Os contra e os a favor

1-Senhor Presidente, em nome da democracia, eu voto SIM. 2-Senhor Presidente, em nome da democracia, eu voto NÃO. 3-Senhor Presidente, contra a corrupção nesse país, eu voto NÃO. 4-Senhor Presidente, contra a corrupção nesse país, eu voto SIM. 5-Senhor Presidente, pelo futuro dos meus filhos e netos, eu voto NÃO. 6-Senhor Presidente, pelo futuro dos meus filhos e netos, eu voto SIM.

Mas que doideira é essa, gente? Todo mundo falando a mesma coisa, e uma turma votando SIM e outra votando NÃO pelos mesmos motivos. Como é que vamos entender uma coisa dessas? E esses exemplos ai são apenas alguns, há vários outros sempre antagônicos, num comportamento maniqueísta que divide tudo entre o BEM e o MAL. Como é que o cidadão que vota e vai ser chamado às urnas em 2018 vai decidir baseado nessa inconsistência toda?

51sQPiSLW+L._AC_AA218_Coincidência, terminei de ler exatamente nessa semana o excelente livro Subliminar, de Leonard Mlodinow, o mesmo autor de O andar do bêbado (sobre o acaso em nossas vidas). O tema central do livro é o poder do subconsciente, descreve como as pesquisas avançaram na análise da mente com o uso de fMRI (functional Magnetic Ressonance Imaging), a conhecida Ressonância Magnética, e outras técnicas dentro da Psicologia Experimental. Que é uma área de desenvolvimento relativamente recente na Psicologia, desacreditada no início, e hoje com resultados surpreendentes em termos de explicação e entendimento do comportamento humano e do papel silencioso desempenhado pelo subconsciente. Que também era considerado proscrito pela psicologia até há pouco tempo, certamente pelo desconhecimento e pela impossibilidade de observação e entendimento. Dando origem à Neurociência Social, uma junção de tudo isso em uma área nova, surpreendente e desafiadora.

E o livro explica esse comportamento maluco dos nossos legisladores, voto SIM e voto NÃO exatamente pelos mesmos motivos e razões? O livro é totalmente sobre esse tipo de comportamento, sua descrição e entendimento. Particularmente, no capítulo 8 – In-groups e out-groups, ele é enfocado mais diretamente.  Pela citação no início do capítulo, já é possível ter uma ideia do que se trata: “Todos os grupos… desenvolvem uma forma de viver, com códigos e convicções característicos – Gordon Allport”. Como seres sociais que somos, temos necessidade natural de nos sentirmos incluídos em algum grupo, seja lá do que for, pois se assim não fosse, viveríamos isolados sem possibilidade de convívio com outras pessoas, o que acabaria por nos levar certamente à loucura ou à morte prematura. E como parte ativa de grupos sociais, temos o sentimento de pertencimento, de valorização pessoal, de sentimento corporativo, que nos levam a defender as ideias do grupo e de valorizar os demais participantes do grupo. Já viram isso em algum lugar? Algum comportamento estranho de pessoas que pertencem a grupos específicos, como por exemplo torcida de time de futebol, partidos políticos, esquerda x direita, golpistas x não golpistas, bem x mal, e vamos por ai afora, exemplos não faltam. Sem esquecer, é claro, da nossa tendência natural de favorecer colegas pertencentes ao mesmo grupo em situação de escolha, muitas vezes deixando a imparcialidade necessária de lado.

O conceito de In-group é esse, o pertencimento a grupos que moldam nosso comportamento. O Out-group é o oposto, grupos de que somos excluídos por alguma razão, podendo desencadear sentimentos de raiva ou de vingança por não pertencermos ao grupo. O que também e rapidamente nos leva a doenças sociais sérias, o ponto final é a morte causada por nós mesmos.

Não sou psicólogo mas, na minha longa carreira de interesses e leituras, já li demais sobre a área, tive que entender muita coisa para desenvolver minhas pesquisas em Inteligência Artificial na época do doutorado e posteriormente, por interesse intelectual próprio. Entendo alguma coisa, e vejo no comportamento dos nossos legisladores essa questão de pertencimento e não pertencimento, In-groups e Out-groups. Deputados que pertencem a partidos favorecidos pelas benesses do governo, que formam a “base governista”, têm uma visão de tudo viciada por esse pertencimento. Por outro lado, os de oposição (será que temos mesmo oposição por aqui?) fazem exatamente o contrário. Não tem jeito de explicar, mas tem jeito de entender.

Recomendo demais esse livro, acho que é leitura obrigatória, fácil, curto, livro de bolso, e barato. Não tem desculpa para não ler!

(este artigo foi escrito por zeluisbraga, e postado no meu blog zeluisbraga . wordpress . com) (this post is authored by zeluisbraga, published on zeluisbraga . wordpress . com) (from Viçosa, MG)

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Consultor Independente, Treinamento Empresarial, Gerência de Projetos, Engenharia de Requisitos de Software, Inovação. Professor Titular Aposentado, Departamento de Informática, Universidade Federal de Viçosa, Minas Gerais, Brasil. Doutor em Informática, PUC-Rio, 1990. Pós-Doutoramento, University of Florida, 1998-1999

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Publicado em Livros, Reflexões, Social

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