Colaboração no ensino de Engenharia de Software

Na tentativa de melhorar o andamento das disciplinas de Engenharia de Software, tanto na graduação quanto na pós-graduação, testei em sala de aula algumas técnicas já conhecidas, como já relatei aqui. Uma foi o PBL – Problem Based Learning, que é uma forma de aprendizado ativo,  já consagrada em outras áreas, e que sabidamente dá bom resultados. Implementei o que consegui sozinho, apliquei na sala de aula, e embora eu não tenha medido estatisticamente, senti uma melhora no interesse e no desempenho dos alunos, até de alguns daqueles que gostam de ficar no fundo da sala conversando e mexendo no smarthphone o tempo todo.

network-connected

Image from langwitches.org

Seguindo na linha, resolvi testar também outras técnicas de aprendizado ativo, usando mídias sociais e colaboração na sala de aula. A ideia é a de que as redes, depois de formadas, passam a ter vida própria, e os próprios alunos resolvem os problemas entre eles, colaborativamente, sem necessidade de recorrer ao instrutor ou professor, que muda de função. Nas redes não existem hierarquias, elas são planas, estruturas adequadas para colaboração. Um aluno orientado de mestrado, o Leonardo Fonseca de Carvalho, estava desenvolvendo a dissertação dele neste tema, na área de pesquisa em Educação, com o título Redes sociais no suporte ao ensino de Engenharia de Software. Vínhamos trabalhando no tema há mais tempo, começamos o projeto com a rede Ning, que já conheciamos e tem os recursos necessários para esse tipo de trabalho. O ambiente para teste estava quase pronto para uso, quando o Ning deixou de ser rede de uso gratuito, e passou a ser cobrado, e caro. A menos que eu colocasse o meu suado e escasso salário na reta, não tivemos outra alternativa senão mudar a plataforma, e passamos para o Elgg, pouco conhecida na época, deu um mais trabalho customizar, significou um pequeno atraso no projeto.

Isso resolvido, servidor LES – Laboratório de Engenharia de Software setado e funcionando em rede (não existe mais, com minha aposentadoria, aposentei também o LES e doei o servidor para outro colega novato no DPI), Elgg no ar e funcionando, escolhemos uma disciplina da pós-graduação lato-sensu do DPI, lecionada por mim e pelo Bruno Satler na primeira turma, e mais a Liziane S. Soares na segunda turma,   para testar o ambiente em sala de aula. A característica interessante das turmas selecionadas, é a de que todos trabalhavam o dia todo, só tinham tempo à noite e em finais de semana para desenvolver os projetos de disciplinas, e todos estavam geograficamente espalhados em cidades próximas a Viçosa, alguns na mesma cidade. Era exatamente uma turma-amostra ideal para testar, pois se todos morassem na mesma cidade, talvez diminuisse a necessidade de usarem o ambiente com o Elgg, seria mais fácil se reunirem pessoalmente.

Deixamos disponiveis ferramentas de blog para os trabalhos  da disciplina que exigissem desenvolvimento de temas, cada aluno tinha um blog, que deveria estar com os temas prontos nas datas estabelecidas, e os demais deveriam comentar nos blogs dos outros, construtivamente. Isso ajudou a criar um ambiente de confiança e a estabelecer a colaboração entre os grupos. Deixamos também disponivel uma ferramenta de Wiki, com controle de versões, para desenvolvimento colaborativo dos projetos, e desenvolvemos recursos para exibir a participação dos alunos nos trabalhos dos grupos, permitindo acompanhamento remoto. Outros dois orientados de mestrado, o Jailton Coelho e  a Simone D. Costa, que ajudaram na customização do ambiente Elgg, implementaram um sistema de reputação que permitisse avaliar as participações de cada um, baseada nas opiniões e notas dos próprios colegas, semelhante ao que é usado na Wikipedia e no sitio Digg.  Sem o sistema de reputação, fica muito dificil avaliar a participação de cada um, passa a ser apenas quantitativa, e no caso, tem que ser qualitativa, não adianta nada ficar dando opinião vazia no trabalho dos colegas.

