O Leão da Toscana: Gino Bartali

30369531Minha última leitura foi o livro O Leão da Toscana, um livro que me achou por acaso quando eu estava de bobeira na simpática e excelente livraria Mineiriana em BH, na Savassi.  O livro tem relação direta com um assunto que me interessa muito, que é o ciclismo,  e relata uma parte da vida do ciclista italiano Gino Bartali, que foi o vencedor do Giro d’Italia em 1936, 1937 e 1946, e também do Tour de France em 1938 e em 1948. Reparando na importância das datas, ele venceu o Giro em 1937 e o Tour em 1938, dois anos seguidos, numa época conturbada na Europa, que precedeu a segunda grande guerra.  Dez anos depois de vencer o Tour em 1938, ele consegue já mais velho vencer novamente em 1948, e o livro relata magistralmente esse período da vida de Gino Bartali, da Toscana onde ele vivia na região de Florença, e em particular da Europa da época, do fascismo e do nazismo, da perseguição aos judeus e a outros povos.

A gente nem imagina como eram as condições, na época,  destas duas competições importantes para o ciclismo mundial. Equipamentos ruins, para passar marchas tinha que descer da bike e passar manualmente, roupas inadequadas, fraca proteção contra frio e calor, estradas péssimas, de cascalho e barro quando chovia, baixo nível de apoio durante as corridas, falta de patrocínio (nem existia isso), sapatos inadequados. Isso para encarar duas corridas longas e que duram semanas até hoje, o Giro com 2448 km e o Tour com  3500km pelas cadeias de montanhas europeias. Hoje a gente vê nos canais esportivos a transmissão das duas competições, em épocas próximas (verão Europeu), estradas asfaltadas, carros de apoio indo junto pelas estradas, bikes com altas tecnologias com  um monte de marchas de muita precisão, patrocínios ricos, alimentos balanceados e com alto poder calórico, roupas que protegem do frio e do calor, calçados de primeira linha,  e nem consegue imaginar como era na época do Bartali.

Bartali se transformou em um herói italiano na época, sua integração com a bicicleta e com o esporte era admirável, as novas gerações queriam segui-lo. Foi o grande divulgador do uso de bicicletas pela Itália, tanto na área rural quanto nas cidades. No inicio da segunda guerra, Mussolini mandou chamá-lo, para que ele fosse patrocinado pelo governo fascista da época. Nada pode interessar mais a um governo extremista, seja de direita ou de esquerda, do que ter um herói nacional para onde a população pudesse voltar seus olhares, seguindo os passos do exemplo da suprema raça italiana que o regime fascista queria mostrar ao mundo. Mas Bartali era democrata-cristão, aceitou disputar o Giro e o Tour patrocinado pelo governo, mas internamente não aceitou abrir mão de suas crenças religiosas, e não abandonou a igreja e nem os princípios democráticos que o guiavam. Quando a segunda guerra explodiu e as corridas foram interrompidas, Bartali foi chamado por um cardeal da igreja católica, seu amigo, para ajudar a transportar documentos falsificados pela Toscana afora, para ajudar a salvar a vida dos judeus perseguidos pelo regime. E lá foi Bartali, com a sua bicicleta e com a imunidade que sua condição de campeão nacional lhe conferia, rodar de bicicleta pela Toscana, carregando documentos falsos dentro dos tubos da sua bicicleta. Anonimamente, salvou várias familias, e nunca quis falar sobre o assunto, nem mesmo muito tempo depois. Sua simplicidade e doação a seus semelhantes não lhe permitiam tirar proveito nenhum, e ele considerava pouca a ajuda que prestou.

Não posso me alongar nos comentários sobre o livro, embora esteja tentado a fazer isso. Foi um dos melhores livros que já li. Relato da superação humana através dos esportes, associado com uma parte negra da história da humanidade. Fascismo italiano, inicio da perseguição aos judeus na Itália, e o campeão do ciclismo Gino Bartali ajudando a resistência transportando em sua bicicleta documentos falsificados para ajudar aos judeus e outros, perseguidos pelo nazifascismo que se instalou na Europa e em particular na Itália. Gino Bartali é um exemplo de superação física, de energia para superar a idade nas competições, de identificação homem-bicicleta que se transformam em um objeto único.
Um livraço, recomendo demais.

(este artigo foi escrito por zeluisbraga, e postado no meu blog zeluisbraga . wordpress . com) (this post is authored by zeluisbraga, published on zeluisbraga . wordpress . com) (Viçosa, MG)

Consultor Independente, Treinamento Empresarial, Gerência de Projetos, Engenharia de Requisitos de Software, Inovação. Professor Titular Aposentado, Departamento de Informática, Universidade Federal de Viçosa, Minas Gerais, Brasil. Doutor em Informática, PUC-Rio, 1990. Pós-Doutoramento, University of Florida, 1998-1999

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Publicado em Carreira, Esporte, Livros, Reflexões

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