Curso superior, qual o melhor para mim?

800px-Where_to_go-Qual curso superior é a melhor escolha para mim? Esta é a pergunta recorrente que gerações de jovens querem ver respondida, de preferência com muita certeza. Afinal, estão fazendo uma escolha de curso que pode significar a determinação de todo o seu futuro. Mas é uma pergunta que não faz mais muito sentido hoje, discuto abaixo. Lembro-me de que quando eu escolhi meu curso superior, não tinha muitas opções. A única certeza que eu tinha era a de que eu não queria ir para áreas biológicas ou da saúde, Medicina inclusa. Queria ir para Exatas, e as opções na época eram: Matemática, Física ou Engenharias. E eu já tinha uma experiência como programador de computadores, usando Fortran (a linguagem bisavó das linguagens de programação atualmente em uso), queria continuar na trilha da computação, que tinha e ainda tem enormes desafios, tanto práticos quanto na pesquisa acadêmica e no desenvolvimento tecnológico. Não existiam ainda cursos plenos na área de computação, a escolha óbvia seria uma Engenharia, que me permitiria continuar na computação. Apesar das poucas opções, foi uma escolha baseada na abrangência, pensando em que um curso de engenharia me prepararia muito bem para várias funções e carreiras futuras, com uma visão ampla de problemas e situações, visão sistêmica.

Assim, escolhi a Engenharia Elétrica, e vim para BH estudar no IPUC-UCMG (Instituto Politécnico da Universidade Católica de Minas Gerais), hoje PUC-Minas. Arrependimento nenhum, fiz um bom curso, de fato me preparou para a vida e seus desafios, e eu ainda trabalhava como programador COBOL na PRODEMGE, desde o meu segundo ano de curso. Muita experiência adquirida, muitos desafios, muita gerência de tempo, que me permitiram determinar e ir ajustando minha carreira profissional depois da formatura. A escolha: fiz concurso na UFV por opção pessoal, fui ser professor, segui toda a carreira do mestrado ao doutorado e ao pós-doutorado, até atingir o nível de Professor Titular em que me aposentei recentemente. Nunca me arrependi da escolha da Engenharia Elétrica, foi acertada para a época, o mesmo posso dizer de ter escolhido a carreira acadêmica, que na época era uma boa escolha (hoje nem tanto).

Entendo que o problema hoje é muito mais complicado. Os cursos foram se dividindo e se especializando em áreas, antes eram mais concentrados e mais abrangentes, mais sistêmicos, e alguns hoje são mais especializados aumentando demais as opções, dificultando enormemente as escolhas. Não vou citar exemplos, para não melindrar profissionais que já estão no mercado, mas é muito fácil achar vários. Uma escolha mais específica pode de fato dificultar a mobilidade profissional futura, com o complicador de que o corporativismo impera no mercado profissional, limitando ou até impedindo algumas mudanças de rumo após a formatura. Aquela ideia de que posso escolher um determinado curso e depois da formatura, se eu quiser mudar de rumo, posso fazer um mestrado na nova área escolhida que fica tudo resolvido, não é mais tão válido e tão fácil assim de aplicar. Editais de concursos costumam colocar travas corporativas, e é muito comum encontrar editais exigindo profissionais com formação superior específica, quando na verdade não seria necessário nem prudente especificar tanto assim. Em algumas situações é obrigatório exigir formação específica, mas são casos justos e raros, em áreas críticas.

Bom, mas e daí, como é que decide? Se eu fosse escolher meu curso superior hoje, com a experiência de vida que tenho, continuaria na mesma linha que adotei no passado: escolheria o curso superior com a maior abrangência possível dentro das minhas preferências, e deixaria para me especializar no futuro, quando minhas escolhas profissionais exigirem. Por exemplo, eu escolheria Administração ao invés de qualquer ramificação que especialize mais: Gestão de AlgumaCoisa é mais especializado, no meu entendimento uma escolha menos adequada que Administração, o mesmo raciocínio vale para as demais escolhas. Isso explica, por exemplo, porque as Engenharias continuam com um nível alto de procura e concorrência nos vestibulares, vale o que eu disse no inicio da postagem. O formando sai com visão sistêmica, um bom preparo na resolução de problemas, o que lhe facilita os ajustes futuros de carreira. Exceto, é claro, se sua preferência ou tendência profissional for para um curso superior de Matemática, Física, Biologias, etc., que são na verdade  cursos em áreas fundamentais, escolhas adequadas para quem quer seguir carreira de pesquisador ou professor.

