Cotas: são mesmo necessárias?

Vou deixar aqui minha modesta contribuição à questão das cotas de vagas que estão sendo criadas goela abaixo pelo governo federal, nas universidades públicas. Vou usar um exemplo, que é apenas um entre os milhares que já ocorreram e que continuam ocorrendo por aí, sobre os quais a gente fica sabendo por puro acaso, ou então quando acontecem perto da gente.

A estória é a da XXX, pessoa com quem temos contato aqui em casa, e de quem gostamos muito. Filha de produtor rural da região, desnecessário acrescentar que tem origem humilde, poucos recursos, e que luta pela sobrevivência. Veio para a cidade, arrumou emprego em uma escola infantil, e começou a dar vida aos seus sonhos. Fez vestibular para um curso na área de Ciências Humanas, em escola pública em uma cidade próxima a Viçosa. Passou no vestibular, e encarou o desafio de mudar daqui, sem recursos, para outra cidade e encarar o curso superior. Conversamos muito nessa época, ficamos maravilhados com a tenacidade e foco no sonho que ela tinha e continua tendo. Como é que ela ia fazer para se manter? Pegou as economias que tinha reservado para construir o sonho, mudou-se e foi para a casa de parentes, arrumou emprego numa escola infantil por lá, e encarou o curso. Logo no início do curso, arrumou uma bolsa de iniciação científica em um projeto, ótima aluna, tinha rendimento acadêmico de chamar atenção dos professores. No final do curso, ajudada pela orientadora de iniciação científica, fez contato com um grupo na Unicamp, inscreveu-se no Mestrado por lá, foi aceita, e lá se foi a XXX para Campinas, correndo atrás do sonho. Hoje, mestrado praticamente terminado, ela está aceita no Doutorado na Unicamp. Esteve aqui em casa há poucos dias, casou-se há uma semana e foi morar na Bahia, onde o marido trabalha como professor em universidade pública (a estória do marido é parecida com a dela, mesmos passos, doutor formado aqui na UFV).

Como já disse, essa estória é parecida com a de milhares de brasileiros que têm seu sonho e enfrentam todas as dificuldades que aparecem, para realizar o sonho. Quantas XXX e YYY não existem por ai? Aqui na UFV, os casos parecidos são incontáveis, basta andar pela cidade e pelo campus na época das formaturas, é emocionante ver o grande número de familias humildes que vêm para cá acompanhar filhos, netos, sobrinhos, etc. na reta final da formatura. Mas, afinal, o que é que esse caso tem a ver com o estabelecimento das cotas para vagas em universidades públicas? Ele mostra que a vida não é fácil para ninguém, e que todo mundo tem que lutar pela realização do seu sonho, nada sai de graça. Quanto mais desafios são vencidos, mais valor a gente dá às vitórias alcançadas.

As cotas teriam facilitado a vida da XXX? acho que não, a tenacidade e o foco no sonho estão acima de políticas, preconceitos, cotas, etc. Ela venceu sem precisar das cotas, o marido idem, e todos os demais casos que conheço, idem. E ai me vem a dúvida: as cotas são mesmo necessárias? será que o governo federal não está mais uma vez se intrometendo por decreto em um assunto que já flui naturalmente, já tem uma marcha e muitas estórias de sucesso sem necessidade das cotas? Pelas experiências passadas, as intromissões desse tipo atrapalharam mais do que ajudaram, e nada indica que nesse caso vai ser diferente. O que é necessário, e que parece que os governos em todos os níveis não enxergam ou teimam em não enxergar, é investimento pesado na educação de todos os níveis, principalmente nos níveis mais básicos, todas as estatísticas e estudos em todos os países do mundo mostram esse caminho. Esse investimento é que vai abrir as oportunidades para os jovens poderem sonhar e terem chance de realizar os sonhos.

(XXX, claro, é um nome fictício, mas a estória é real e foi usada aqui como uma demonstração da admiração que temos por essa pessoa)

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Consultor Independente, Treinamento Empresarial, Gerência de Projetos, Engenharia de Requisitos de Software, Inovação. Professor Titular Aposentado, Departamento de Informática, Universidade Federal de Viçosa, Minas Gerais, Brasil. Doutor em Informática, PUC-Rio, 1990. Pós-Doutoramento, University of Florida, 1998-1999

Publicado em Empreendedorismo, Social
5 comentários em “Cotas: são mesmo necessárias?
  1. Sherllon Alves disse:

