Passeando no meu passado

Sempre que venho a Belo Horizonte para ficar mais tempo, gosto de dar uma volta pelo centro da cidade. Quando estudei aqui de 1971 a 1976, o centro era preferido pelos estudantes que vinham do interior para estudar na capital. Muitos hotéis sérios, familiares, moradia de muitos de nós, eu incluído. Era mais tranquilo morar no hotel, menos preocupações, e mais barato. Hotel Magalhães, na rua Espírito Santo entre rua dos Caetés e av. Santos Dumont; Hotel Americano entre av. Santos Dumont e rua dos Guaicurus (isso mesmo, na boca da antiga zona boêmia de BH), Hotel Londres na av. Santos Dumont quase esquina de rua Espirito Santo, são alguns hotéis onde já morei. Já presenciei várias enchentes do Arrudas, que transformavam a av. Santos Dumont em um verdadeiro rio que carregava os fuscas que ficavam estacionados. Já vi dono de fusca amarrando o carro em poste para não ser levado para a praca da Estação.

Normalmente tomávamos café da manhã no hotel, e o almoço era no restaurante da faculdade. Eu me formei em Engenharia Elétrica na PUC-Minas, em 1976. Todo dia, busão para lá de manhã, aulas, almoço no restaurante, busão de volta para o centro, para em seguida subir a rua da Bahia até a Praça da Liberdade, onde eu trabalhava na Prodemge. Na época quase não havia linha de ônibus bairro-bairro, acho que uma das raras (ou talvez a única) era a linha 60, Sion-Floresta, que subia a rua da Bahia até o bairro, e passava exatamente em frente de onde eu trabalhava (não consegui achar referências). A Prodemge ficava (ainda tem uma unidade lá) atrás do Palácio dos Despachos na Praça da Liberdade, na frente da sede social do Minas Tênis Clube. Normalmente essa linha 60 era lotada entre meio dia e uma hora, alunos do colégio Santo Antônio principalmente. Raramente conseguia entrar no ônibus, o que me obrigou a desenvolver o saudável hábito de subir a rua da Bahia a pé todos os dias, para trabalhar de 13 às 19 horas como programador Cobol na Prodemge. Final do expediente, descia também a pé, era muito bom e saudável. Enfim, tudo isso para dizer que tinha e ainda tenho total intimidade com o centro de BH, onde passei meus anos de faculdade, uma época boa da minha vida.

Ontem, de bobeira aqui em BH, eu e um colega do curso de engenharia, amigão da vida inteira, resolvemos ir tomar um café na padaria Belopães, que fica no começo da av. Santos Dumont. Cheguei um pouco mais cedo, e fiquei rodando pelos locais onde vivi meu passado, minha época de estudante em BH. Primeiro choque, a av. Santos Dumont hoje é uma estação do Move de ponta a ponta, estou atrasado nisso, já deve ter muito tempo que é assim. Continua lotada de gente, com o mesmo tipo de comércio que tinha na época. Muita lanchonete, muita loja pequena. O choque foi quando vi o Hotel Londres, completamente degradado e fechado (bloqueado para não ser invadido). Em nada lembra o passado dele. E assim foi com outros prédios que tinha como referência na época, como o Hotel Majestic ainda bem preservado e com outro nome, o Hotel Magalhães que hoje é uma unidade de recrutamento do estado. Outros prédios de que me lembrava seguiram o mesmo caminho, degradados completamente. A boa surpresa foi o Hotel Esplanada, na época uma referência de bom hotel, mantém a imponência com o prédio bem tratado e bonito. Não esquecendo de que o nosso café foi excelente, recomendo a padaria se ainda não conhecem. Tranquilo, grande, muito movimento, pão de primeira, atendimento simpático.

No meu entendimento, as administrações deveriam investir mais nos centros das cidades. Muita circulação de gente, ponto de comutação entre transportes coletivos, um verdadeiro mar de gente. Que precisa de infraestrutura pública, banheiros, serviços, algum local para sentar um pouco e descansar as pernas, um centro mais humanizado. Até que em termos de serviços a PBH avançou bem com o BHResolve, não podemos reclamar. Mas falta um pouco de humanização, valorização dos equipamentos que já estão disponiveis no centro. Sei que não adianta muito dar ideias, já se passaram mais de 40 anos, e está tudo lá quase que do mesmo jeito. Foi bom passear no meu passado, vou voltar lá mais vezes.

(este artigo foi escrito por zeluisbraga, e postado no meu blog zeluisbraga . wordpress . com) (this post is authored by zeluisbraga, published on zeluisbraga . wordpress . com) (from Belo Horizonte, MG)

Consultor Independente, Treinamento Empresarial, Gerência de Projetos, Engenharia de Requisitos de Software, Inovação. Professor Titular Aposentado, Departamento de Informática, Universidade Federal de Viçosa, Minas Gerais, Brasil. Doutor em Informática, PUC-Rio, 1990. Pós-Doutoramento, University of Florida, 1998-1999

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Publicado em Opinião, Reflexões, Social

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