Compartilhamento e novos negócios

Desde que li, em 2007, a primeira edição do livro Wikinomics, fiquei “infruído” (em mineirês do bom) pelas ideias do livro, e pelo caminho que os autores apontavam para a evolução de modelos de negócios baseados em colaboração e compartilhamento. Possibilitados pela internet e redes peer-to-peer ou P2P,  que mais uma vez habilitam mudanças no mundo dos negócios, balançando e jogando no chão modelos de negócios já tradicionais. Esses novos negócios ou modelos de negócios fazem parte do que se convenciona chamar de economia do compartilhamento.

adhocAs novas companhias da economia do compartilhamento são, na verdade, sítios ou portais  na web que agrupam pessoas que têm recursos (bens, serviços, habilidades…) disponíveis e subutilizados, e que gostariam de alugá-los a quem estiver necessitando deles, por algum período curto de tempo. Várias iniciativas surgiram dentro deste conceito, como por exemplo a Taskrabbit, Streetbank, e o já conhecido Zipcar sobre que já postei aqui no blog (Zipcar foi comprado pela Avis Rental Cars, que manteve o negócio funcionando da mesma forma). O Airbnb é outro exemplo muito bem sucedido, que tem desafiado a hotelaria tradicional com a ideia mais simples de “compartilhamento do sofá da sala”  ou “compartilhamento do quarto da casa que está desocupado”. Os números são impressionantes: em setembro de 2014, tinham mais de 800.000 quartos disponíveis em mais de 190 países, incluindo o Brasil e, mais recentemente, Cuba (no rastro da reaproximação com os EUA). Segundo estatísticas deles próprios, mais de 17 milhões de pessoas usaram os serviços até agora. As maiores cadeias de hotéis do mundo ficam longe destes números. A rede Marriott (Ritz-Carlton, Bulgari e Fairfield Inn) tinha, em 2013, 675.000 quartos em 74 países, e a rede Hilton (Waldorf-Astoria, Embassy Suites e Hampton Inn) tinha 619.000 quartos em 91 países. Qual a enorme diferença entre os dois modelos de negócio? O Airbnb facilmente aumenta a sua oferta de quartos e acomodações, basta entrar no site e cadastrar o quarto que você quer alugar, colocar fotos, preços, localização, etc. O negócio é todo realizado entre as duas pontas, fornecedor e consumidor que são os peers na rede P2P, o Airbnb é o intermediário na web. Já a rede hoteleira tem que suar a camisa, tem que construir novos prédios e instalações, para conseguir a mesma coisa. Os custos, nos dois casos, são desproporcionalmente diferentes, muito maiores para a rede hoteleira.    Claro, na questão preço, a rede hoteleira perde disparado, os preços dos quartos no Airbnb são muito mais baixos, favorecendo o consumidor final. A rede hoteleira está reagindo, criando alternativas de hotéis com custo operacional mais baixo, com efeito direto no preço para o consumidor final, ou então se associando a redes como a Trivago ou Booking, com ofertas a preços mais baixos em períodos em que os hotéis estão com baixa taxa de utilização.

O exemplo mais recente do Uber, que tem causado polêmica e incomodado modelos de negócios tradicionais, é um pouco diferente. Se fosse um serviço de caronas, estaria dentro do conceito de compartilhamento, como o Airbnb, Zipcar e outros. Mas o serviço oferecido é mais exclusivo, é um táxi sofisticado e exclusivo, competindo com os táxis tradicionais. Perceberam um nicho na estrutura de negócios dos táxis, e entraram nesse nicho: na maioria das vezes serviço ruim, carros sujos e mal cuidados, motoristas com níveis de educação variável, vestidos do jeito que acharem melhor, carros sem ar-condicionado, etc., claro que com muitas exceções.  Mas se o consumidor vai pagar o mesmo preço pelos dois serviços, a escolha é óbvia, não?  Estão sendo combatidos com unhas e dentes pelo corporativismo da estrutura vigente: cooperativas, taxistas individuais e associações de classe. Mas, no meio da polêmica e da poeira levantada, já se pode notar diferença nas grandes cidades: uma boa tarde dos taxistas passou a prestar mais atenção em alguns detalhes que fazem a diferença para o consumidor. E os carros de cooperativas também sofreram uma pequena mudança, mas esses já eram diferenciados.

Embora o cidadão consumidor tenda a ficar do lado dos novos modelos de negócios, pois nós somos os grandes beneficiados, alguns fatos devem ser levados em consideração. Antes de mais nada, os negócios tradicionais são baseados em legislação, cadastros, impostos, fiscalização, papelada, etc. , e têm custos altos para manter o negócio funcionando. A legislação tem que acompanhar os novos tempos, tem que se modernizar, embora a velocidade em que essas mudanças acontecem é baixissima em relação a velocidade da internet e do surgimento de novas ideias de negócios. Por exemplo, a cidade de New York já começou a batalha para enquadrar o Airbnb, a legislação estadunidense para o aluguel de cômodos de casas e apartamentos a terceiros é muito restrita, e os administradores de condomínios ficam de olho. Claro, ficam de olho nos impostos que deixam de ser recolhidos, e com razão. O mesmo é o caso do Uber, ajustes são necessários, mas sempre olhando a melhoria de serviços para o consumidor final. Não adianta nada enquadrar as novas iniciativas, sufocando uma parte delas, quando quem vai perder é o consumidor final, que é sempre a vítima.

O fato é que a economia do compartilhamento não vai parar por nada. Uma iniciativa é sufocada ali, e outra surge aqui, pipocando sem parar. E ninguém pode me impedir, por exemplo, de dar carona no meu carro para onde eu achar melhor, e nem de hospedar meus amigos na minha casa, e nem de emprestar meu carro para meus amigos viajarem…

Atualização 03/10/2015 – E para os contra-Uber, vem mais problema ai, os carros autoguiados, já liberados no Japão, vejam a noticia no WSJ aqui. Será que vão atacar os motoristas dos carros sem motorista também?

(este artigo foi escrito por zeluisbraga, e postado no meu blog zeluisbraga . wordpress . com) (this post is authored by zeluisbraga, published on zeluisbraga . wordpress . com) (from Viçosa, MG)

Consultor Independente, Treinamento Empresarial, Gerência de Projetos, Engenharia de Requisitos de Software, Inovação. Professor Titular Aposentado, Departamento de Informática, Universidade Federal de Viçosa, Minas Gerais, Brasil. Doutor em Informática, PUC-Rio, 1990. Pós-Doutoramento, University of Florida, 1998-1999

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Publicado em Economia, Inovação, Social, Tecnologia

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