    Além de casos como esse, que mostram que mesmo sem cotas quem realmente tem um sonho e quer alguma coisa, quando corre atrás, consegue alcançá-lo, também há várias discussões quanto a preconceito e fuga de responsabilidades pelo Governo Federal/Estadual/Municipal. Já que a boa educação deveria ser garantida a todos, seja negro, pardo, índio, “branco”. Seja pobre, rico, classe média. As cotas podem até ser aceitas por um pqríodo de tempo pequeno, mas por medida de lei improrrogável, e que nesse meio tempo a educação nas escolas básicas públicas seja reforçada, melhorada e garantida a todos que querem estudar. Só assim garantiremos que o “Joãozinho” da morro terá as “mesmas” chances do “Carlinho” do bairro nobre da cidade.

    Parabéns professor por esse post, pois é um assunto polêmico e que a sociedade brasileira deve ver todos os lados para tomar sua posição e decidir pelo que é melhor.

  2. Marcio Molica disse:

    Gostaria de acrescentar que a questão das cotas para negros ou estudantes de escolas públicas é apenas uma maquiagem da realidade brasileira. O argumento principal para as cotas é que existe desigualdade no brasil (com “b” minusculo mesmo!). É verdade, somos um pais desigual. Qual é o caminho encontrado por nós para diminuir esta desigualdade? Estas malditas cotas. Porque nao se discute a real causa da desigualdade? Por que nao falar abertamente que o governo (qualquer governo! Lula, FHC, Collor, Sarney) nunca se preocupou com os serviços que ele tem realmente que oferecer:saúde, educação, segurança. Se houvesse no brasil escola pública de 1o e 2o graus de boa qualidade certamente um número muito maior de pessoas das classes menos favorecidas poderiam alcançar a Universidade Pública (notoriamente de melhor qualidade). Mas ao invés de encarar a realidade dá-se o “jeitinho brasileiro (com b cada vez mais minúsculo)” e maqueia-se a realidade com as cotas. Escola pública de boa qualidade só não é bom para as escolas particulares que teriam uma concorrente real no seu negócio. Para ricos e pobres ela seria ótima, para os primeiros seria uma opção a baixo custo e para os pobres um meio real de mudar as suas vidas.
    Fui aluno de escola pública (de baixa qualidade) minha vida toda e mesmo assim consegui chegar a Universidade. Não sou gênio, nem melhor do que ninguém. Grande parte da minha familia (Grande Cajuri e redondezas) fez o mesmo trajeto. É possível chegar lá! Chega de assistencialismo! Chega de incompetência administrativa! O brasil precisa se tornar Brasil!

  3. gustavo ribeiro disse:

    Boa postagem zeh, concordo plenamente. O que falta eh investimento na educação, principalmente educação basica e nas pequenas cidades.

