Idolos

O nobre inglês e filósofo Francis Bacon viveu entre o final do século XVI e o início do século XVII, ainda na onda das consequências benéficas do Renascimento. É considerado fundador da ciência moderna com enormes contribuições ao método científico, considerado um avanço como organizador do processo de investigação científica, em uso até nossos tempos (embora já existam discordâncias em algumas áreas). Seu legado está descrito  na obra Novum Organum considerada um marco na filosofia  da ciência.

250px-francis_bacon_viscount_st_alban_from_npg_2Dentre suas contribuições, a denominada Teoria dos Idolos é a que talvez tenha sobrevivido com mais força até nossos dias, por sua atualidade e por desnudar alguns vícios de interpretação e de comportamento dos cientistas de todos os tempos. Sua preocupação é com a polarização e parcialidade na análise e interpretação de resultados, e na condução do processo de investigação científica. Antes de continuar, vou estabelecer a semântica do termo idolo: “Um ídolo (do grego antigo εἴδωλον, “simulacro”, derivado de εἶδος, “aspecto”, “figura”) é, originalmente, um objeto de adoração que representa materialmente uma entidade espiritual ou divina, e frequentemente é associado a ele poderes sobrenaturais, ou a propriedade de permitir uma comunicação entre os mortais e o outro mundo. A idolatria é, portanto, a prática de adoração de ídolos. Na atualidade, especialmente após os avanços tecnológicos do século XX que permitiram maior acesso da pessoa comum a trabalhos de artistas, políticos, e personalidades importantes, o termo “ídolo” expandiu-se da esfera divina para a esfera humana. É lugar comum a menção de pessoas famosas ou de destaque em sua área de atuação profissional como “ídolos”, personalidades que se tornam, ou através da aclamação popular espontânea, ou através da atuação direta da própria mídia, objeto de adoração e devoção não religiosa.” (wikipedia)

Bacon relaciona quatro tipos de possíveis vícios naturais, ou ídolos:

“1) Idola Tribus (ídolos da tribo): Ocorrem por conta das deficiências do próprio espírito humano e se revelam pela facilidade com que generalizamos com base nos casos favoráveis, omitindo os desfavoráveis. O homem é o padrão das coisas, faz com que todas as percepções dos sentidos e da mente sejam tomadas como verdade, sendo que pertencem apenas ao homem e não ao universo. Dizia que a mente se desfigura da realidade. São assim chamados porque são inerentes à natureza humana, à própria tribo ou raça humana.

2) Idola Specus (ídolos da caverna): De acordo com Bacon, cada pessoa possui sua própria caverna, que interpreta e distorce a luz particular, à qual estão acostumados. Isso quer dizer que, da mesma maneira presente na obra ‘República’ de Platão, os indivíduos, cada um, possui a sua crença, sua verdade particular, tida como única e indiscutível. Portanto, os ídolos da caverna perturbam o conhecimento, uma vez que mantêm o homem preso em preconceitos e singularidades.

3) Idola Fori (ídolos do foro): Segundo Bacon, os ídolos do foro são os mais perturbadores, já que estes alojam-se no intelecto graças ao pacto de palavras e de nomes. Para os teóricos matemáticos um modo de restaurar a ordem seria através das definições. Porém de acordo com a teoria baconiana, nem mesmo as definições poderiam remediar totalmente esse mal, tratando-se de coisas materiais e naturais posto que as próprias definições constam de palavras e as palavras engendram palavras. Percebe-se portanto, que as palavras possuem certo grau de distorção e erro, sendo que umas possuem maior distorção e erro que outras.

4) Idola Theatri (ídolos do teatro): Os ídolos do teatro têm suas causas nos sistemas filosóficos e em regras falseadas de demonstrações. Os falsos conceitos, são as ideologias, essas são produzidas por engendramentos filosóficos, teológicos, políticos e científicos, todos ilusórios. Os ídolos do teatro, para Bacon, eram os mais perigosos, porque, em sua época, predominava o princípio da autoridade – os livros da antiguidade e os livros sagrados eram considerados a fonte de todo o conhecimento.” Mais uma vez recorri à Wikipedia, seria desnecessário reescrever tudo isso para chegar a um resultado talvez pior.

Vejam que a Teoria dos Idolos é muito atual, não conseguimos nos safar dela, pois todos temos os vícios apontados, em maior ou  menor grau. São naturais, e como cientistas temos que ficar vigilantes para não deixar que turvem nossa mente na interpretação de resultados com parcialidade ou vício. Em particular, é de impressionar o Idola Theatri, que é totalmente apropriado aos nossos tempos no mundo todo, e em particular ao Brasil: Os falsos conceitos, são as ideologias, essas são produzidas por engendramentos filosóficos, teológicos, políticos e científicos, todos ilusórios. Precisa falar mais?

Bom, porque estou trazendo esse assunto aqui para o blog? Antes de mais nada, porque acho interessante  para meus leitores conhecerem Francis Bacon e seu legado para a ciência. Mas, também porque na minha participação nas redes sociais e dado meu interesse recente por elas, tenho observado algumas opiniões e comportamentos descabidos e claramente viciados no meu entendimento. Pessoas abrindo mão da nossa capacidade de pensar  e de obter informação de qualidade e de formar bons modelos semânticos. O ser humano é o único na natureza que nasce com a mente “limpa” ou tabula rasa (há controvérsias com relação a isso), e a mente vai sendo povoada na medida em que se vai amadurecendo e aprendendo com a realidade. Esse é um processo cognitivo que dura a vida inteira, é uma formação de modelo ou filtro semântico com que passamos a enxergar a realidade. Passa por ciclos, adaptações, correções (mas nunca esquecimento, o aprendido fica lá em algum canto, superposto por refinamentos ou conhecimento novo).

Quem reconhece isso, não perde oportunidades de aprender tudo o que for possível (felizmente é o meu caso). Leituras, convivências com grupos diversos, exposição a novas ideias, confrontamento de ideias, humildade para reconhecer descaminhos e desvios, e coragem para acertar os rumos, tudo isso faz parte do nosso ferramental mental natural, e que temos que saber usar para o nosso próprio bem. Mesmo assim, é dureza ficar isento dos ídolos…

(este artigo foi escrito por zeluisbraga, e postado no meu blog zeluisbraga . wordpress . com) (this post is authored by zeluisbraga, published on zeluisbraga . wordpress . com) (from Belo Horizonte, MG)

Consultor Independente, Treinamento Empresarial, Gerência de Projetos, Engenharia de Requisitos de Software, Inovação. Professor Titular Aposentado, Departamento de Informática, Universidade Federal de Viçosa, Minas Gerais, Brasil. Doutor em Informática, PUC-Rio, 1990. Pós-Doutoramento, University of Florida, 1998-1999

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Publicado em Educação, Filosofia, Social
Um comentário em “Idolos
  1. Marcio Antonio Molica Soares disse:

    A vida dos ídolos de teatro ficou substancialmente mais complicada com o avanço da Internet e das redes sociais. Felizmente.

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