Na disciplina do lato-sensu que citei acima, o resultado foi muito bom. Conseguimos a proeza de, terminada a disciplina, todos os trabalhos estarem prontos no LES, praticamente já avaliadas e com as notas finais lançadas. Houve um ou outro pequeno atraso, resolvido na semana seguinte. Só isso já foi um ganho muito grande, pois é um dos problemas desse tipo de curso, os alunos não têm tempo para se dedicar demais, acaba uma disciplina e começa outra na semana seguinte, e as pendências de trabalhos permanecem até o final do curso, dá uma trabalheira acertar tudo, prejudicando a avaliação. Pedimos aos alunos para avaliarem a condução da disciplina, e também foi muito positivo, facilitou demais o trabalho deles, e os mais colaborativos e com melhor bagagem de conhecimento se sobressairam logo, com casos de membros de um grupo ajudarem em outros grupos, o que não tem problema algum, essa é a ideia, colaboração sem restrição.

Testamos o ambiente também em uma disciplina do mestrado, mas os resultados não foram tão bons. Motivo principal foi estarem todos os alunos disponiveis localmente, o que incentiva as reuniões físicas dos grupos de trabalho. Tivemos que mudar um pouco a condução da disciplina, e o LES foi usado apenas para registro e documentação, com mais ênfase no uso dos blogs para desenvolvimento de temas de leituras e resenhas. A dissertação do Leonardo Carvalho está disponível publicamente, via a página da Pós-Graduação do DPI. Basta entrar em Dissertações e Teses, ela é a dissertação 64 do PPGCC, defendida em 2012. Espero que a experiência, mesmo sendo contada aqui com poucos detalhes, sirva para os professores mais curiosos em práticas de ensino. Vale a pena testar novas práticas e técnicas, levar para a sala de aula, só trazem benefício. O que não dá mais é ficar com transparências velhas, usando retroprojetor em aulas de cuspe-e-giz, calor na sala, todo mundo meio sonolento, ninguém aguenta!

Comentário do ZéRaivoso: para alguns colegas, tanto da Educação quanto da Engenharia de Software, essas experiências não valem nada ou valem muito pouco. Porque eu não medi nada, não posso generalizar nada, e isso serve apenas como evidência fraca, um “causo curioso” não publicável em congressos e journals sérios da área. Acho uma pena, porque é das experiências isoladas que o conhecimento abstrato vai se formando bottom-up, caso a caso. Por causa disto, muita coisa boa se perde mundo afora. Uma pena!

(este artigo foi escrito por zeluisbraga, e postado no meu blog zeluisbraga . wordpress . com) (this post is authored by zeluisbraga, published on zeluisbraga . wordpress . com) (from Viçosa, MG)

Consultor Independente, Treinamento Empresarial, Gerência de Projetos, Engenharia de Requisitos de Software, Inovação. Professor Titular Aposentado, Departamento de Informática, Universidade Federal de Viçosa, Minas Gerais, Brasil. Doutor em Informática, PUC-Rio, 1990. Pós-Doutoramento, University of Florida, 1998-1999

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Publicado em Educação, Engenharia de Software, Ensino
2 comentários em “Colaboração no ensino de Engenharia de Software
  1. Cristiane Lana disse:

    Zé, eu fui sua aluna na turma do mestrado e apesar de utilizarmos as reuniões presenciais, era inevitável, o LES e outras ferramentas que acabamos utilizando facilitou muito o desenvolvimento do trabalho e com certeza o aprendizado foi muito grande. Falo com toda certeza que se a aula fosse somente expositiva além de poder se tornar chata, afinal é conteúdo teórico, o aprendizado não teria sido o mesmo. Acabamos simulando uma situação que só teríamos oportunidade de vivenciar se fôssemos para o mercado e se déssemos a sorte de cair em uma organização bem estruturada. Hoje utilizo o mesmo processo de ensino com os meus alunos de Projeto e é visível o quanto eles estão evoluindo e entendendo muito melhor a dinâmica do mercado, mesmo que muito fictício. Vlw zé. Obrigada pela formação.

  2. Hugo disse:

    Simplesmente sensacional, com futuro garantido… esse meu pensamento…

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