Não existe, para mim, a “escolha do melhor curso”, daquele curso que vai  proporcionar mais brilho e mais sucesso na carreira. As escolhas devem ser “adequadas”, e as correções de rumo podem e devem ser feitas com coragem e foco, sempre (tenho vários ex-alunos que largaram o curso de Computação em algum ponto  para começarem outro curso, sem problema algum, corrigiram o percurso no momento adequado). Para ter sucesso profissional, fatores fortes e importantes estão em jogo: sua dedicação ao curso, seu nível de desempenho, os estágios que você fez, as atividades extra-curriculares que você desenvolveu (festas não fazem parte destas atividades), as boas leituras extra-classe, suas habilidades em outras línguas, etc.

Boa parte dos jovens das novas gerações vivem de “informação rasa”, o que não leva a mudança de mentalidade ou melhora do nível de conhecimento em algum assunto. O padrão é fazer uma busca no Google, pegar um link “bom” entre os três primeiros que aparecerem, ler rapidamente o conteúdo (se for longo demais, não serve), e daí formar opinião sobre assunto sério e complicado, de certa forma “terceirizando” sua opinião. Do ponto de vista profissional, de carreira, isso é inaceitável sob todo e qualquer aspecto, é um desastre. Profissional com opinião rasa tem carreira rasa, esbarra em qualquer pedra no meio do caminho, não resiste a uma entrevista bem conduzida. Basta entrar em alguma rede social, para verificar o que estou dizendo: todo mundo tem opinião definitiva sobre qualquer assunto, é incrível.

Sem dedicação, trabalho sério, construção diária de experiência e conhecimento, foco no curso e no seu conteúdo, você só vai perder tempo e dinheiro na vida. Dificilmente vai chegar ao tão desejado “sucesso”, que é outro conceito conturbado e cheio de nuances, não é mais um conceito absoluto.  Portanto, mãos  à obra, sem trabalho não há como avançar e ser feliz profissionalmente.

Postagens relacionadas:  –Mercado ou mestrado?; –Serviço público ou iniciativa privada?; –Orientação acadêmica;

Atualização: um leitor do blog enviou uma mensagem me pedindo ajuda em alguns pontos da postagem, que ele gostaria de entender melhor. Reproduzo abaixo, anônimo, parte da conversa, acho que pode enriquecer a postagem. 

Pergunta: Você disse que a carreira acadêmica era boa e hoje nem tanto. Sou servidor público federal do judiciário, meu salário está nos ………, porém gosto muito do ambiente acadêmico e da “liberdade” que você possui em ser professor. Hoje o salário das duas carreiras é bem parecido, quando se tem o doutorado. O Judiciário paga bem porém não gosto do serviço, é coisa muito burocrática, altamente hierarquizado, muita formalidade e etc.

Meu comentário: a carreira acadêmica ficou muito engessada, e aquela liberdade que o professor tinha para criar, orientar, escolher temas de pesquisa, contatos, etc., ficou mais restrita. falta de recursos oficiais, tendência pesada de massificação da universidade pública, piora sensível na qualidade do aluno que estamos recebendo, maioria sem base suficiente para levar adiante bons projetos e desenvolver um bom curso. tudo isso é desmotivante. aliado a isso, ainda tem a questão politica que é séria, as universidades públicas se transformaram em locais preferidos para militantes de partidos politicos, asfixiam as iniciativas contrárias, não aceitam discussões de boas ideias, e emparedam os que não fazem parte do grupo. há várias noticias sobre isso rodando na web, e isso pode ser facilmente detetado. o salário é congelado, não acompanha a iniciativa privada, já perdemos o poder de compra com o salário, quem está na ativa com filhos para criar está passando muito aperto (novamente, eu passei aperto minha vida inteira).

