A voz das coisas

Estava ouvindo um comentário de um jornalista, dos raros que eu acompanho nas redes sociais, quando ele falou sobre Antônio Gonçalves Dias, nosso poeta, escritor, advogado maranhense, nascido e falecido no século XIX. E mais conhecido pelo seu belo e festejado poema I-Juca-Pirama, que merece ser lido e relido por todos nós.

Não sei porque, me veio à mente “E Juca ouviu a voz das coisas”, de um poema que aprendemos no ginásio (quem passou pelo ginásio vai se lembrar desta poesia). Mais um poema daqueles que decoramos, declamamos e discutimos na sala de aula, e que certamente deixam marcas. Mas essa frase aí não tem relação nenhuma com I-Juca-Pirama, é de outro poema de Menotti del Pichia, A voz das coisas, e que é o título desta postagem.

Claro, fui reler o poema, agora com cabeça de 70 anos (daqui a 20 dias). Maravilhoso, fala da nossa relação com a terra em que nascemos e vivemos, com as origens. Valores que foram, de certa forma, perdidos ou embrutecidos pela vida, pelo mundo louco, pela pressa e pela urgência que as redes sociais imprimem na vida das pessoas, indistintamente. Recomendo a releitura (ou leitura), faz bem ao coração. Bom domingo!

A VOZ DAS COISAS [JUCA MULATO]

A VOZ DAS COISAS [JUCA MULATO]

E Juca ouviu a voz das coisas. Era um brado:
“Queres tu nos deixar, filho desnaturado?”

E um cedro o escarneceu: “Tu não sabes, perverso,
que foi de um galho meu que fizeram teu berço?
E a torrente que ia rolar no abismo:
“Juca, fui eu quem deu a água para o teu batismo”.

Uma estrela a fulgir, disse da etérea altura:
“Fui eu que iluminei a tua choça escura
no dia em que nasceste. Eras franzino e doente.
E teu pai te abraçou chorando de contente…
— Será doutor! — a mãe disse, e teu pai, sensato:
— Nosso filho será um caboclo do mato,
forte como a peroba e livre como o vento! —
Desde então foste nosso e, desde esse momento,
nós te amamos seguindo o teu incerto trilho
com carinhos de mãe que defende seu filho!”

Juca olhou a floresta: os ramos, nos espaços,
pareciam querer apertá-lo entre os braços!

“Filho da mata, vem! Não fomos nós, ó Juca,
o arco do teu bodoque, as grades da arapuca,
o varejão do barco e essa lenha sequinha
que de noite estalou no fogo da cozinha?
Depois, homem já feito, a tua mão ansiada
não fez, de um galho tosco, um cabo para a enxada?
“Não vás” — lhe disse o azul — “Os meus astros ideais
num forasteiro céu tu nunca os verás mais.
Hostis, ao teu olhar, estrelas ignoradas
hão de relampejar como pontas de espadas.
Suas irmãs daqui, em vão, ansiosas, logo,
irão te procurar com seus olhos de fogo…
Calcula, agora, a dor destas pobres estrelas
correndo atrás de quem anda fugindo delas…”

Juca olhou para a terra e a terra muda e fria
pela voz do silêncio ela também dizia:

“Juca Mulato, és meu! Não fujas que eu te sigo.
Onde estejam teus pés, eu estarei contigo.
Tudo é nada, ilusão! Por sobre toda a esfera
há uma cova que se abre, há meu ventre que espera.

Nesse ventre há uma noite escura e ilimitada,
e nela o mesmo sono e nele o mesmo nada.
Por isso o que te vale ir, fugitivo e a esmo,
buscar a mesma dor que trazes em ti mesmo?
Tu queres esquecer? Não fujas ao tormento.
Só por meio da dor se alcança o esquecimento.

Não vás. Aqui serão teus dias mais serenos,
que, na terra natal, a própria dor dói menos…
E fica que é melhor morrer (ai, bem sei eu!)
no pedaço de chão em que a gente nasceu!”

© MENOTTI DEL PICCHIA
In Juca Mulato, 1917
MENOTTI DEL PICCHIA In Juca Mulato e 1917 Enviado por CYNDYQUADROS em 20/02/2018
Código do texto: T6259054
Texto copiado do blog Recanto das Letras, protegido sob licença CREATIVE COMMONS

(este artigo foi escrito por zeluisbraga, e postado no meu blog zeluisbraga . wordpress . com) (this post is authored by zeluisbraga, published on zeluisbraga . wordpress . com) (from Viçosa, MG(Estou no GoodReads)

Consultor Independente, Treinamento Empresarial, Gerência de Projetos, Engenharia de Requisitos de Software, Inovação. Professor Titular Aposentado, Departamento de Informática, Universidade Federal de Viçosa, Minas Gerais, Brasil. Doutor em Informática, PUC-Rio, 1990. Pós-Doutoramento, University of Florida, 1998-1999

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Publicado em Arte, Educação, Saúde
2 comentários em “A voz das coisas
  1. Rogeria disse:

    Maravilha de texto. E viva a terra onde nasceste.

  2. Telma disse:

    Eu tinha acabado de reler A Voz das Coisas (também assisti 2 vídeos com o poema) quando encontrei seu texto. Encantou-me. Amo o “Juca Mulato” e sua interpretação delicada me tocou o coração. Sim, o poema fala da relação do homem com a natureza, essa relação que precisamos urgentemente resgatar!

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