Entendendo melhor o fim…

Na nossa cultura ocidental,  temos uma limitação enorme em lidar com o fim, com a morte. Chega a ser um assunto tabu, proibido ou adiado sempre. Mas é inevitável, um belo dia vamos ter que encarar mais esse passo da vida, querendo ou não. Já que por enquanto não temos escolha (pode ser que a tecnologia algum dia crie o elixir da vida terrena eterna!), temos pelo menos o conforto de podermos nos preparar para o último passo, criando nosso próprio modelo do fim da nossa jornada. Meu primeiro contato com o tema foi com o excelente livro A negação da morte, de Ernest Becker, um campeão mundial de venda, ganhador do Prêmio Pulitzer de Literatura Não-Ficção em 1974, que li em 1992. Fantástica leitura, lido e relido, passagens fortes, totalmente sobre o nosso medo da morte, as fugas e confortos que encontramos ao longo da vida, e como passamos a vida toda tentando marcar nossa presença aqui, como uma espécie de fuga da morte. Mais recentemente, fui ler outro excelente livro, Por um fio, do Dráuzio Varela. Que é uma coletânea de registros de conversas do autor com pacientes terminais de câncer, muitas lições de fim de vida, principalmente sobre como as pessoas mais simples encaram o inevitável fim, ainda mais sendo pacientes terminais. De um desses relatos, uma frase me marcou e repito sempre, pela sabedoria embutida nela: a beira do barranco é que assusta o cavalo! 

beingmortal_gawandeRecentemente, li uma resenha publicada no Brainpickings  sobre um livro recente, Being Mortal, autor Atul Gawande. Pela resenha, comprei imediatamente em formato Kindle, parei todas as demais leituras e fui enfiar a cara nesse livro fantástico. O autor, um indiano cirurgião residente nos EUA, filho de médico indiano que dedicou parte do que ganhou na vida a construir obras assistenciais na India, para melhorar a vida dos mais miseráveis naquele país. O assunto, mais uma vez: a morte e como lidamos com ela, como nos preparamos para ela. No caso, de um outro ponto de vista, focando numa questão moderna: a medicina tem os meios para curar, para prolongar a vida, mas na maioria das vezes seus praticantes não sabem, ou não querem, ou não têm a coragem de parar e de avaliar melhor o que traria mais ganho para seus pacientes: mais uma cirurgia de altissimo risco e com poucas chances de sobrevivência posterior com alguma qualidade de vida, ou simplesmente aceitar os fatos e passar para os tratamentos paliativos, aliviando os sintomas e deixando o paciente morrer em paz, talvez em casa, confortado, sem dor? É outro livro fantástico, bem escrito, com vários relatos e casos reais, muito realista, uma leitura muito forte. Mais uma vez, um livro que me fez muito bem ler, principalmente pelo impacto recente da morte de nosso querido pai, me deixando órfão de pai aos 63 anos e uns quebrados! Na verdade, um privilégio poder ter convivido com meu sábio pai por tanto tempo.

Algumas passagens do livro, que fiz questão de anotar (as outras estão no meu caderno de notas no próprio Kindle): “Arriving at an acceptance of one’s mortality and a clear understanding of the limits and the possibilities of medicine is a process, not an epiphany”; “This is what it means to have autonomy: you may not control life’s circumstances, but getting to be the author of your life means getting to control what you do with them”. E finalmente sobre o processo decisório final: “…the vital questions are the same: What is your understanding of the situation and its potential outcomes? What are your fears and what are your hopes? What are the trade-offs you are willing to make and not willing to make? and what is the course of action that best serves this understanding?”

Aos que conseguiram ler até aqui, não se assustem, não estou senil, nem estou preocupado com a morte. São apenas retalhos que a gente vai colecionando pela vida, que um dia se juntam de maneira harmoniosa, e temos finalmente a oportunidade de mostrar. Filosofando!

(este artigo foi escrito por zeluisbraga, e postado no meu blog zeluisbraga . wordpress . com) (this post is authored by zeluisbraga, published on zeluisbraga . wordpress . com) (from Viçosa, MG)

Consultor Independente, Treinamento Empresarial, Gerência de Projetos, Engenharia de Requisitos de Software, Inovação. Professor Titular Aposentado, Departamento de Informática, Universidade Federal de Viçosa, Minas Gerais, Brasil. Doutor em Informática, PUC-Rio, 1990. Pós-Doutoramento, University of Florida, 1998-1999

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Publicado em Livros, Reflexões, Social
4 comentários em “Entendendo melhor o fim…
  1. daniellainacio disse:

    Zé, eu que sou um pouquinho mais nova que você já havia escrito sobre esse tema no meu blog (https://daniellainacio.wordpress.com/2010/03/20/a-hora-do-adeus/). Sempre gostei desse assunto exatamente por eu me sentir muito despreparada para lidar com a separação, pois sou muito apegada às pessoas que me fazem bem. Li dois livros sobre o assunto (A Hora do Adeus e Conversando Sobre o Luto) e ainda tenho vontade de ler outros.
    O engraçado (?) é que terminei de ler o Conversando sobre o luto na manhã do dia que minha avó se foi…
    Vou tentar ler os livros que você citou no seu post.
    Abraços e “vida longa e próspera”.🙂

  2. Rodney disse:

    Dr. José Luís ou “Zé Luis” grande mestre. Inclua no seu texto ou tente pesquisa como é a dor de uma mãe que tem um filho com deficiência e passa a vida pensando se ela for primeiro que o filho “quem vai olhar aquela pessoa especial”, acho que é tão marcante quanto o do paciente terminal de câncer.

  3. Carlos Barbieri disse:

    Gostei Zé.. Abs. CB

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