Orientação acadêmica

Esse tema está na fila há um bom tempo, desde que me aposentei. Quero contar parte da minha experiência de orientação acadêmica, atividade que é parte da vida e da carreira de um professor universitário.  Que exerci desde meus primeiros anos dentro da universidade, levei uma grande vantagem por ser filho de professor universitário, fui criado nesse ambiente, exposto a livros, filosofias e convivência com orientados de meu pai.

11970957791876984155Leomarc_caution_Y_road_2.svg.medEu costumava dizer a meus alunos e orientados que, na sala de aula e na orientação, eu considerava todos filhos, e que tratava todos como se assim fosse. A paciência, a falta de paciência, os raros esporros, a atenção com os problemas de cada um, ajuda com as deficiências e dificuldades. Sempre numa relação meio simbiótica, em que meu aprendizado era contínuo, aprendi muito e sempre com meus alunos. A relação era de parceria, nunca uma relação hierárquica (embora houvesse hierarquia), muito mais troca de conhecimento do que fluxo professor > aluno, que modernamente é considerada uma relação ultrapassada. Orientador/professor é muito mais um facilitador de aprendizado, do que o supremo dono do conhecimento e que vai ensinar algo aos alunos na sala de aula.

Cada orientado tem suas particularidades, seu próprio ritmo de produção e de assimilação, e dedicação ao trabalho. Já tive orientados que pareciam indolentes aos olhos de colegas que reclamavam que dormiam a aula toda. Mas que na verdade trocavam o dia pela noite. Começavam o período produtivo lá pelas 22 horas, e daí iam até as 7 da manhã, produzindo muito e trazendo sempre bons resultados. Como é que se vai exigir presença em sala de aula de um alunos desses? Eu sou o contrário, à noite não sou ninguém, detesto virar noites estudando, não produzo nada. Prefiro acordar cedo e produzir no periodo da manhã, sempre meu melhor período. E este é apenas um dos aspectos dos atributos pessoais que devem ser respeitados e explorados pelo orientador.

A orientação acadêmica se aproxima muito do que hoje se convencionou chamar de coaching, que é uma área em franca expansão no mundo todo. No meio do meu caminho, li um livro muito interessante, que depois fui descobrir é a raiz de um método de coaching. O livro, O jogo interior do tênis, assunto de uma postagem aqui no blog. Como jogador de tênis desde a adolescência, o assunto me interessa muito mais pelos enormes desafios mentais que o jogo de tênis competitivo impõe aos jogadores. Entre os melhores jogadores, ganha o jogo quem tiver equilíbrio mental para se manter firme no jogo, encarando os desafios do adversário. Do ponto de vista técnico, as diferenças entre os grandes jogadores são mínimas, insuficientes para ganhar um jogo com facilidade. O aprendizado da quadra de tênis é para toda a vida: controle, concentração, decisão rápida, visão abrangente, construção de jogadas, educação, dedicação aos detalhes. Tudo bem explorado no livro, que recomendo, é de leitura fácil e para entender a mensagem do livro, não é necessário ser um jogador de tênis.

Dentro desta perspectiva, o papel do orientador é muito mais de cutucar o orientado o tempo todo, não apontar soluções para os problemas, mas sim mostrar os possíveis caminhos e deixar as decisões para eles, sem interferir. Mas reparem que temos dois níveis de abstração: o nível mental, de visão do problema, de fazer aflorar as capacidades pessoais, de tomada de decisão e escolha de caminhos, e o nível técnico de conhecimento da área ou domínio do problema. Os dois níveis vão andando juntos, um empurrando o outro. Para o nível técnico, a atividade de orientação se afasta um pouco de coaching, e chega mais perto de mentoring, que é mais relacionada com a parte técnica do conhecimento específico. Coaching é independente de domínio de conhecimento, explora as capacidades pessoais e leva o orientado a ganhar confiança em sí próprio, portanto mais relacionado com o nível mental da orientação. Dentro desta perspectiva, orientação no meu entendimento é uma atividade que prepara o orientado para a vida, e não apenas para um trabalho acadêmico específico, técnico.

