Informação e pesquisa

Lendo o excelente livro The half life of facts (comentários em breve aqui no blog), topei com uma parte que foi engraçada e inusitada, em se tratando de um livro sério sobre tratamento de dados e sua meia-vida ou tempo médio de validade. Em um dos capítulos, o autor do livro relata um resultado descrito em um artigo científico publicado da área de medicina, que na verdade se tratava de algo conhecido, cuja autoria remonta a Sir Isaac Newton.

imagesO artigo, A mathematical model for the determination of total area under glucose tolerance and other metabolic curves, descreve um método para, como o próprio título diz, encontrar a área total sob curvas metabólicas utilizando um método denominado de Tai´s Model em homenagem ao autor do artigo. Extraido do próprio artigo: “In Tai’s Model, the total area under a curve is computed by dividing the area under the curve between two designated values on the X-axis (abscissas) into small segments (rectangles and triangles) whose areas can be accurately calculated from their respective geometrical formulas. The total sum of these individual areas thus represents the total area under the curve.”  Você, leitor, que não é nada bobo, já percebeu que o artigo descreve a reinvenção de algo já conhecidissimo do temível cálculo diferencial e integral: o método de integração! E embora pareça algo muito engraçado, de fato não é engraçado nada, foi resultado de pesquisa, foi publicado e festejado na comunidade do autor.

Eu, como orientador de alunos de mestrado e graduação (estou chegando perto dos 40 orientados de mestrado com dissertações defendidas, e na graduação já perdi a conta), gosto de usar esses exemplos para melhorar minhas orientações. Vivemos numa era em que a informação está disponivel em volumes imensos, e nós só conseguimos ter acesso a uma parte ínfima do que está disponivel na superficie da internet. Mesmo tendo esse acesso, sem as ferramentas adequadas, não é possível extrair desse volume todo nada que faça algum sentido para nós. Pior ainda, os pesquisadores, pressionados pelas exigências da vida acadêmica e das agências financiadoras, têm que publicar, publicar, publicar, sobre o que já escrevi aqui no blog. O que nos empurra a ficarmos cada vez mais focados em partes cada vez mais restritas de nossas áreas de atuação. Com isso, corremos o enorme risco de ficarmos ignorantes do que anda acontecendo em outras áreas, por absoluta falta de tempo e de condições para prestar atenção em tudo.

O que, claro, não é o caso relatado acima, que eu considero falha na formação básica do pesquisador, falha em fundamentos. Facilmente explicável pelo fato de o pesquisador ser da área Biológica, e que certamente nunca foi exposto a disciplinas de Cálculo Diferencial e Integral, que normalmente não fazem parte do currículo de graduação da área (incluindo Medicina e associados). E isso muda tudo de figura, embora não justifique a grande falha: o resultado relatado deve mesmo ter sido obtido com um enorme esforço de uma equipe de projeto, que teve o insight e desenvolveu a mesma técnica mais antiga que andar prá frente. Agora, como é que um artigo desses passa na mão de revisores e ninguém cheira a mancada?

Olho vivo ai, moçada. Projetos colaborativos com equipes multidisciplinares são a  melhor maneira de evitarmos esse tipo de falha. E o levantamento bibliográfico existe também para isto. No caso citado, bastaria uma busca simples no Google, tipo “area under curves” (testem ai), hoje a informação certamente pularia na tela do computador facilmente. Mas o artigo é de 1994, não tinha tanta facilidade assim…

(José Luis Braga, MEI, Treinamento em Informática) (este artigo foi escrito por zeluisbraga, e postado no meu blog zeluisbraga . wordpress . com) (this post is authored by zeluisbraga, published on zeluisbraga . wordpress . com) (from Viçosa, MG)

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Consultor Independente, Treinamento Empresarial, Gerência de Projetos, Engenharia de Requisitos de Software, Inovação. Professor Titular Aposentado, Departamento de Informática, Universidade Federal de Viçosa, Minas Gerais, Brasil. Doutor em Informática, PUC-Rio, 1990. Pós-Doutoramento, University of Florida, 1998-1999

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Publicado em Educação, Pesquisa, Reflexões
4 comentários em “Informação e pesquisa
  1. Te fácil publicar na medicina hein??? 🙂

  2. daniellainacio disse:

    Só consegui enxergar uma mulher de vestido tubinho vermelho deitada de lado na cama… kakakka…

  3. Paola disse:

    Está aí, um dos motivos de se aprender Cálculo.

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