Aposentadoria: como vai ser minha vida de aposentado?

Finalmente, passados trinta e sete anos de serviços na UFV, e mais uns dois anos e meio na Prodemge em BH, e tendo completado meus sessenta anos de idade (muita gente não acredita, acham que tenho uns noventa anos…), chega a hora da decisão: aposenta ou não? Não é uma decisão muito trivial, pois significa uma grande mudança, e a gente tem que estar preparado para ela. Poderia continuar na minha zona de conforto e ficar na ativa até os setenta anos, quando vou ser obrigado a me aposentar na compulsória (ou expulsória). Ou então eu poderia, como fiz, pular fora de uma vez enquanto ainda temos saúde suficiente para, por exemplo, podermos viajar para onde for possível antes que o corpo passe a ter vontade própria e não querer me obedecer mais.

who-cares-im-retired-clockUns cinco anos antes, por volta de 2008, comecei a me preparar para este momento. Fui aos poucos passando minhas disciplinas adiante e dando suporte aos colegas, fui refinando os projetos e diminuindo o ritmo da orientação o que não deu muito certo pois ainda tenho oito orientados para terminar o mestrado, e mais importante, fui me organizando para ter atividades fora da academia e me manter ocupado. O segredo da aposentadoria é a gente se manter ocupado, mente vazia é morada do diabo, não é esse o ditado? Finalmente, no dia quinze de fevereiro de 2013 foi publicado no DOU (Diário Oficial da União) o ato da minha aposentadoria. Mas, calma lá, publicar não significa pular fora no dia seguinte. Isso foi no meio de um semestre letivo atrapalhado por mais uma greve sem pé nem cabeça que acabou por nos ferrar o semestre letivo novamente, e tive que ficar mais um tempo terminando minhas disciplinas. Finalmente, tudo terminado, fomos fazer a viagem da aposentadoria, sessenta dias fora de Viçosa, para dar um tempo necessário, e para me organizar longe daqui. Somente depois que voltamos desta viagem no final de maio, é que a ficha caiu e eu comecei de fato minha vida de aposentado.

Ainda mantenho uma relação com meu departamento original, o DPI da UFV, como Professor Voluntário: aquele que continua trabalhando voluntariamente, não ganha nenhum $$$ extra, continua firme na orientação dos alunos e oferecendo disciplinas. No meu caso, atuando somente na pós-graduação. E continuo usando a mesma sala que ocupava antes, que agora está quase pronta para a saida final, ficou magrinha. Nos próximos dois anos, continuo por lá, depois disto, ninguém sabe nem eu mesmo. E aí começo a enxergar algumas situações que me incomodam (mas não muito), por exemplo a valorização do velho pela nossa sociedade brasileira. Enquanto fora do Brasil com algumas exceções, a experiência acadêmica dos aposentados é valorizada e as instituições tentem manter esses patrimônios intelectuais por mais algum tempo ligados a elas, por aqui é tipo aposentou, casca fora e dá lugar para um mais novo que vai ocupar seu lugar com vantagem.  O máximo que meu empregador anterior, o governo federal,  me permite fazer é continuar como Professor Voluntário, é pegar ou largar. Não reclamo, porque não há nenhuma novidade nisso e eu me aposentei sabendo disto, não há mesmo o que reclamar. Sei, sei, tem aquela bolsa Capes para quem quiser ir atuar em universidade que não seja a sua original, para ajudar na criação e fortalecimento de graduação ou pós-graduação, mas eu nem cogitei ir por esse caminho, teria muitas implicações para minha vida pessoal.

O que foi que me cansou como professor de universidade pública? Muita coisa, daria para escrever várias postagens aqui no blog sobre o assunto. Por exemplo, a última vez que ofereci a turma de Engenharia de Software II na graduação, eu achei que o semestre não fosse mais terminar. Uma turma com a maioria de desinteressados e com falhas de formação em conhecimento básico lá do secundário, chegando atrasados nas aulas, boa parte sentados na última fila de cadeiras do lado da porta da sala, celular na mão o tempo todo navegando na web, saindo da sala e voltando com frequência, como se nada estivesse acontecendo lá na frente. Claro, salvo ai uns quinze alunos (de quarenta no total) que estavam interessados e aprenderam alguma coisa comigo desta importante disciplina que abre portas no mercado de trabalho. Essa turma me deixou profundamente desanimado, e não foi apenas por eu perceber a enorme diferença de idade minha para os alunos. Foi principalmente eu perceber que não conseguia competir com a tecnologia pela atenção dos alunos, e isso apesar de eu usar algumas técnicas de PBL – Problem Based Learning nas minhas disciplinas, o que reconhecidamente dá excelentes resultados no aprendizado. Dessa turma em diante, passei a focar mais na pós-graduação e não voltei mais para a sala de aula de graduação, uma pena, eu tinha enorme prazer em formar os alunos na minha área de atuação, mas sinceramente, cansei. Há vários outros motivos, mas eu não fico me lamentando, acho que são mudanças que acontecem mesmo, somente os mais antigos é que ficam incomodados. Os professores mais novos não percebem os problemas com a mesma intensidade, e talvez até eles nem existam mesmo, nós é que passamos a ter um modelo de mundo muito refinado, e tudo passa a nos incomodar mais do que deveria. E ai está outro sinal de que está mesmo na hora de sair, porque o estresse vai aumentando muito, pode chegar num ponto de não ter mais volta, e a gente só vai conseguir sair vestindo o famoso paletó de madeira.