Para finalizar, lembro que o processo de comunicação, o enorme problema da administração em empresas de qualquer porte e em qualquer tipo de projeto, também é um problema na orientação. E o orientador tem que estar preparado para isso. Como vai ser a comunicação? Email, telefone, ferramentas de comunicação por mensagem? Mensagens devem ser respondidas sempre, pelo menos acusando o recebimento? Tempo de resposta? Tempo de resposta é uma qualidade fundamental da comunicação. Orientador tem o dever de receber o material enviado pelos orientados, ler, corrigir, devolver, reunir, criticar, etc., no menor tempo possivel. Lembrem-se de que do outro lado, o aluno está dependendo de sua resposta para poder ir adiante. O que também é verdade para o lado do orientado, tem que ter comprometimento com a comunicação. Regras também devem ser claras, por exemplo com relação à ordem de autoria em publicações (aluno que produziu o trabalho sempre deve ser primeiro autor no meu entendimento), orientador sempre em segundo lugar, isso tem que ser conversado logo de início, pois gera mal entendidos que podem deteriorar a relação orientador-orientado.

Vejam que aqui usei o nome orientado, significando um papel na relação com o orientador. Na relação de orientação, são duas entidades, orientador que é um papel (role) desempenhado por professor, e orientado que é um papel (role) desempenhado por aluno, sempre muitos para muitos (lembrando dos bons tempos de modelagem de banco de dados). Já visualizaram o diagrama ai?  aposto que sim! Vejo muitos usarem e brigarem para chamar orientado de orientando, gera polêmicas inúteis. Pois no caso, orientando se refere ao gerúndio do verbo orientar, e descreve a atividade de orientação “em andamento”, e deve ser usada apenas neste contexto. Orientado não tem nada a ver com isso, é o papel no relacionamento, como expliquei acima. Isso é só para cutucar os teóricos que ficam mais preocupados com essas besteiras do que com a orientação propriamente dita.

O livro de coaching a que me referi, para não deixar vocês curiosos, é Coaching for performance, de John Whitmore, link para a Amazon. Li esse livro recentemente, se tiverem interesse no assunto, recomendo demais, é uma excelente introdução a este tema apaixonante.

Espero que esse meu depoimento sirva de inspiração para alguns de vocês, que ainda estão na dura jornada acadêmica.

(este artigo foi escrito por zeluisbraga, e postado no meu blog zeluisbraga . wordpress . com) (this post is authored by zeluisbraga, published on zeluisbraga . wordpress . com) (from Viçosa, MG)

Consultor Independente, Treinamento Empresarial, Gerência de Projetos, Engenharia de Requisitos de Software, Inovação. Professor Titular Aposentado, Departamento de Informática, Universidade Federal de Viçosa, Minas Gerais, Brasil. Doutor em Informática, PUC-Rio, 1990. Pós-Doutoramento, University of Florida, 1998-1999

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Publicado em Dicas, Educação, Empreendedorismo
5 comentários em “Orientação acadêmica
  1. Lembro vagamente de um aluno que você teve que dava umas dormidas em uma aula logo depois do almoço. E olha que ele me conta que gostava da disciplina (BD), mas que depois do almoço era dureza. Acho que ele foi seu orientado mais tarde…:-D

    • foram vários assim, Rodrigo. mas tivemos um caso emblemático, o rapaz comia demais no RU, e tinha aula as 14 horas comigo. coitado, dormia de babar, e eu ficava preocupado com ele. cheguei a sugerir que ele assistisse a aula em pé para ver o que acontecia, ele tentou e cochilou do mesmo jeito. abraço

  2. daniellainacio disse:

    Não me esqueço dos seus puxões de orelha, sempre com afeto, mas sempre preciso. Zé, assim que tem que ser, assim que a gente acorda pra vida. Hoje tento seguir um pouco do que aprendi com você (carro apertado é que anda… cuspe e giz…), pois você foi e sempre será um modelo pra mim.
    Grande abraço da Rosinha!🙂

  3. daniellainacio disse:

    Republicou isso em Blog da Rosinhae comentado:
    Vale muito a pena a leitura. Vamos ler e refletir nosso papel como orientadores/orientados.

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