Pergunta:Estou fazendo o mestrado agora e penso em talvez dar aula a noite enquanto trabalho ou mudar para a carreira universitária, igual você fez, mesmo, se eu entrar como mestre, ganhando menos, e depois me doutorando receber mais.

Meu comentário: doutorado é essencial e indispensável para a carreira acadêmica. hoje ela começa no doutorado, você ganha tempo e avança mais rápido na carreira, o mais jovem tem maior produtividade, mais agressividade, trabalha mais rápido e é mais eficaz.

Pergunta: Porque antes a carreira era melhor? O salário era melhor? Eram mais salários mínimos? Porque não me recomendaria entrar para a carreira hoje? O mercado hoje está pagando melhor? Ou o mercado sempre pagou melhor? Porque o mercado possui alguns cargos que pagam muito bem, antes era assim também? Ou a carreira de magistério superior antes era muito mais valorizada?

Meu comentário: respondo os dois últimos parágrafos aqui. a carreira já foi atrativa quando eu entrei na carreira. nem tanto pelo salário, que nunca foi grandes coisas, sempre ficamos na base do aperto para tudo, até para trocar pneu de carro, tendo que fazer greves regulares e quase que uma por ano, para conseguir umas merrecas de melhorias salariais. meu salário medido em dólar, era maior quando eu fui contratado como auxiliar de ensino e nem mestrado eu tinha, do que quando eu me aposentei com mestrado, doutorado, posdoutorado, etc. é uma carreira de baixo risco e muita segurança, por isso mesmo paga mal e não compete com o mercado em termos salariais.

a questão de mercado depende muito do perfil de cada um. espaço para profissional competente sempre vai haver, em qualquer lugar do mundo. você tem que cavar o seu buraco, e fazer sua carreira, como acontece fora do país. tenho vários exemplos de profissionais que estão no mercado, e avançam muito rapidamente, têm competência e posicionamento forte no mercado. mas tudo depende de você, essencialmente. se você quer seguir carreira acadêmica, parabéns, é uma carreira desafiante intelectualmente (se você quiser que seja), muito aprendizado, rede imensa de contatos, etc. mas vá preparado para os dissabores, a falta de grana, os colegas militantes, os alunos sem preparo que vão torrar sua paciência na sala de aula, etc.  abraço,

Esta é uma postagem baseada na minha experiência de educador e orientador, testada em inúmeros casos de sucesso. Como tal, certamente pode não coincidir com a opinião de alguns leitores, mas se ela servir para pelo menos acender alguma luzinha, já terá cumprido seu papel.

(este artigo foi escrito por zeluisbraga, e postado no meu blog zeluisbraga . wordpress . com) (this post is authored by zeluisbraga, published on zeluisbraga . wordpress . com) (from Belo Horizonte, MG)

Consultor Independente, Treinamento Empresarial, Gerência de Projetos, Engenharia de Requisitos de Software, Inovação. Professor Titular Aposentado, Departamento de Informática, Universidade Federal de Viçosa, Minas Gerais, Brasil. Doutor em Informática, PUC-Rio, 1990. Pós-Doutoramento, University of Florida, 1998-1999

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Publicado em Carreira, Educação, Reflexões
4 comentários em “Curso superior, qual o melhor para mim?
  1. Luiz Carneiro disse:

    Como sempre um ótimo texto. Já mandei o link para os meus 2 filhos (um que já está cursando a FEA-USP e outro que vive o momento da escolha). Parabéns!!!

  2. Ivo Santiago disse:

    Mais um ótimo texto Zé!

    Já tive essa conversa mil vezes com meus irmãos e minha namorada. A parte que mais me intriga é o caminho de quem escolhe uma ciência pura (física, matemática, biologia, etc).

    O mercado nacional definitivamente não sabe absorver bem essas pessoas e mtas vezes perdem ótimos talentos por acharem que eles só servem para dar aula e fazer pesquisas.

    Gostaria muito de um dia ver uma saída mais fácil pra esse pessoal

    • de fato, Ivo, o destino para quem segue pelas áreas básicas é ser professor. pesquisador, cada vez mais dificil. só mesmo fora do Brasil, mesmo assim para enfrentar uma concorrência fortíssima, praticamente sem espaço para botar a cara prá fora. abraço

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