Mas, enfim, continuando no que interessa: como está minha vida de aposentado? Muito boa, estou tendo tempo para fazer muita coisa que ficou parada esperando tempo livre, como por exemplo voltar a tocar violão, ler meu monte de livros que estão na fila, voltar para as quadras de tênis que é onde tenho grandes amizades, aprender espanhol e poder gerenciar meu tempo da forma que eu achar melhor, e ainda achar tempo para atuar nas empresas produtoras de software em Viçosa e região. Liberdade para viajar quando der vontade e o dimdim permitir, sem aquela preocupação de ter que levar junto com o passaporte a cópia da publicação da autorização da viagem no DOU, infernal. E poder ajudar meus filhos a cuidarem de seus próprios filhos nossos netos, é motivo mais que suficiente para pular fora do barco. 

Então, se me encontrarem pelas ruas de Viçosa no meio da manhã ou da tarde, por favor não pensem o que sempre pensam: olha ai, funcionário público vagabundo, rodando na cidade no meio do horário do expediente (coisa que raramente fiz enquanto estava na ativa). Eu sou aposentado…

(este artigo foi escrito por zeluisbraga, e postado no meu blog zeluisbraga . wordpress . com) (this post is authored by zeluisbraga, published on zeluisbraga . wordpress . com) (from Viçosa, MG)

Consultor Independente, Treinamento Empresarial, Gerência de Projetos, Engenharia de Requisitos de Software, Inovação. Professor Titular Aposentado, Departamento de Informática, Universidade Federal de Viçosa, Minas Gerais, Brasil. Doutor em Informática, PUC-Rio, 1990. Pós-Doutoramento, University of Florida, 1998-1999

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Publicado em Reflexões, Saúde, Social
8 comentários em “Aposentadoria: como vai ser minha vida de aposentado?
  1. Edmo Lopes Filho disse:

    Falou e disse Grande Mestre. Nossa cultura não valoriza a construção, uma pena …
    Abraços. Edmo Lopes Filho

  2. Júlio César dos Santos disse:

    Olá Zé Luís,
    Parabéns por mais esta conquista pra lá de merecida!!!
    Não vou tecer comentários sobre seu texto pois não acho que eles seriam mais relevantes do que sua própria reflexão postada.
    Apenas gostaria de deixar um MUITO OBRIGADO pela formação oferecida e saiba que fez total diferença na minha vida.
    Abs,
    Júlio.

  3. Zé, você mais que ninguém merece uma aposentadoria tranquila e feliz.
    Você me fez enxergar coisas que eu nunca tinha pensado, você me deixou lições que ultrapassaram a sala de aula e que eu levarei comigo pro resto da vida.
    Você é exemplo de profissional e pessoa!
    Seja muito feliz e não se preocupe com a opinião alheia, pois a grama do vizinho é sempre mais verde, mas quase ninguém consegue enxergar o tanto que o vizinho cuida de sua grama.
    Abraços!
    Rosinha.

  4. Zé, pelo que você falava nas aulas, o tal “monte de livros” deve ser grande mesmo! Parabéns por sua aposentadoria! Divirta-se muito nessa nova fase da sua sua vida. Agradeço muito pela paciência e dedicação, tanto na graduação quanto no mestrado. Você influenciou (e ainda influencia) positivamente a minha vida, e a de vários colegas de classe. E se uma hora dessas você quiser jogar conversa fora, é só chamar😉

    Abraços

  5. João Felipe disse:

    Parabéns Grande Zé Luiz!
    Estou surpreso e feliz em saber que se aposentou, é mais uma etapa concluída em sua vida profissional e pessoal. Por outro lado é uma pena porque lhe considero um excelente professor, espero que, na medida do possível, continue com orientações e algumas disciplinas para não perder o vínculo.

    Qualquer dia nos encontramos aí em Viçosa.

    Grande abraço, felicidades!!

  6. Marcos Humberto Vieira disse:

    Parabéns Zé….
    Tirando os netos, já me vejo em você.
    Também me faltam 5 anos, e não terei problema nenhum de adaptação para pular fora do barco.
    Até lá, farei meu trabalho e cumprirei com minhas tarefas da melhor forma possível.
    Depois, um abraço e nos vemos no mundo.

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