Mudando o estilo do texto

Como orientador e professor, eu esperava que os vícios de escrita e organização de texto derivados do uso das redes sociais demorassem um pouco mais a aparecer no texto técnico. Ou, na verdade, esperava que nunca aparecessem, e que ficassem restritos à comunicação na internet.

Mas, engano meu. O estilo que estou chamando “estilo twitter” já está emergindo, e aparecendo com muita frequência nos textos técnicos. Mas o que é isto? Textos organizados na forma de parágrafos curtos (por exemplo 140 caracteres…), cada pedaço da ideia principal espalhado por um monte de parágrafos em sequência. Dificultando a leitura e o entendimento da ideia, pois cabe ao leitor sair concatenando tudo para tentar entender corretamente a ideia que está sendo passada no texto. Parece que o conceito de parágrafo, aglutinador de ideias relacionadas, já foi corrompido.

Uma conclusão parcial é a de que as novas gerações perderam (se é que já tiveram) a capacidade de se expressar corretamente através da escrita. Mais uma vez, escreve bem quem lê muitos e bons textos, de bons autores. Livros, bons livros sempre. A leitura de notícias nas redes sociais, por exemplo, não passa esse conhecimento aos leitores. São headlines, úteis para uma ou mais gerações que têm pressa de tudo, e que mal lêem meia dúzia de linhas e já mandam a notícia adiante, e já formam opinião sobre assuntos polêmicos. E discutem doutamente as ideias, banalizando situações complicadas que fazem parte do mundo atual.

Minha função de orientador ficou mais desafiadora neste novo contexto. Quando recebo um texto de um aluno, por exemplo uma dissertação pronta ou parcialmente pronta, eu passo hoje mais tempo corrigindo e acertando o texto, a forma, juntando parágrafos, corrigindo uso indevido de termos e palavras, do que propriamente me dedicando a entender e contribuir com o principal, que é o conteúdo. Percebo também que está sendo tempo perdido meu, pois minhas observações mudam pouco ou quase nada na formação do aluno. O aluno aceita as observações, até corrige, mas logo adiante continua fazendo da mesma forma que já fazia. A questão já é cultural.

Isso não é uma onda passageira, as consequências são imprevisíveis. A linguagem que a gente usa forma parte do nosso caráter, da nossa cultura. A linguagem tem história associada, e a cultura de um povo depende em parte da língua que esse povo usa.

Acho que vou me aposentar de novo!

(este artigo foi escrito por zeluisbraga, e postado no meu blog zeluisbraga . wordpress . com) (this post is authored by zeluisbraga, published on zeluisbraga . wordpress . com) (from Viçosa, MG) (Estou no GoodReads)

Consultor Independente, Treinamento Empresarial, Gerência de Projetos, Engenharia de Requisitos de Software, Inovação. Professor Titular Aposentado, Departamento de Informática, Universidade Federal de Viçosa, Minas Gerais, Brasil. Doutor em Informática, PUC-Rio, 1990. Pós-Doutoramento, University of Florida, 1998-1999

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Publicado em Educação, Reflexões, Social
9 comentários em “Mudando o estilo do texto
  1. Guilherme Nacif disse:

    Vai ter que reiniciar tudo

  2. daniellainacio disse:

    Enfrento esse problema há bastante tempo com meus alunos, Zé. Infelizmente a escrita está cada vez pior, com erros de português gravíssimos, incluindo concordância verbal e nominal, acentuação, pontuação… Sem contar a falta de coerência. Enfim, temos um longo desafio pela frente. Força!

  3. rommelcarneiro disse:

    Boa, Zé. Vejo o mesmo. Algumas orientações poderiam muito bem ser substituídas pelo corretor ortográfico, que alguns sequer conhecem.

  4. Vinci disse:

    hehehe…
    Põe esses guris para ler Writing Tools, do Roy Peter Clark!
    Ou, pelo menos, uma rodada do hemingwayapp.com

  5. railer disse:

    É por aí mesmo, as pessoas não leem mais e isso se reflete na escrita. Quem sabe não seja hora de entrar com o português como disciplina obrigatória do mestrado/doutorado? hehehe

  6. leogazzola disse:

    Grande Zé Luis. Faz tempo que não comento aqui :-). Bom, sempre é bom entender motivos, obviamente motivo não é desculpa. Acredito que é forma como o mundo exige das pessoas. A tempestividade e foco hoje são valores muito acima de coesão, integridade e profundidade, e isso se reflete na comunicação. Ou se resolve no bate pronto ou se risca da lista. Um meio termo interessante que tem me auxiliado nisso é o método GTD ( Get The Things Done ).

    • Léo, já tem tempo mesmo. Eu estou acompanhando e vendo que a solução virá pela tecnologia, IA. Editores com inteligência embarcada, pegam as ideias e produzem os textos corretos. E o ser humano vai ficando mais vazio a cada dia… Abraço

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