7co disse:

    É gambiarra pra todo lado.

  3. Victor Michel disse:

    Zé, como sempre, ótima postagem!
    Sobre o preço dos carros no Brasil, acho difícil alguém ou alguma medida conseguir reverter os milhões ganhados por vendedoras e governos (por meio dos impostos). Há algum tempo, vi um pessoal querendo iniciar uma campanha para todos nós não comprarmos carros por um determinado tempo, por exemplo 6 meses ou 1 ano. Se várias pessoas adotassem campanhas desse tipo, você acha que teríamos algum retorno?
    Grande abraço.

    • olá, michel. não daria certo de jeito nenhum, não temos organização e nem vontade politica (digo nós cidadãos brasileiros) para uma iniciativa dessas. essas coisas se resolvem somente com catástrofes, econômicas ou naturais… abraço,

  4. Zé, excelente post. Agora, após quase um ano de estudos pela Dom Cabral, conhecendo a obra de Peter Senge, Peter Drucker e outros monstros do pensamento científico, gerencial e de liderança, já consigo acompanhar melhor seu raciocínio rs, que sempre foi muito à frente da maioria das pessoas.
    É um prazer ler o que você pensa. Grande abraço.

    • obrigado, tiago, fico satisfeito de você ter gostado. há outras postagens no blog no mesmo rumo, e tenho mais um monte para mandar adiante. é o assunto que mais me fascina, várias dissertações de mestrado orientadas neste tema usando dinâmica de sistemas como ferramenta de simulação. abraço, volte sempre

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: