Tira esse bicho daí…

Fiquei me lembrando esta semana de uma piada contada pelo José Vasconcellos, que eu ouvia quando criança gravado em disco LP (não tinha internet, nem gravador, telefone de manivela, nem calça jeans, etc.). Era a piada do cara que tinha roubado um porco, colocou o porco no saco e jogou nas costas,  e saiu tranquilo com ele pela rua, quando foi pego no flagrante. Perguntaram pelo porco que estava no saco, e ele foi logo dizendo “Porco? que porco? tira esse bicho daí, tira esse bicho daí…”. Na época tinha muita graça, as piadas eram muito inocentes e podiam ser contadas em qualquer ambiente social.

downloadVoltando aos nossos dias, uma das notícias ruins da semana foi a descoberta de mais um esquema de fraude praticada por fiscais da prefeitura de São Paulo, em cima da arrecadação de ISS. Muitos milhões ao longo do tempo, um pouquinho de cada vez. Que relação isso tem com a piada do Zé Vasconcellos? A forma como apareceu na imprensa, mais ou menos assim: …mais um esquema de fraude descoberto na prefeitura de SP, praticado por fiscais na gestão do Gilberto Kassab… E prá mim a relação é direta: para a notícia ter algum impacto, tem que ter um culpado imediato pela merda, e mesmo antes de qualquer investigação que possa apontar implicações e relações do mal feito, a imprensa se apressa em já posicionar temporalmente a descoberta. Mesmo que se descubra mais tarde que o esquema já funcionava há muito mais tempo, atravessando outras administrações municipais. Acontece também com as notícias policiais, o template é mais ou menos ….assalto a mão armada no supermercado xxxxx, limparam todo o caixa, e até agora ninguém foi preso O que é constante no template é o “até agora ninguém foi preso”, que é replicado em outros tipos de delitos de outras naturezas, como assassinatos, estupros, sequestros, etc.

Nos ensinamentos de Peter Senge no seu excelente livro A quinta disciplina, sobre pensamento sistêmico e suas deficiências nas empresas, ele enumera padrões de problemas sistêmicos nas empresas. Um deles aparece  quando acontece algum problema na empresa, e a reação imediata de quem está no comando direto é procurar logo um culpado. O princípio é enunciado, em inglês, como “The enemy is out there”:  eu não tenho nada com isso, vamos procurar quem errou. Nesse caso, troca-se o “nós” pelo “eles”, e isso configura um problema organizacional grave, em que as pessoas não se sentem responsáveis pela empresa, não atuam como uma equipe organizada e harmonizada, mas sim como um grupo em que cada um joga e fala por si.   Claro, este princípio se aplica facilmente a qualquer nível de administração, não é privativo das empresas. Na administração pública, exemplos não faltam.

No meu entendimento, o que é errado é errado sempre, não interessa quem fez e em qual administração o errado foi feito. O conceito de errado fica acima dos culpados, é mais relacionado com ética e padrões morais  de conduta. E infelizmente, as coisas não têm sido tratadas desta forma, principalmente em vésperas de eleições, que estão logo ali em 2014. Todo mundo quer ficar logo livre do porco, ainda mais se for um porco-espinho.

(José Luis Braga, MEI, Treinamento em Informática) (este artigo foi escrito por zeluisbraga, e postado no meu blog zeluisbraga . wordpress . com) (this post is authored by zeluisbraga, published on zeluisbraga . wordpress . com) (from Viçosa, MG)

Consultor Independente, Treinamento Empresarial, Gerência de Projetos, Engenharia de Requisitos de Software, Inovação. Professor Titular Aposentado, Departamento de Informática, Universidade Federal de Viçosa, Minas Gerais, Brasil. Doutor em Informática, PUC-Rio, 1990. Pós-Doutoramento, University of Florida, 1998-1999

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Publicado em Reflexões, Social, ZeRaivoso
Um comentário em “Tira esse bicho daí…
  1. railer disse:

    na realidade querem é trocar o porco por um bode… expiatório…

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