Tecnologia e dependência 

Não  há muito tempo, era comum as pessoas ainda saberem se orientar sem a dependência de tecnologia. Bastava saber onde estava o Norte, que ficava quase tudo resolvido. Numa grande cidade, a localização das vias principais era um primeiro passo para a gente se orientar. Depois de algumas erradas e acertadas, uma primeira aproximação de um mapa já estava configurada na cabeça e daí em diante era só acrescentar os detalhes das novas experiências. A estrutura já estava pronta para receber novas informações.

Para pegar estrada com o carro para locais desconhecidos, bastava um estudo de mapas do Guia Quatro Rodas do Brasil, que era atualizado regularmente. Trazia um livro com mapas e informações sobre as principais cidades de todo o país, e um mapa do Brasil com todas as principais estradas e acessos a elas. Mapão na mão da minha navegadora preferida, guia das cidades no porta-luvas, e a gente encarava a estrada e entrava nas cidades com segurança. Aqui nos EUA, usávamos os excelentes guias Rand McNally que são editados em papel até hoje e podem ser comprados  em qualquer ponto de parada nas rodovias. Assim funcionava a orientação nas cidades e estradas do mundo todo, obrigando todo mundo a saber se orientar, localizar o Norte, um exercício mental saudável e divertido.


Mas… é claro que a tecnologia evolui para nos dar mais conforto e segurança, pelo menos supostamente. E assim, se entrarem nos sites da Quatro Rodas ou do Rand McNally, vai ser difícil encontrarem os mapas impressos. O que aparece são os tablets especializados e atualizáveis, basta indicar o destino e seguir as orientações visuais e de voz do aparelho. A voz do Dart Vader nos direciona e guia ao destino. Se erramos na estrada ou rua, a rota é reconfigurada sem problemas e o software salva nossa pele. Isso não é mais novidade nenhuma, pois o Google Maps, Waze, Here e vários outros construídos sobre a API do Google Maps já oferecem esses recursos, tornando obsoletos os demais equipamentos. Basta um smartphone ou tablet com acesso a internet ou com GPS embutido, e fica tudo certo. Exceto quando falha a rede da operadora de celular ou nuvens de chuva bloqueiam o sinal de satélite e o GPS, aí danou-se. Como é que faz? Como ninguém mais sabe se orientar pelo Norte, o jeito é parar na primeira oportunidade e ficar tomando café até o sinal voltar…


O fato que quero evidenciar é exatamente essa dependência excessiva, essa entrega incondicional, à tecnologia e seus desdobramentos. As pessoas confiam tanto no equipamento e na tecnologia, que mesmo conhecendo a região onde vão circular, saem de casa com o Google Maps ativo. Claro, pode ter algum engarrafamento ou bloqueio policial e o software vai nos redirecionar. Mas, com todo mundo usando o Maps, vão acontecer engarrafamentos logo adiante, e o Maps redireciona, e outro engarrafamento surge, e ai vamos recursivamente sendo guiados pela tecnologia para o novo nó criado pelo uso da tecnologia… Mesmo não acontecendo nada disso, seguem o direcionamento da voz do aparelho por vicio ou costume com a tecnologia.


Tecnologia vem para resolver problemas, felizmente. Mas não podemos abrir mão da nossa competência e do nosso conhecimento, para abraçarmos a tecnologia cegamente. O Norte ainda está lá disponível, basta uma bússola (alguém se lembra delas?) que os smartphones oferecem aos montes. A mente tem que ser exercitada. No limite, não vamos conseguir mais nem achar o banheiro das nossas moradias sem ajuda do smartphone. Duvidam?


Links

Guia Quatro Rodas – infelizmente o guia a que me referi na postagem não existe mais na forma impressa


Rand McNally – vai o link do guia na Amazon. O site é randmcnally.com.


(Fui inspirado por minha netinha de 10 meses que ficou me rodeando com muitos sorrisos, bubu, baba, bobô, e que se orienta muito bem sem smartphone)


(Escrito por José Luis Braga para publicação no blog zeluisbraga.wordpress.com) (from Emerson, NJ, EUA)

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Consultor Independente, Treinamento Empresarial, Gerência de Projetos, Engenharia de Requisitos de Software, Inovação. Professor Titular Aposentado, Departamento de Informática, Universidade Federal de Viçosa, Minas Gerais, Brasil. Doutor em Informática, PUC-Rio, 1990. Pós-Doutoramento, University of Florida, 1998-1999

Publicado em Tecnologia
2 comentários em “Tecnologia e dependência 
  1. Bem notado Zé. Fico zoando o povo aqui em SP pela falta de rumo deles. Ligam o Waze pra fazer o percurso casa-trabalho-casa, que fazem todo santo dia, com a desculpa do “trânsito”, mas quando o celular descarrega, ficam desorientados, sem rumo.
    Povo desaprendeu a notar o nome das ruas, dos bairros , das pontes, ou mesmo usar o “fluxo” do rio, ou até do trânsito pra saber o rumo que tem que tomar. Acho engraçado.

  2. daniellainacio disse:

    Estava falando há pouco com uma colega de trabalho sobre essa dependência da tecnologia. Mas estava usando o WhatsApp como referência: as pessoas hoje em dia acham que você tem obrigação de responder… e o pior: tem que responder na hora.
    Enfim, sou amante da tecnologia, mas mais amante ainda do bom uso que se faz dela.
    Em relação à dependência da tecnologia, aprendi com um certo professor do mestrado que DataShow ajuda na apresentação de seminários, mas ele não substitui cuspe e giz. E isso eu levo pra vida: o conhecimento tem que existir, independente da tecnologia.
    Abração procê, Zé! Inté! 🙂

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