  4. Almir Alves do Sacramento disse:

    Não tenho certeza se posso expressar aqui o meu ponto de vista mas, concordo com apenas alguns aspectos desta análise. Um dado interessante sobre o porque da minha opinião, certamente, se justificará pela reação, esperada, daqueles que, eventualmente, lerão este comentário e reagirão feroz e agressivamente a ele. Ninguém é bobo o suficiente para deixar de considerar a irresponsabilidade deste e de todos os governos anteriores a este respeito. O problema não está aqui e sim, na questão do racismo, que, para quem não está vestido com uma pele escura, e insistentemente, muitas vezes até, de boa fé, trabalha ferozmente contra a ascenção social e econômica daqueles que foram premiados por esta cútis singular. Este fenômeno não se restringe, claro, às terras brasileiras e, precisamos aceitar, deve ser combatido por todos os homens de boa vontade. A questão, também, jamais poderá ser exemplificada por alguém que representa uma parcela ínfima daqueles que apresentam esta cor de pele, sabendo-se que no Brasil quanto mais escura a pele, maior o preconceito enfrentado. A realidade é muito mais honestamente ilustrada pelas multidões que estão à margem. Chega a ser engraçado a gente, com a formação que tem e sabe que estatísticamente estes exemplos se enquadrariam na categoria do risível, por se aproximarem do desprezível, se utilizar deste recurso para apresentar conclusões a respeito de um tema tão complexo. Eu também conheço pessoas que poderiam ilustrar este tema. Gente com um potencial enorme que se perdeu por falta de oportunidade. Gente que foi tolhida pelo simples fato de ser negro, ter cara de bandido e ser tido como feio, como acham alguns. Eu acho que a gente deveria ter a coragem de tocar em algumas coisas que normalmente a gente evita por uma questão de que não fica bem.
    Bom, já que o tema foi lançado, acho legal discordar um pouco e apresentar o ponto de vista de alguém que sentiu, na própria pele, este problema e que, à semelhança de XXXX, também triunfou mas, não deixa de reconhecer as dificuldades de tantos marginalizados. Para ilustrar o meu ponto de vista, quero narrar uma situação vivida por mim há alguns anos, na minha cidade.
    – Há muitos anos eu estava em uma fila de rapazes, aguardando para me inscrever para fazer o CPOR quando fui interpelado por um capitão que, ao passar pelo local e me ver naquela fila, não se conteve e veio me arguir sobre o por que de eu estar naquela fila. Após as explicações cabíveis, ele me disse que a minha fila não era aquela e sim uma outra que se fazia nos fundos do quartel, onde deveriam se inscrever aqueles que desejassem servir como recrutas. Quando expliquei que já havia me informado e que aquela era mesmo a minha fila, já que eu preenchia os requisitos necessários, fui violentamente retirado dela e ouvi que aquele oficial simplesmente não admitiria a minha presença no CPOR. Bem, após um festival de humilhações insisti em permanecer naquela fila, posteriormente fiz os testes e fui aprovado em 13º lugar em uma concorrência de mais de 500 candidatos e ingressei no curso. Naquele ano tive a oportunidade de experimentar todo o tipo de vilaneza da parte daquele oficial que, nas suas próprias palavras, tudo faria para que eu desistisse. A ponto de tentar me fazer, no vocabulário dos milicos, “aloprar” para que ele pudesse ter o prazer de me expulsar dali, o que, graças a Deus, não ocorreu. Bem, eu estou utilizando este exemplo particular para narrar uma entre centenas de situações semelhantes vividas por mim, pessoalmente, ao longo dos meus quase cinquenta anos de vida, em vários estados deste país. Estas situações demonstram que não se trata de capacidade ou intenção e sim, admitamos, puro preconceito. Nas situações que eu vivi não houve sequer tempo para que a pessoa obtivesse alguma informação a meu respeito. Havia sim, uma reação à possibilidade de eu invadir a praia que, por direito divino, era exclusiva de um grupo e, para a qual, eu não estava convidado.Desta mesma forma, também se repetem diariamente, por este Brasil a fora, situações semelhantes. As cotas são sim, uma injustiça. Mas, como ocorre onde elas são aplicadas, como é o caso da reserva, que curiosamente não causa qualquer questionamento, de um percentual de vagas em um concurso público para portadores de necessidades especiais, elas são uma tentativa de permitir o ingresso de pessoas que, de outra forma, teriam o seu acesso tolhido, sob os mais diversos pretextos. Elas são injustas sim. Mas se trata daquilo que é chamado pelos estudiosos do tema de “Discriminação Positiva”, com o intuito de, minimamente, contribuir para uma distribuição mais equitativa dos recursos amealhados via impostos e que penalizam mais pesadamente as classes populares que não têm recebido dos governos a atenção merecida. Sempre me impressionou o como este debate sempre se apresenta de forma apaixonada, nunca com a devida racionalidade e honestidade, ocasião em que, todos nós poderíamos perceber os eventuais benefícios da aplicação, temporária, desta medida de exceção. Espero, sinceramente, não ter sido agressivo, me pedrdoem se causei esta impressão por alguma frase infeliz. Não era esta a minha intenção. O que eu gostaria era apenas de expressar a minha opinião que, tantas vezes, não tem encontrado algum fórum apropriado e, talvez por esta razão, me levou a expressá-la aqui.

  5. Prezado Almir: antes de mais nada obrigado por seu comentário, sinto esse blog homenageado por você, que se dispôs a acessá-lo e a deixar nesta postagem um depoimento pessoal tão valioso. Prova de que o blog está atingindo um dos seus objetivos, que é o de ser mais um espaço onde as idéias e o debate possam fluir livremente. Li seu comentário atentamente, emocionado e indignado ao mesmo tempo com o que você relata. Não há como negar, o preconceito existe e aflora com frequência, certamente vários outros casos como o seu acontecem com frequência pelo mundo afora. A questão das cotas é uma discussão longa, e concordo que elas poderão ter um grande efeito positivo, desde que implantadas por um período de tempo determinado e improrrogável, e desde também que o problema fundamental, que a meu ver é o acesso universal ao ensino básico de qualidade que permita a todos, indistintamente, ascenderem e perseguirem seus sonhos e designios, seja atacado e resolvido. Abraço, continue firme aqui no blog, outros temas polêmicos virão em breve.

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