Relendo a história

Estou me preparando para ler a festejada trilogia Getúlio, escrita pelo historiador Lira Neto. Para entender e rever o contexto histórico, o antes, o durante e o depois, usei (e continuo usando) o livro de História do Brasil do historiador Boris Fausto, edição 1994. Esse excelente livro encontra-se atualizado na edição de 2012, incluindo o período histórico atual. Para rever os anos Getúlio e seu contexto, a menos que tenha ocorrido alguma descoberta de pesquisa documental nova, não faz muita diferença usar uma ou outra edição. Encarei a leitura neste período de carnaval de 2015, que para mim foi muito proveitoso.

file631243445559Lendo o livro, encontrei um monte de parágrafos, passagens e observações que, se lidos fora do contexto, poderiam passar a impressão de que se referem ao momento atual da nossa história. Como o que transcrevo a seguir: “Outro dado importante se encontra no fato de que a expansão industrial vinha sendo estimulada, apesar dos estrangulamentos nas áreas de transporte e de energia, acarretando elevações de custos e do preço final dos produtos. Dada a natureza dos investimentos em infra-estrutura, as medidas tomadas pelo governo só produziriam efeitos a médio e longo prazos. Ao mesmo tempo, o desenvolvimento industrial era incentivado pela concessão de crédito fácil ao setor privado por parte dos bancos oficiais, especialmente o Banco do Brasil…” (extraído da página 410 da edição de 1994).

Percebem alguma semelhança com o que acontece atualmente no Brasil? Principalmente se trocarmos o Banco do Brasil (que continua tendo o mesmo papel) por BNDES, aí teremos quase que uma reprodução histórica. E não é apenas isso, vários outros parágrafos mostram que evoluimos muito pouco. Dá até a impressão de que alguns de nossos politicos atuais, principalmente o grupo que se encontra no poder, leram tudo isso e se empenharam em reproduzir ações, reações, legislações da época, trazendo-as para nosso contexto, sem se lembrar de que a sociedade mudou, e hoje não é mais possível ter uma replicação de tudo o que aconteceu na época. As instituições são outras, o povo é outro, a tecnologia é outra, o acesso rápido à informação e a facilidade de organização proporcionados pela internet é insuperável e impossível de controlar. Talvez isso explique em parte nossos desastres políticos e econômicos atuais.

Por exemplo no caso de “…estrangulamentos na área de transporte e de energia…”, é de assustar, o que é que mudou? Nada, tivemos um enorme aumento de demanda do transporte rodoviário que foi a opção adotada no governo de Juscelino Kubstichek (1955-1960), sem que a infraestrutura acompanhasse a necessidade de maneira adequada. E hoje continuamos a ter os mesmos problemas, agravados pelo grande aumento de carros particulares. Essa opção do governo JK pelo transporte rodoviário e pela solução individual em detrimento do coletivo, praticamente matando o transporte ferroviário, tem consequências gravissimas na nossa infraestrutura de transportes atual. Vejam a passagem do livro: “Vista em termos numéricos e de organização empresarial, a instalação da indústria automobilística representou um inegável êxito. Lembremos porém que ela se enquadrou no propósito de criar uma civilização do automóvel, em detrimento da ampliação de meios de transporte coletivo para a grande massa. A partir de 1960, a tendência a fabricar automóveis cresceu a ponto de representar quase 58% da produção de veículos em 1968. Entre 1957 e 1968, a frota de automóveis aumentou cerca de 360% e a de ônibus e caminhões, respectivamente, cerca de 194% e 167%. Por outro lado, como as ferrovias foram na prática abandonadas, o Brasil se tornou cada vez mais dependente da extensão e conservação das rodovias e do uso dos derivados do petróleo na área de transportes.” (extraído da página 429 da edição de 1994). Vejam aí um erro de decisão que nos levou à situação atual na infraestrutura de transportes, nunca corrigido e cada vez mais difícil de acertar. Claro, temos que considerar o contexto da decisão da época, falta de dados, etc. Mas essa decisão seguiu na contramão do que foi feito nas regiões mais desenvolvidas do planeta, na época, e estamos pagando caríssimo por ela.

Os chineses, em sua sabedoria secular, dignificam os mais velhos, sendo um costume antigo que os anciãos contem a história para os mais novos, repetidamente. Para evitar que os erros do passado se repitam no presente. Sabedoria secular (que talvez nem seja mais praticada nessa era de internet), mas que infelizmente ainda não aprendemos. Principalmente nossos políticos, que aparentemente passaram longe dos bons livros de história.

Vejam uma postagem mais antiga sobre Sociedade do carro, relacionada com esta postagem.

(este artigo foi escrito por zeluisbraga, e postado no meu blog zeluisbraga . wordpress . com) (this post is authored by zeluisbraga, published on zeluisbraga . wordpress . com) (from Belo Horizonte, MG)

Consultor Independente, Treinamento Empresarial, Gerência de Projetos, Engenharia de Requisitos de Software, Inovação. Professor Titular Aposentado, Departamento de Informática, Universidade Federal de Viçosa, Minas Gerais, Brasil. Doutor em Informática, PUC-Rio, 1990. Pós-Doutoramento, University of Florida, 1998-1999

Marcado com: , ,
Publicado em Educação, Livros, Opinião, Reflexões, Social

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: